Segredos As Primaveras · Capítulo 24 de 70
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Segredos

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Eu tenho uns amores - quem é que os não tinha

Nos tempos antigos? - Amar não faz mal;

As almas que sentem paixão como a minha

Que digam, que falem em regra geral.

- A flor dos meus sonhos é moça e bonita

Qual flor entreaberta do dia ao raiar,

Mas onde ela mora, que casa ela habita,

Não quero, não posso, não devo contar!

Seu rosto é formoso, seu talhe elegante,

Seus lábios de rosa, a fala é de mel,

As tranças compridas, qual livre bacante,

O pé de criança, cintura de anel;

- Os olhos rasgados são cor das safiras

Serenos e puros, azuis como o mar;

Se falam sinceros, se pregam mentiras,

Não quero, não posso, não devo contar!

Oh! ontem no baile com ela valsando

Senti as delícias dos anjos do céu!

Na dança ligeira qual silfo voando

Caiu-lhe do rosto seu cândido véu!

- Que noite e que baile ! - Seu hálito virgem

Queimava-me as faces no louco valsar,

As falas sentidas que os olhos falavam

Não posso, não quero, não devo contar!

Depois indolente firmou-se em meu braço,

Fugimos das salas, do mundo talvez!

Inda era mais bela rendida ao cansaço

Morrendo de amores em tal languidez!

- Que noite e que festa! e que lânguido rosto

Banhado ao reflexo do branco luar!

A neve do colo e as ondas dos seios

Não quero, não posso, não devo contar!

A noite é sublime! - Tem longos queixumes,

Mistérios profundos que eu mesmo não sei:

Do mar os gemidos, do prado os perfumes,

De amor me mataram, de amor suspirei!

- Agora eu vos juro... Palavra! - não minto

Ouvi-a formosa também suspirar;

Os doces suspiros que os ecos ouviram

Não quero, não posso, não devo contar!

Então nesse instante nas águas do rio

Passava uma barca, e o bom remador

Cantava na flauta: - "Nas noites d'estio

O céu tem estrelas, o mar tem amor!" -

- E a voz maviosa do bom gondoleiro

Repete cantando: - "viver é amar!" -

Se os peitos respondem à voz do barqueiro...

Não quero, não posso, não devo contar!

Trememos de medo... a boca emudece

Mas sentem-se os pulos do meu coração!

Seu seio nevado de amor se intumesce...

E os lábios se tocam no ardor da paixão!

- Depois... mas já vejo que vós, meus senhores,

Com fina malícia quereis me enganar.

Aqui faço ponto; - segredos de amores

Não quero, não posso, não devo contar!

Rio - 1857.

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