Ilusão As Primaveras · Capítulo 47 de 70
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Ilusão

Ilusão

Quando o astro do dia desmaia

Só brilhando com pálido lume,

E que a onda que brinca na praia

No murmúrio soletra um queixume;

Quando a brisa da tarde respira

O perfume das rosas do prado,

E que a fonte do vale suspira

Como o nauta da pátria afastado;

Quando o bronze da torre da aldeia

Seus gemidos aos ecos envia,

E que o peito que em mágoas anseia

Bebe louco essa grave harmonia;

Quando a terra, da vida cansada,

Adormece num leito de flores

Qual donzela formosa embalada

Pelos cantos dos seus trovadores;

Eu de pé sobre as rochas erguidas

Sinto o pranto que manso desliza

E repito essas queixas sentidas

Que murmuram as ondas co'a brisa.

É então que a minha alma dormente

Duma vaga tristeza se inunda,

E que um rosto formoso, inocente,

Me desperta saudade profunda.

Julgo ver sobre o mar sossegado

Um navio nas sombras fugindo,

E na popa esse rosto adorado

Entre prantos p'ra mim se sorrindo!

Compreendo esse amargo sorriso,

Sobre as ondas correr eu quisera...

E de pé sobre a rocha, indeciso,

Eu lhe brado: - não fujas, - espera!

Mas o vento já leva ligeiro

Esse sonho querido dum dia,

Essa virgem de rosto fagueiro,

Esse rosto de tanta poesia!...

E depois... quando a lua ilumina

O horizonte com luz prateada,

Julgo ver essa fronte divina

Sobre as vagas cismando, inclinada!

E depois... vejo uns olhos ardentes

Em delírio nos meus se fitando,

E uma voz em acentos plangentes

Vem de longe um - adeus - soluçando!

Ilusão!... que a minha alma, coitada,

De ilusões hoje em dia é que vive;

É chorando uma glória passada,

É carpindo uns amores que eu tive!

Lisboa - 1856.

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