*** As Primaveras · Capítulo 67 de 70
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Pobre criança que te afliges tanto

Porque sou triste e se chorar me vês,

E que borrifas com teu doce pranto

Meus pobres hinos sem calor, talvez;

Deus te abençoe, querubim formoso,

Branca açucena que o paul brotou!

Teu pranto é gota de celeste gozo

Na úlcera funda que ninguém curou.

Pálido e mudo e do caminho em meio

Sentei-me à sombra sofredor e só!

Do choro a baga umedeceu-me o seio,

Da estrada a gente me cobriu de pó!

Meus tristes cantos comecei chorando,

Santas endechas, doloridos ais...

E a turba andava! Só de vez em quando

Lânguido rosto se volvia atrás!

E louca a turba que passou sorrindo

Julgava um hino o que eu chamava um ai!

Alguém murmura: - Como o canto é lindo! -

Sorri-se um pouco e caminhando vai!

Bendito sejas, querubim de amores,

Branca açucena que o paul brotou!

Teu pranto é gota que mitiga as dores

Da úlcera funda que ninguém curou!

Há na minh'alma alguma cousa vago,

Desejos, ânsias, que explicar não sei:

Talvez - desejos - dalgum lindo lago,

- Ânsias- dum mundo com que já sonhei!...

E eu sofro, oh anjo; na cruel vigília

O pensamento inda redobra a dor,

E passa linda do meu sonho a filha

Soltas as tranças a morrer de amor!

E louco a sigo por desertos mares,

Por doces veigas, por um céu de azul;

Pouso com dia nos gentis palmares

À beira d'água, nos vergéis do sul!...

E a virgem foge... e a visão se perde

Por outros climas, noutro céu de luz;

E eu - desperto do meu sonho verde -

Acordo e choro carregando a cruz!

Pobre poeta! na manhã da vida

Nem flores tenho, nem prazer também!

- Roto mendigo que não tem guarida -

Tímido espreito quando a noite vem!

Bendito sejas, querubim de amores,

Branca açucena que o paul brotou!

Teu doce pranto me acalenta as dores

Da úlcera funda que ninguém curou!

A minha vida era areal despido

De relva e flor e na estação louçã!

Tu foste o lírio que nasceu, querido,

Entre a neblina de gentil manhã.

Em ondas mortas meu batel dormia,

Chorava o pano a viração sutil,

Mas veio o vento no correr do dia

E, leve, o bote resvalou no anil.

Eu era a flor do escalavrado galho

Que a tempestade no passar quebrou;

Tu foste a gota de bendito orvalho

E a flor pendida a reviver tornou.

Teu rosto puro restitui-me a calma,

Ergue-me as crenças, que já vejo em pé;

E teus olhares me derramam n'alma

Doces consolos e orações de fé.

Não serei triste; se te ouvir a fala

Tremo e palpito como treme o mar,

E a nota doce que teu lábio exala

Virá sentida ao coração parar.

Suspenso e mudo no mais casto enlevo

Direi meus hinos c'os suspiros teus,

E a ti, meu anjo, a quem a vida devo

Hei de adorar-te como adoro a Deus!

... - 1858.

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