Sempre sonhos!... As Primaveras · Capítulo 35 de 70
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Sempre sonhos!...

Sempre sonhos!...

Se eu tivesse, meu Deus, santos amores,

Eu m'erguera cantando essa paixão,

E atirara p'ra longe - sem saudade -

Este véu que me cobre a mocidade

De tanta escuridão!

Eu que sou como o cardo do rochedo

Quase morto dos ventos ao rigor,

Encontrara de novo a minha vida,

O sol da primavera e a luz perdida,

Nos braços desse amor!

Minha fronte, que pende sofredora

Acharia, meu Deus, inspirações,

E o fogo que queimou Gilbert e Dante

Correria mais puro e mais constante

Na lira das canções!

No mundo tão gentil dos devaneios

Minh'alma mais feliz saudara a luz,

E apagara, Senhor, num beijo puro

A dor imensa da perda do futuro

Que à morte me conduz.

Por ela eu deixaria a voz das turbas

E esta ânsia infeliz de gloria vã;

Na vida que nos corre tão sombria

Eu seria, meu Deus, seu doce guia,

E ela - minha irmã!

Eu velara, Senhor, pelos seus dias,

Como a mãe vela o filho que dormiu:

Se um dia ela soltasse um só gemido,

Eu iria saber porque ferido

Seu seio assim buliu!

Como à sombra das árvores da pátria

S'embala a doce filha dos tupis,

A sombra da ventura e da esperança

Embalara, meu Deus, essa criança

Nos cantos juvenis!

Como o nauta olha o céu de primavera,

Eu, sentado a seus pés, ébrio de amor,

Espreitara tremendo no seu rosto

A sombra fugitiva dum desgosto,

À nuvem duma dor!

Eu lhe iria mostrar nos hinos d'alma

Outro mundo, outro céu, outros vergéis;

Nossa vida seria um doce afago,

Nós - dois cisnes vogando em manso lago,

- Amor - nossos batéis!

Se eu tivesse, meu Deus, santos amores,

Eu deixara este amor da glória vã;

Nesse mundo de luz, doce e risonho,

A pudibunda virgem do meu sonho

Seria minha irmã!

.... - 1858

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