À morte de Affonso de A. Coutinho Nesseder, estudante da Escola Central As Primaveras · Capítulo 54 de 70
Obra Menu

À morte de Affonso de A. Coutinho Nesseder, estudante da Escola Central

À morte de Affonso de A. Coutinho Nesseder, estudante da Escola Central

É triste ver a flor que desabrocha

Ou quer no prado, ou na deserta rocha,

Pender no fraco hastil!

É bem triste dos anos nos verdores

Morrer mancebo, no brotar das flores,

Na quadra juvenil!

Meu Deus! tu que és tão bom e tão clemente,

P'ra que apagas, Senhor, a chama ardente

Num crânio de vulcão?

P'ra que poupas o cedro já vetusto

E, sem dó, vais ferir o pobre arbusto

Às vezes no embrião?!...

Pois não fora melhor vivesse a planta

Cujo perfume a solidão encanta

No sossego do val?...

- Não veríamos nós neste martírio

Desfalecer tão belo o pobre lírio

Pendido ao vendaval!

Pobre mancebo! Nesse peito nobre

E nessa fronte que o sepulcro cobre

Era fundo o sentir!

Agora solitário tu descansas,

E contigo esse mundo de esperanças

Tão rico de porvir!

Oh! lamentemos essa pura estrela

Sumida, como no horizonte a vela

Nas névoas da manhã!

A sepultura foi há pouco aberta...

Mas o dormente já se não desperta

À voz de sua irmã!

É mudo aquele a quem irmão chamamos,

E a mão que tantas vezes apertamos

Agora é fria já!

Não mais nos bancos esse rosto amigo

Hoje escondido no fatal jazigo

Conosco sorrirá!

Mancebo, atrás da glória que sorria,

Sonhou grandezas para a pátria um dia,

E a ela os sonhos deu;

Mártir do estudo, na ciência ingrata

Bebeu nos livros esse fel que mata

E pobre adormeceu!

Era bem cedo! - na manhã da vida

Chegar não pôde à terra prometida

Que ao longe lhe sorriu!

Embora desta estrada nos espinhos

Feliz tivesse os maternais carinhos,

Cansado sucumbiu!

Era bem cedo! - Tanta glória ainda

O esperava, meu Deus, na aurora linda

Que a vida lhe dourou!

Pobre mancebo! no fervor dessa alma

Ao colher do futuro a verde palma

Na cova tropeçou!

Dorme pois! Sobre a campa mal cerrada,

Nós que sabemos que esta vida é nada

Choramos um irmão;

E d'envolta c'os prantos da amizade

Aqui trazemos, nos goivos da saudade,

As vozes da oração!

Eu que fui teu amigo inda na infância,

Quando as almas das rosas na fragrância

Bendizem só a Deus -

Hoje venho nas cordas do alaúde

Sentido e grave, à beira do ataúde

Dizer-te o extremo adeus!

Descansa! se no céu há luz mais pura,

De certo gozarás nessa ventura

Do justo a placidez!

Se há doces sonhos no viver celeste,

Dorme tranqüilo à sombra do cipreste...

- Não tarda a minha vez!

Maio - 1858.

1/1
Menu

Fazer anotação