No jardim As Primaveras · Capítulo 64 de 70
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No jardim

No jardim

Ela estava sentada em meus joelhos

E brincava comigo - o anjo louro,

E passando as mãozinhas no meu rosto

Sacudia rindo os seus cabelos d'ouro.

E eu, fitando-a, abençoava a vida!

Feliz sorvia nesse olhar suave

Todo o perfume dessa flor da infância,

Ouvia alegre o gazear dessa ave!

Depois, a borboleta da campina

Toda azul - como os olhos grandes dela -

A doudejar gentil passou bem junto

E beijou-lhe da face a rosa bela.

- Oh! como é linda! disse o louro anjinho

No doce acento da virgínea fala -

Mamãe me ralha se eu ficar cansada

Mas - dizia a correr - hei de apanhá-la! -

Eu segui-a chamando-a, e ela rindo

Mais corria gentil por entre as flores,

E a - flor dos ares - abaixando o vôo

Mostrava as asas de brilhantes cores.

Iam, vinham, à roda das acácias,

Brincavam no rosal, nas violetas,

E eu de longe dizia: - Que doidinhas!

Meu Deus! meu Deus! são duas borboletas!...

Dezembro - 1858.

LXIV

RISOS.

Ri, criança, a vida é curta,

O sonho dura um instante.

Depois... o cipreste esguio

Mostra a cova ao viandante!

A vida é triste - quem nega?

- Nem vale a pena dizê-lo.

Deus a parte entre seus dedos

Qual um fio de cabelo!

Como o dia, a nossa vida

Na aurora é - toda venturas,

De tarde - doce tristeza,

De noite - sombras escuras!

A velhice tem gemidos,

- A dor das visões passadas -

A mocidade - queixumes,

Só a infância tem risadas!

Ri, criança, a vida é curta,

O sonho dura um instante.

Depois... o cipreste esguio

Mostra a cova ao viandante!

Rio - 1858.

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