Capítulo I A Silveirinha · Capítulo 1 de 20
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Capítulo I

Petropolit. Noite de fetta em casa do banqueiro Ivan Kortakoff. — Roberto? — Sra. Condessa?... — Quem é aquela morena que está conversando acolá com o Ministro da Itália? — E' a mulher do João Zacarias. O advogado Zacarias; não conhece? — Sim, sim; a ele muito bem; mas supunha-o viuvo, ou casado com alguma jararaca que tivesse pejo de apresentar em publico... E' fantástico como esta pequena Petropolis ainda nos fornece sorprezas! — E' que essa senhora freqüenta pouco. Vive toda voltada para o marido e para os filhos. — Não sei como ha quem possa viver toda a vida voltada para o Zacarias! Roberto riu-se e acrescentou : — Chamara-lhe por aí, Mme Z. tout court. — Ah, éessa a tal Mm' Z!... — Em pessoa. — O Zacarias é rico? — O Zaxarias, como diz o Comendador Brandão — está bem. — Oh, Ia lá! repare para o colar que traz a Ministra da China! e dizer-se que ha tanto colo bonito que nunca sentiu o peso de uma jóia... — Ao menos emquanto a gente olha para os brilhantes... — O marido orgulha-se da sua propriedade! Nesse instante um homem alto, espadaudo, louro, passou rente á Condessa. Era o ministro da Noruega. Como a não tivesse visto ela puxoulhe pela manga da casaca : — Ingrat! 11 y a plus (Pune demi-heure que je vous attends, et voilà que vous passezprès de moi sans me dire un mot? O ministro curvou a cabeça rosada, mal coberta por uma cabeleira curta, còr de palha seca, dividida em duas exíguas pastinhas retorcidas, e murmurou depois de ter roçado o bigode macio pela mão sem luva da condessa : — Pardon, Madaine, mais, croyez-le, óétait à cause de vous-même... Je vous imaginais là-bas, au fond du salon... Et fy aliais, pour vous baiser Ia main, sans même regarder personne... — Flatteur, va!... Eh bien, ou est madame? — La voilà. Olharam. A ministra entrava pelo braço do banqueiro Korsakoff, dono da casa. Ele, sorridente, deixando flutuar as lindas barbas brancas sobre o largo peito bem apresentado; ela, seca, com os longos braços finos bailando dentro de umas altas luvas, e a boca entreaberta num sorriso que lhe mostrava os dentes grandes, brancos como amêndoas descascadas. Logo após, o ministro de Portugal conduzia Madame Baltazar Luz, a serpentina madame Luz, das belas toilettes e dos olhos de esmeralda, a quem Petropolis denominava — Pratinho de arroz doce — por aparecer em toda a parte, como se o arroz doce aparecesse em toda a parte... Vendo-a, a condessa voltou-se para o seu amigo Roberto, arregalando os olhinhos castanhos : — Sem canela. Roberto respondeu com o olhar, que não tinha entendido. Que diabo quereria dizer : sem canela? O ministro norueguez resmungou ainda algumas amabilidades. Quando o viu afastar-se a condessa explicou : — A Balthazar Luz está toda de branco; só leite e assucar. Por milagre parece ter-se esquecido até do carmin. Reparou? Roberto Flores não achou graça á condessa, que sempre que o espirito não lhe vinha naturalmente, o procurava á fina força. Por infelicidade para os outros, nem sempre o encontrava... — No que reparei, respondeu ele, é que lhe vai a matar aquela túnica bordada a prata. Vem luminosa, como o próprio nome. — Sim, ao menos ela sabe vestir-se... e despir-se, porque aquele decote é bem atrevido. Roberto sorriu e observou : — As duas Silveirinhas parece que estão procurando alguma cousa... — Maridos! A mais nova está cada vez mais esganiçada... Será de tanto cantar de soprano. Hontem na Capela do Colégio fiquei arrepiada ao Quvil-a. A Guiomar foi pedida em casamento por um medico velhote, um tal Jordão... — Bem vê que ao menos essa já não preciza procurar marido... Mas, o Jordão não é tal velhote. E' um rapaz de trinta e poucos anos, e bonitão. Sabe se foi aceito? — Foi. De onde o conhece você? — Nem sei... de toda a parte. — E' de boa família? será da casa Jordão, do Rio Negro ? — Talvez... Sei que é um medico estudioso, e livre-pensador... — Já me disseram. Contaram-me até que, por saber dis30, a Silveirinha, ao ser chamada pelo pai á sala para responder ao pedido do noivo, se apresentou com todas as insignias religiosas que pôde arranjar na ocasião : fita ao pescoço, de Filha de Maria; no peito todas as medalhas de santos e santas da corte celeste ; e, pendente das mãos, um grande rosário de contas grossas como araçás. A SlLVEIRINHA — Historias... — Verdade! E' singular aquela pequena. Para mim, ela está doida... — De amor. Eu acho-a muito interessante. — Bem sei. Por que não se apressou você?... — Por covardia... talvez... — Não duvido. E fez bem. Com idéas tão dissemilhantes viveriam depois num conflito... — Ah, por isso não! A minha lógica desfaria todos os seus preconceitos... — Não creia! Mais facilmente a Silveirinha o converteria, a você. Verá o que vai acontecer ao outro. Olhe, o duelo começou mesmo antes do casamento. — Como assim? — Pois não acabei de lhe contar que ela se apresentou ao noivo coberta de santinhos ? Certamente que não fez aquilo, senão para o avisar : veja bem como eu sou e quais as minhas idéas! — E ele? — Ora, ele naturalmente nem reparou; ou cuidará, como você, que isso não tem importância e que com a sua lógica de ferro demolirá os preconceitos da menina... Muito vaidosos são os homens! O que lhe afirmo é que se fosse minha filha com um ateu não se casaria ela, nem que m'o pedisse de joelhos Mas o Silveira não tem escrúpulos; tomara ele ver-se livre da filha... — Olhe, lá vem a nossa terrível Magdalena! 1. IO A SlLVEIRINHA — Por que a chama assim? — Porque ela é implacável para com toda u gente... Não poupa ninguém, nem o próprio marido, quando se quer rir á custa das fraquezas alheias... Apezar de tudo, eu gosto dela e das suas mordacidades... Diverte-me. Naturalmente procura pretextos para mostrar os dentes, que são lindos... — Vá nessa ilusão indagar porque estarão hoje aqui o Zacarias e a senhora. — Ele é advogado do Consulado russo; talvez essa circumstancia o tivesse aproximado do Korsakoff. Entretanto, condessa, que noticias me dá da sua inseparável amiga D. Clara? — Clara deve estar na outra sala, conversando com o Max, que é de uma fidelidade de molosso... Nesse instante a consuleza da Holanda precipitou-se para a condessa, perguntando-lhe em francês pelo programa da festa. Falava-se numa sorpreza. — Oui, ma chère. Nous allons voir danser Ia maxixe... E a condessa, fixando nas pupilas deslavadas da outra os seus olhinhos castanhos, já sublinhados por um núcleo de pequenas rugas, indagou se isso lhe daria prazer. — Maxixe... peut-être... sais pas... Cest Ia danse nationale, riest-ce pas ? Qui va Ia danser 1 vous? A SlLVEIRINHA I I — Oh, non, par exemple! E logo, arrependendose da sua exclamação : — Mr. Roberto Flores... le connaissez-vous ? — Charmée, Monsieur... A condessa acrescentou maliciosamente : — Je pense que ce será lui, le danseur... — Vraiment/ e a holandeza apertou a mão de Roberto Flores com uma sacudidela de antecipada admiração. — Madame Ia comtesse se moque de moi... confessou ele. — Pas du tout! pas du toul! Riram-se; e Roberto, desculpando-se, afastouse e desapareceu atraz do reposteiro da sala contígua, onde D. Clara palestrava a meia voz com o capitalista Carlos Max, ostentando a brancura artificial do colo gordo. Junto á janela, um casal de americanos moços tecia o seu « flirt » entre o fulgor das lâmpadas elétricas e o piscar das estrelinhas do céu. Vinha da rua um cheiro forte, das magnolias ao relento. Num angulo da sala, o dr. Zacarias conversava com o Gastão Soares, um rapaz adido á Legação brazileira junto ao Vaticano, e que estava agora em viligiatura em Petropolis, depois de oito anos de ausência da pátria. Roberto aproximou-se. — Então ? perguntou-lhe Gastão Soares. — E* sempre a mesma cousa. Todas as festas I a A SlLVEIRINHA iguais. E esboçou um gesto de enfado. Estupidamente iguais. — Não senhor, protesto. Hoje teremos uma novidade sensacional. — O maxixe ?! Ora adeus ! Ha muita gente aí indignada com semelhante idéa... E' exquisito, realmente, fazer-se dansar o maxixe por negros num salão aristocrático, como apresentação do que ha no paiz de curioso e interessante... — Os estrangeiros gostam ! — Se é de assuntos nacionais que se trata, poderiam ler de preferencia convidado alguma mocinha de família para tocar violão e cantar modinhas. A filha do tabelião Reis, por exemplo... Afinal, isso sempre seria outra cousa... — Certamente que seria outra cousa, respondeu Gastão; mas outra cousa muito menos pitoresca. A civilização aprecia contrastes, tem os nervos gastos, preciza de estimulantes, e, para esse efeito, — quanto peor, melhor. Acredite, os europeus estão fartos até ás copas dos chapéus de cançonetas de salão, cantadas por moças de família. E eu também. Que venham os negros de beiço grosso, cheirando a almiscar; quanto mais exóticos íorem, tanto mais apreciáveis' serão. Quando daqui a pouco os nossos creoulos se derrearem nos volteios e requebros da sua dança, verá você como estes norueguezes e montenegrinos se babam de gozo e pedem bis! A SlLVEIRINHA l 3 — Antes disso, musco-me! confessou o Zacarias, abandonando os dous amigos, que por sua vez se dirigiram para a porta do salão. — Deixe lá a opinião dos europeus, insistiu Roberto Flores; a que eu quero conhecer é a sua. — A minha, é que venham os negros. — Decididamente, a distancia em que você tem vivido do Brazil, amoleceu-lhe a fibra patriótica... — Declaro-lhe, meu amigo, que é de supremo mau gosto falar nessa cousa num salão. Deixe a fibra patriótica para os « meetings » da praça publica e diga-me quem é aquela rapariguinha de côr de rosa, que parece querer esconder-se toda atráz das sobrancelhas. Que peluda! — E' a cunhada das Guimarães e irmã do Oscar e do Raul... um bom partido. — Se me quizesse por pretendente, teria de mandar desbastar os supercilios... E aquela senhora pisca-pisca, com quem você tem estado a conversar, quem é? — Ah, essa é a Condessa Penha-rosa! Viuva do Dr. Penha-rosa, um pernambucano dado á literatura; conheceu? — Não. Titulo do papa? — Benza-o Deus. — E pensem lá nunca em suprimir a legação brazileira junto ao Vaticano... E' inteligente? — E muito curiosa. Imagine você que me l 4 A SlLVEIRINHA incumbiu de indagar porque estará hoje aqui a Madame Z.! — Se quizer, poderei adiantar alguma cousa nesse sentido. Madame Z. saiu hoje da toca, por ter conseguido do Ivan Korsakoff um convite para um advogado da roça, a quem ela protege, e que se sentiria«gaúche » numa sociedade inteiramente desconhecida. 0 rapaz é timido e ela não quiz confiar ao marido o encargo de o aproximar das damas elegantes. Olhe, lá está ela a apresental-o á Baltazar Luz. — Quer queimal-o... — Não sei quais foram as circumstancias que o aproximaram do Zacarias; mas devem ter sido poderosas. Parece que o tal provinciano é ambicioso. — E feio, mas teve sorte. Como se chama? — Não sei quê... Dias. — Outra cousa; você é amigo dessa gente, deve saber : por que chamarão á mulher do Zacarias Madame Z..' — Ela é Zélia. Por abreviatura, e por pieguice, chamavam-lhe em pequena Z. como lhe poderiam chamar T. ou Têté ou Lulú... Cresceu, mas ninguém se desacostumou de a tratar desse modo. Aconteceu casar-se com um homem cujo nome principia também por Z. As amigas começaram então, por brincadeira, a designal-a por Madame Z. E o costume pegou. A SlLVEIRINHA l 5 — Parece um nome de opereta. — E é o de uma senhora absolutamente séria. A propósito : sabe que a Silveirinha está noiva? — Sei; do Dr. Jordão. — Um belo rapaz. Por seu lado ela é original. — Delicada, mas um pouco taboa... — Tem a palidez das estericas. Mas o que eu mais aprecio nela são os olhos. Repare. Não são reveladores de uma alma inconfundível? — Bem; deixe-me agora ir cumprimentar a senhora ministra da Inglaterra. Havia borborinho na sala. Conversava-se alto e alegremente, emquanto um pianista gordo expandia lirismo num noturno de Chopin. Serviram-se sorvetes e ainda uma menina loura teve a coragem de tocar uma fantazia italiana, numa harpa mandada ir para esse efeito, propositadamente, do Rio, com muita despeza e maior maçada. Mas ninguém fazia caso da harpa nem da menina loura, para quem só os pais voltavam olhos de desmedida atenção. O sussurro diminuiu quando a Madame Korsakoff, atravessando a sala com o seu passo incerto de coxa, declarou alto que a Silveirinha ia recitar, a seu pedido, um poema de François Coppée. — Un beau poème, plein de tendresse et d'amour! Alta e esguia, de uma tez enluarada, a Silveirinha linha nos olhos castanhos e rasgados um l 6 .V SILVEIRINHA brilho forte, denunciador de qualidades excepcionais. Antes de começar a recitar, declarou á Sra. Korsakoff que seria essa a ultima vez que se exibia em publico, porque se ia casar dias depois e não achava que a uma senhora casada ficassem bem essas cousas... A Sra. Korsakoff mostrou-se lisonjeada por aquela despedida e comunicou-a aos amigos. Vendo a Silveirinha de pé, com a mãosinha pronta para o gesto airoso, o Dr. Zacarias, homem impenitente, arrastou outra vez para o salão de fumantes o seu querido amigo Gastão Soares, e, refestelando-se numa larga poltrona de marroquim verde, suspirou alto : — Não posso! é superior ás minhas forças. Essas longas poesias francesas, declamadas pelas meninas de salão, causam-me um mal estar indifinido, exquisito, assim como que uma espécie de indigestão de sorvetes de creme... — Mas a Silveirinha recita bem. Um pouco exagerada, sobretudo na pronuncia, mas emfim tem sentimento... Muito sentimento! — Então vá ouvil-a, meu amigo, vá... — Prefiro fumar. — Ora graças! Pois em mim não sei se é neurastenia, mas já não suporto prendas de salão. Tudo que não fôr conversar, adeusinho! 1J — Quer isso dizer que você amanhã não vai ao festival do Epaminondas. — Nunca, senhor! — Mas fala o Navarro. — E' que também abomino os discursos, meu amigo. Tanto mais que poderei dizer antecipadamente no que consistirá amanhã a oração do ilustre homem de letras... Verá se me engano. Na sua dição confusa, empastada, sem distinção, exclamará que não ha em todo o mundo um céu tão lindo como o nosso, nem astros cuja rutilação se possa comparar á do Cruzeiro do Sul. Esquecido de que a maior parte das pessoas que o ouvem já viram, pelo menos uma vez, em qualquer dos nossos cinematografos, as quedas do Niagara e as montanhas alpinas, afirmará ainda em ribombos de patriotada ôca, que não ha montanhas tão alcandoradas em todo o Universo como as da nossa terra, nem cachoeiras mais precipitadas do que as nossas... como se tudo isso tivesse sido feito por nós! E' bôa! — Você está exagerando... — Não estou; se não, você verá amanhã se, em contraste com os fragores das cascatas e a bruteza das rochas duras, ele não tecerá capítulos líricos, descrevendo a graça das nossas caboclinhas, saltitando descalças pelas orlas floridas de riachos em cuja água pura se reflete a sua imagem deliciosa... Os nossos oradores acham sempre l 8 geito de lisonjear a mulher. A beleza das Brazileiras! A graça das Brazileiras! O heroísmo das Brazileiras! e outras cantigas. Ora, eu já sei esta musica de cór; não direi que esteja em desacordo com ela; mas estou cansado. Meu estômago já não aceita acepipes que tenham só tempero; requer alimento são e saudável. Pensamentos em frases claras e curtas e, sobretudo, — a verdade. — A verdade! Onde a encontraremos nós! sus pirou, sorrindo, Gastão. — Nos nossos chinelos, á beira da nossa cama. — Ainda é bom quando a encontramos na intimidade; mas nem sempre isso acontece. — Nem sempre. Infelizmente a nossa sociedade está muito pervertida. Olhe, ainda ha pouco se dizia, ali na sala, que quem dá o luxo á Baltazar Luz é o Dr. Aragão! — Seria demais que o marido lhe desse isso também, além de lhe dar o nome! Em todo o caso, meu caro, não acho que a nossa sociedade seja tão pervertida como você pensa e diz... Venho de grandes centros civilizados, onde fervilha, na vida mundana, toda a sorte de escândalos e de intrigas. E' fatal. Suponho que, entre nós, ha mais aparência do que mesmo verdade em muitos dos casos que se propalam e se comentam por aí. Somos impacientes, de índole muito pouco reservada e irrequieta; mal qualquer suspeita nos passa pela cabeça, temos logo pressa de a soprar aos visinhos! Para mim, o defeito capital da nossa sociedade ó ser muito pouco culta; isso sim. — Não estou de acordo. — Como não?! — Todo o mundo sabe que o Brazil é o paiz mais intelectual da America do Sul. — E' um argumento ousado. — Incontestável. Nenhum outro tem uma produção cientifica e literária da importância da nossa. Você sabe que eu sou o homem das estatísticas. E para exemplo basta-nos ver... — Como os nossos literatos vivem bem! — Isso é outra cousa. — Como assim? Numa terra em que se lê, os literatos de talento enriquecem. Não precizam apegar-se, para viver, a funções depauperantes do jornalismo ou a empregos públicos. Num pais culto, um homem como o Baltazar Luz, que é deputado, não compra para o seu salão, como ele comprou hontem á minha vista uma tela quasi ridícula de mal feita, entre tantas outras de uma grande exposição, onde havia belos trabalhos de mestres, a escolher! — Oh, isso também é outra cousa! — Lá vem você! — Certamente. Falo-lhe em moral e você responde com intelectualidades! Por ser deputado, que obrigação tem o Baltazar de entender de pintura ? Tomara-nos nós que ele entenda — o UO que duvido um pouco — de economia política, das verbas orçamentarias e dos projetos que discute! Ao contrario : o prejuízo do brazileiro é exatamente o querer ser enciclopédico. O conveniente seria cada um aprimorar-se na sua profissão e não querer saber das outras nem entender de mais nada. Olhe, eu só leio livros de direito. — Nesse caso, os artistas só poderiam ser com preendidos e estimados por artistas! — Pois então?Poetas por poetas sejam lidos... Gastão ia replicar, quando D. Clara se aproximou, pelo braço do Carlos Max, a entreter um minuto de palestra com o Dr. Zacarias. Também eles fugiam dos versos de Coppée. E era infindável aquele conto em verso, tanto que a Sra. Korsakoff já adormecera no sofá! — Ela fecha os olhos para se concentrar. — Mas porquê abre a boca?! — Isso é que não sei! — E' falso! acudiu, rindo, D. Clara. Madame Korsakoff está atenta... está entusiasmada! Continuemos no nosso passeio, Max, antes que o senhor invente outra qualquer barbaridade... Quando os dois sairam, Gastão Soares voltou-se para o amigo : — Perguntaram-me ha pouco o nome de um rapaz moreno, que sua senhora tem apresentado hoje aqui, e eu não soube responder. Como se chama ele? — Ludgero Dias. — Provinciano... — Sim. Veio do Norte com uma carta de apresentação de uma tia de minha mulher, que muito o recomendou á sobrinha e a mim. Zelia trata, a conselho meu, de o introduzir na sociedade, ao mesmo tempo que eu o auxilio como posso na sua profissão. Ele não é águia; não chega mesmo a ter talento, mas é ambicioso e esperto... E como a esperteza é a qualidade primordial dos tempos que vão correndo, é bem possível que ainda chegue a deputado ou mesmo a ministro... — Talvez prefira chegar a rico, que é sempre melhor. — Talvez; mas olhe que a política tem para nós, brazileiros, seduções muito fortes! Sacrificamos-lhe tudo. Não sei se ela não será para todos nós ainda mais irresistível do que a fortuna... — Está aí você, que ainda não pensou em ser deputado! — Pensarei, pensarei, quando estiver rico a ponto de poder dispensar o meu tempo á política. Não pense que não esteja isso no meu programa... Ouviram nesse momento um som frouxo de palmas. — Vamos para o salão, que a poesia acabou... e vai começar o maxixe. O Dr. Zacarias levantou-se e murmurou baixo, por entre dentes : 2 2 — Canalhas... — Que quer? são as originalidades da Sra. Korsakoff... as russas têm tanta imaginação! — disse Gastão Soares, dando um puxão ao colete e seguindo com o amigo para a sala principal. — Vamos lá a ver isso... Todas as cadeiras, alinhadas aperladamente de encontro ás paredes, estavam ocupadas por homens e senhoras, cujas fisionomias denotavam a maior curiosidade. A condessa assestou para Roberto Flores o seu impertinente face-à-main, ligeiramente inclinada para a amiga D. Clara, de colo opulento e braços gordos. Madame Z., toda de cinzento, parecia considerar as cousas com soberana frieza, contrastando com a expressão ardente da alfa e esbelta Baltazar Luz, que, em pé, a seu lado, resplandecia nos brilhantes que lhe adornavam o peito chato de mulher magra, rindo das graças que lhe dizia atraz da nuca, o comendador Brandão, velho pintado e conquistador. Tinha-se feito silencio. Havia no ar como que um desses frêmitos anunciando os grandes acontecimentos. Assim, quando a voz do grande e grave piano de Pleyel, habituado ás solenidades dos cantos alemães, irrompeu nos primeiros compassos do maxixe irreverente, estava já toda a gente de pescoço estendido e olhar aguçado para a porta por onde devia entrar o par de dansadores. E quando a3 ele entrou com desembaraço, a dama com laçarotes azues na carapinha topetuda, o cavalheiro com uma casaca de aluguel, ambos pretos, ambos fortes e beiçudos, muitas senhoras não puderam conter o riso, como se tivessem visto naquele casal de homens, dous specimens de animais extranhos e irracionais. A mulher do secretario da legação da Holanda fez um gesto de susto tão brusco, que a cadeira recuou rangendo no assoalho. — Oh! murmurou ela, faurais eu peur si je les avais rencontrés pendant Ia nuit, toute seule! — Ils ne sont pas méchants, soyez süre. Tout de même, qu'ils sont drôles les Brésiliens, hein ? — Oh, oui! sibilou a outra. A dança começou. O pianista, inflamado pelo ardor da musica e da ocasião, vibrava as teclas numa volúpia de fauno. No meio da sala, os dois pretos contemplavamse de face, muito sérios, como se meditassem em cousas graves. Pouco a pouco, porém, se foram aproximando um do outro, num deslizar sereno, como que levados pelas notas da musica; depois estenderam os braços, enlaçaram-se, e começou o maxixe. Ao principio os seus meneios eram brandos, quasi delicados; mas não tardou que se acentuasse o caráter da dança na mais desabrida intrepidez. Ao influxo dos olhares ardentes de tantos bran-

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