Visão As Primaveras · Capítulo 39 de 70
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Visão

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Uma noite, meu Deus, que noite aquela!

Por entre as galas, no fervor da dança,

Vi passar, qual num sonho vaporoso,

O rosto virginal duma criança.

Sorri-me - era o sonho de minh'alma

Esse riso infantil que o lábio tinha:

- Talvez que essa alma dos amores puros

Pudesse um dia conversar co'a minha!

Eu olhei, ela olhou... doce mistério!

Minh'alma despertou-se à luz da vida,

E as vozes duma lira e dum piano

Juntas se uniram na canção querida.

Depois eu indolente descuidei-me

Da planta nova dos gentis amores,

E a criança, correndo pela vida,

Foi colher nos jardins mais lindas flores.

Não voltou; - talvez ela adormecesse

Junto à fonte, deitada na verdura,

E - sonhando - a criança se recorde

Do moço que ela viu e que a procura!

Corri pelas campinas noite e dia

Atrás do berço d'ouro dessa fada;

Rasguei-me nos espinhos do caminho...

Cansei-me a procurar e não vi nada!

Agora como um louco eu fito as turbas

Sempre a ver se descubro a face linda...

- Os outros a sorrir passam cantando,

Só eu a suspirar procuro ainda!...

Onde foste, visão dos meus amores!

Minh'alma sem te ver louca suspira!

- Nunca mais unirás, sombra encantada,

O som do teu piano à voz da lira?!...

Setembro - 1858

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