Capítulo VIII
Não ha seda mais apreciável para uma boa tesourinha do que a pele alheia. Quando a condessa chegou á estação para esperar o trem das seis, em que vinha o Núncio, já lá encontrou a Baltazar Luz no meio de uma roda de admiradores, com as mãos cheias de anéis e de orquídeas brancas que lhe tinha oferecido um colecionador. A seu lado, D. Clara, em tailleur cinzento, linha nos braços uma cadelinha loulou de pelo preto e focinho esperto. A condessa foi direita a elas e depois de acariciar a Catüa, que revirou a cabeça, grunhindo, e de fazer algumas perguntas, viu a um lado as duas Guimarães e a Magdalena e apressou-se em ir falar-lhes. — Então, Magdalena, que ha de novo? — Que Sua Eminência não tarda a chegar... — Isso, já sei. O que eu quero que me diga, é se alguém mais assinou na lista do padre Pierre... — Compreendo o seu interesse. Foi a senhora quem aconselhou a Silveirinha a mandar-me hoje aquelles trezentos mil réis... — Eu? II" — Quem mais?! Mas veja que disparate, logo trezentos mil réis, quando ninguém assinou além de duzentos. Só para mostrar que pôde mais do que as outras. — Você ó injusta... — A vontade que tive foi recambiar dinheiro e tudo. Olhe, lá chegou ela agora. Está atraz de Madame Z. Aquele chapéuzinho, de chifres retorcidos, faz-lhe uma cabeça de carneiro... não é atoa que o padre Pierre a chama de ma brebis, ma chère petite brebis... mon amour de brebis! — Estou vendo, Magdalena, que você já está arrependida de se ter metido nesta manifestação. Na verdade, estas cousas trazem sempre desgostos... — Aqui, no Brazil, tudo é difícil. Em outro qualcmer paíz, já todas as minhas amigas teriam vindo espontaneamente oferecer o seu obulo para a soma comum. — Tal e qual como fez a Silveirinha. E ainda você se queixa!... — A Silveirinha é um caso á parte. — Já nos tempos de colégio as duas viviam em rivalidades, observou, rindo, a mais moça das Guimarães, que tinha sido colega de ambas. — Era só porque a Silveirinha não perdoava os meus primeiros prêmios... — Se é por isso, nem você os dela... 7. I l 8 — Que me importava a mim! Eram tão poucos... A condessa olhou. Madame Z. estava entre os cinco filhos, todos de branco, o que punha na turbulência da gare uma nota de alegria e de frescura. Por trás do seu hombro aparecia o rosto pálido e febril da Guiomar Jordão, que toda a gente continuava a chamar, como em solteira, a — Silveirinha. — Madame Z. também teria vindo pelo Núncio? — Qual! parece que ela vem cá todos os dias á estação com os filhos esperar o marido. Gosta de ser citada como o modelo das esposas... — Tenho muita prevenção com gente de extremos; confessou a mais velha das Guimarães. Para mim, o melhor lugar para se esperar o marido é em casa. Eu não me abalo pelo meu. — Quem também naturalmente não veio pelo Núncio foi a Looking-glass. — Oh, a Looking-glass está divina! exclamou Magdalena, rindo. Ela agora já sabe pedir cerveja em portuguez e para fazer exercício pede-a na pensão a toda a hora! O criado vê-se atrapalhado com os chops de um lado para o outro, porque quando ela os reclama da sala, vai esperal-os no vestibulo ou no corredor. Cada vez mais pitoresca. Vocês já a viram passear de bicicleta? Parece uma aranha encarquilhada numa teia... I i g — Anda á caça das moscas... — De algum moscardo azul com laivos de ouro. — Ela não tem cara de se contentar com os laivos.. — Dourado ou não, não encontraria aqui brazileiro que a quizesse... — Mesmo porque eles já são muito poucos para o consumo de casa... A condessa mal prestava atenção á palestra. Cismava em como pudera a Silveirinha mandar dinheiro á outra, depois da sua advertência. Ela deveria ter vindo nesse instante da entrevista com o padre Pierre, em casa da Baltazar. Que teriam combinado ? Sentiu logo uma viva curiosidade de saber tudo que se tivesse passado nesse encontro casual... Entretanto, uma das Guimarães dizia que nenhuma cidade do mundo tem durante tantas horas uma sociedade quasi exclusivamente feminina como Petropolis, de dia, no verão. Que reparassem : os homens só chegavam á noite, para partirem de novo na manhã seguinte. A ela, o marido, de dia, não lhe fazia falta, tão habituada estava a vel-o chegar a casa só á hora da sopa. Era uma das vantagens daquela estação. Evitavam-se assim tantas impertinencias... Prolongaria por tudo isso a sua estada ali até fins de Maio; mesmo antes desse tempo o Rio era insuportável de poeira e burguezada. Sabiam que se 1 2 0 estava organizando um grande baile masque no seu hotel ? Ela já tinha encomendado umas larnpadasinhas verdes para o seu trajo de vagalume. Todas as hospedes estavam num reboliço... A Korsakoff já fizera constar que iria trajada de imperatriz Catarina e entraria no baile dentro de um trenó puxado pelo marido, disfarçado em urso polar... — Antes em urso... do que em outro qualquer animal feroz! Uma onda de povo fez interromper a conversa. A gare enchera-se repentinamente. Chegava o trem. Precipitaram-se todos. — Sua Eminência? O Núncio ?! Sua Eminência tinha-se deixado ficar no Rio, por causa de uma entrevista com o Ministro do Interior. Sua Eminência viria no dia imediato, que tivessem paciência ! Explicaram alguns passageiros bem informados, consolando decepções. — Que pena! — Amanhã, amanhã... O Ministro não será também tão egoísta que ainda o queira reter mais um dia ao pé de si... Entretanto, Miss Looking-glass sacudia o braço gordo do pai, num shake-hands filialmente britânico; o Dr. Zacarias repartia embrulhos pelas mãos ávidas dos filhos, e Roberto Flores aceitava um lugar no carro da condessa, que lhe pedia noticias da Avenida. -— Uma fornalha! — E a política? — A mesma miséria. — Então o Ministro da Fazenda?... — Fakirizado, com a pasta na mão ! — Sem nós, o Rio deve estar muito estúpido... — Horrivelmente estúpido. — Não ha então por lá nenhum escândalo novo? — Constou-me um, curioso. — Qual? — Que nós dois tínhamos fugido para os Estados-Unidos, para nos casarmos em Nova York... — Seria ir procurar a felicidade bem longe, quando temos aqui á mão o padre Gil. — E o pretor Barbosa... — Deixe lá o pretor e confesse que este boato acabou de ser inventado agora mesmo... — Confesso. — Mas por que o inventou, é capaz de me dizer? — Porque a acho hoje singularmente encantadora, condessa. — Está-me pagando com demasiada generosidade a passagem do carro!... Mas já que você não me dá novidades, vou-lhe dar eu uma : começa-se a desconfiar aqui da assiduidade do seu 1 2 2 amigo Gastão Soares em casa do Zacarias. Parece que a sonsinha da Madame Z. tem encantos muito poderosos para os seus íntimos... Já lhe constou alguma cousa? — Tem graça, logo hoje eu ouvi, pela primeira vez na minha vida, falar mal de Madame Z., no Rio! — E' o fragor de uma reputação que desmorona... — Mas não com o pobre do Gastão, coitado. — O inocente!... Então com quem?! — Com um advogado pobretão que ela tem apresentado a meio mundo, um tal... — Lembro-me, atalhou a condessa : um rapaz moreno, un hibou en hábil noir... que se apresentou com ela em casa do Korsakoff, na noite do maxixe... — Esse mesmo! — Desgraçado gosto... um homem tão insignificante, e com tipo de indio, de mais a mais! — Em compensação, ela é bonita. Isso é o principal. — Ora veja, no que dão as santidades. Toda retraída, toda maternal para a sua gente e vem um bobalhão da roça e logo a conquista. Não ha que fiar em mulheres, principalmente daquela idade... — Madame Z. está longe ainda da idade perigosa. Ela tem muitos filhos, porque se casou muito Ia3 ^iyyirrfyT¥Virirfc-r¥-,-i-r-i-i---"—" - ^ — - ^ - . ^ ^ — 1—|—^^^B-||-a-M-M-M-||-M-||-w-||-M-inn>.||.| 111 cedo. Mas confesse, condessa, que tem agora um certo prazerzinho em ouvir falar mal dessa senhora. — Confesso. Ah, eu não aprecio as pessoas de virtude inteiriça. A perfeição é para mim sinônimo de monotonia. De resto, diante de gente assim, eu tenho sempre medo de estar sendo vitima de algum embuste. — E' pensar muito mal da sociedade. — E pensará a sociedade só bem de mim? — Certamente que sim ! — Morda aqui... disse a condessa, mostrando a Roberto Flores a ponta do dedo minimo. — Com que prazer o faria! respondeu ele, rindo; mas não lhe parece que isso á vista de toda a gente seria muito escandaloso? — Mesmo você não teria tempo, respondeu a condessa, rindo também. Cá está o seu hotel. 0 carro parou á porta do Hotel da Europa. — Boa noite, condessa, e mil agradecimentos. E' verdade, antes de nos separarmos, sempre queria saber : escolheram afinal o presente para o padre? Se me quizessem dar uma boa comissão, trataria disso a primor. — Já se decidiram por um bronze artistico representando a Caridade e por um relógio de ouro. — Excusez du peu... — Agora já pensamos num presente para o padre Gil... — Outra Caridade? — Uma casa! — Um palácio, minha boa amiga, um palácio, que ele é gordo! — Pois será um palácio, se você nos ajudar na subscrição... — Boa noite, condessa, apressou-se em dizer Roberto Flores, saltando a rir do carro. — Não pense que nos foge. Adeus! E a condessa seguiu para casa, a renovar a toilette para ir jantar com a Baltazar Luz. Tinha pouco tempo. Deu ordem ao cocheiro que se apressasse. Ela entrava pela velhice com uma razoável fortuna que lhe legara o marido, e tempo bastante para entreter a sua curiosidade, cada vez mais imperiosa, de saber da vida e dos sentimentos alheios. Não o fazia por bisbilhotice vulgar, mas por uma espécie de anciedade romântica de leitor de folhetins vivos. Quando se viu na sala da Baltazar, foi logo indagando : — Então, meu bem, o padre Pierre veio hoje a tua casa? — Sim, mas pouco se demorou, porque tinha de ir esperar o Núncio. — Mas o Núncio não veio. Também eu fui I a 5 lograda. E você também. Todas o foram; até a Looking-glass! E a Silveirinha, veio? — Veio. Estava até muito chie, com um vestido novo... — E' do enxoval. E o que lhe disse o padre, hein? — Pouco seria. Mal se falaram... — Você não ouviu nada ? — Ouvi. Quando entrei na sala, ele queixavase de reumatismo num artelho. — Como pretexto para mostrar a meia de seda... Se o Dr. Jordão vem a saber desta trapalhada... — Não tem que ficar zangado. Se é para o seu bem! — Talvez que ele preferisse ficar ateu toda a vida. — Que horror, não diga isso ! — Ora adeus! Eles por isso não emagrecem. 0 Roberto Flores não se ri lambem da religião ? E entretanto, tudo lhe corre bem na vida. Está enriquecendo. — Mas se não sofrem neste mundo sofrerão depois no outro. E' isso que a Silveirinha pretende evitar, e eu louvo-a por vêl-a assim empenhada em prevenir a felicidade eterna da alma de seu marido. Se eu não fosse da mesma opinião não lhe facilitaria um encontro com o padre Pierre em minha casa... Ah, isso não ! — Compreendo, filha, compreendo e não estou censurando ninguém. O ideal da Silveirinha é nobre e justo; mas esses encontros, todos os dias, com o padre Pierre aqui, ali, acolá, não poderão ser interpretados com malignidade pela gente ociosa e que não está dentro do segredo ? — Numa terra pequena, em que se vive a esbarrar todos os dias com as mesmas pessoas, esses encontros são naturais... são mesmo naturalissimos! — Muito; pois olhe, eu saio todos os dias e quasi nunca encontro o padre Pierre... — Eu também não. — Aí tem você... Houve troca de sorrisos. — Vamos jantar, condessa? Tenho alguns convidados no salão. — Gente de espirito? Espero que você não mo sente ao lado do Comendador Brandão, que tem a coragem de comer com a faca. Um dia pregolhe um susto para o fazer cortar a lingua. — Descance, que ele não veio. Em compensação, temos a D. Risoleta... — Com o mesmo vestido de lentejolas? — O mesmo. A Korsakoff desculpou-se por doente; mas sei que ela e o marido estão numa jogatina brava com o Goldenberg, e outros. Os Ministros da Suécia estão cá... 12- — Bom; vamos, que estou com um excelente apetite. — Tanto melhor. A Baltazar iniciava nesse dia á mesa um sistema trazido da sua ultima viagem a Londres. A toalha era de tons metálicos, e em frente de cada talher, colocara uma pequena vela num castiçal artístico e baixo, de bronze dourado, com quebra-luz de seda rosa. As flores da ornamentação eram douradas e a luz da grande lâmpada suspensa traspassava com doçura um envolucro de musselina ouro e lilaz. Na penumbra crepuscular, faiscavam os brilhantes com que a dona da casa se ornara e as fosforecentes lentejolas da D. Risoleta. — Uma beleza! disse a condessa, relanceando a vista pela sala. Ninguém recebe melhor no Brazil! — Oh condessa... 0 Dr. Baltazar, dono da casa, mal enxugou os bigodes, da sopa, lamentou alto que uma companhia infantil que estava levando no Rio a Tosca e a Carmen, não fosse a Petropolis deliciar os veranistas; ha muito tempo que ele não via nada tão soberbo em arte. Havia então um pequeno de doze anos melhor que muitos tenores de reputação. Quando o diabinho punha as mãos nas fontes e soltava a voz, era de fazer tremer toda a sala! Os próprios críticos de musica mostravam-se extaticos... Na outra extremidade da mesa, o Carlos Max vociferava contra as dificuldades que ha no Brazil para tudo, emquanto que em Pariz, oh, em Pariz! Em frente dele, a D. Risoleta informava ao Ministro da Suécia ter inventado ela própria os nomes dos seus filhos e citava-os com a papeirinha gorda a baloiçar-se-lhe de vaidade: — Dorenacy... Glaiúl... Walméria. Walméria com W. porque ela achava o W uma letra muito aristocrática. E o ministro repetia, com cerla dificuldade silabando as palavras; — Do-re-na-cy... Gla-i-úl, Wal-mé-ri-á.