Capítulo VI
A grande sombra do amor... Como se aproximasse o dia do aniversário do Padre Pierre, as devotas do seu altar e as suas confessadas organizaram uma comissão afim de angariar donativos para um mimo que lhe deveria ser então oferecido. A idéa partira da Magdalena, que andava pelas casas das amigas, alvoroçando almas e combinando cousas. Algumas partidárias do Padre Gil, como a condessa, como D. Clara, tinham hesitado, ao principio, em ceder o seu concurso para essa manifestação ; mas por delicadeza e por pensarem que assim agradariam indiretamente á Igreja, por cujo prestigio fariam tudo, acabaram por assinar na lista da Magdalena uma quantia vistosa. De resto, não se negando a concorrer em favor do Padre Pierre, as partidárias deste não se negariam depois a subscrever na lista, em que elas já meditavam, para uma manifestação ao Padre Gil. As senhoras da comissão tinham-se reunido varias vezes, ora em casa de uma, ora em casa de outra, e, apezar de muita discussão, ainda não ficara resolvido qual devesse ser o objeto escolhido para a representação da homenagem. Entretanto, a lista ia engordando. Da roda, só faltava assinar a Silveirinha, com quem a Magdalena parecia agora embirrar, sem que ninguém soubesse porquê. Mas, como toda a gente a sabia caprichosa, esperava-se que ela de um momento para o outro pedisse para incluir o nome dessa amiga entre as demais ovelhas do excelente pastor. Em uma das ultimas reuniões, a condessa não se conteve e advertiu-a, depois de ter percorrido com a vista interessada todas as assinaturas enfileiradas nas pautas de almaço : — Mas você esqueceu a Silveirinha! — Já me tardava... — Ela não perdoaria tal esquecimento... — Ora, adeus! — E logo a Silveirinha, que é fanática pelo Padro Pierre! — Ainda é mais fanática pelo dinheiro. Era a menina mais econômica do colégio... — Lá vem você! nesse tempo ela era criança. Aposto em como se você lhe falar, ela assina logo uns cem ou duzentos mil réis... — O marido é ateu. — Bem se importa ela com isso! Ainda hontem a vi entrar em casa do Padre Pierre. 9 4 — Mais uma razão; acudiu Magdalena. Seria escandaloso que uma pessoa que freqüenta cora tanta assiduidade a casa do reverendo, lhe desse presentes em publico. Houve indignação. Todos ali estavam dentro do segredo que levava aquela alminha aflita a expandir-se com o conselheiro inspirador que todos veneravam. E se assim não fosse, porque se reuniam elas para aquela manifestação? Magdalena teve de calar-se, mas não consentia em dar a sua lista a ninguém. A idéa partira dela, ela tinha o direito de escolher quem bem lhe parecesse para o seu grupo... — E a Madame Z.? lembrou alguém. — O Zacarias é quasi tão irreligioso como o Dr. Jordão. — E a mulher não é das nossas. — Quando se trata de dar dinheiro, toda a gente é nossa... sublinhou a condessa sorrindo. — Quando o dá. — Nós já temos dinheiro suficiente, agora o principal é saber como empregal-o. — E' verdade. Custou-me esta noite a conciliar o sono por causa dessa idéa; confessou uma senhora de respiração curta, opressa pelo espartilho. Sabem do que me lembrei, depois de muito meditar? — Não. g5 — De lhe oferecer uma pia de água benta, de ouro ou de prata. — Isso é muito corriqueiro. — Eu também acho. Antes um crucifixo. — De crucifixos está ele farto, acudio uma senhora de ar sincero. — Não diga isso... Em todo caso, parece-me preferível um bom relógio de ouro, com a respectiva corrente. — Qual relógio, qual nada! — Então não sei. — Sei eu! um par de fivelas de diamantes para os sapatos, lembrou a condessa, acrecentando que isso diria bem com o dandismo do presenteado... Houve um instante de silencio, em que as senhoras se entreolharam com expressão de velada censura. A condessa percebeu o péssimo efeito da sua lembrança, mas não se inquietou com isso nem desmanchou o leve sorrisinho de ironia com que dissera a sua frase. Voltaram então a discutir a individualidade do sacerdote francez, que tão bem sabia conquistar devotamentos. E se alguém duvidasse da sua bondade, melhor seria reverter toda aquela subscrição em favor do padre Gil. Magdalena zangou-se com o alvitre e pediu que continuassem a discutir. Então uma doce voz aflautada murmurou de um canto: — A minha opinião é que lhe dêmos uma sobrepeliz guarnecida de rendas verdadeiras. — Para as lavadeiras a escangalharem ? murmurou outra senhora mais pratica e de voz mais grossa. — Um tête-à-tête de Sèvres! — Um padre é uma unidade isolada; não usa têtá-á-têtá como diz o Comendador Brandão, que traduz tudo ! replicou Magdalena rindo. Era difícil chegar-se a uma conclusão. A senhora do espartilho recolheu-se ao mais profundo silencio, com os olhos em alvo. A subscrição atingira a dois contos de réis; poderia ainda chegar a três ou quatro com facilidade. Magdalena estava radiante. Mesmo em Petropolis, ela e algumas amigas tinham uma roda á parte, que íugia da convivência das pessoas de outras rodas. Só a condessa, muito curiosa e mais afavel e simples, se misturava á sociedade em geral, não desdenhando mesmo visitar uma ou outra íamilia de permanência fixa no local. As amigas censuravam-lhe ás vezes essas facilidades. Ela ria-se. Ligava importância a tudo; e assim como visitava gente de classe mais modesta era pontualissima nas reuniões dos diplomatas e financeiros de mais brilho. Uma vez, indo visitar a Silveirinha, informou-a de que já ia muito adiantado o negocio da subscrição, indagando se afinal a Magdalena lhe tinha mandado pedir a sua assignatura. —Você sabe, todas as senhoras da nossa rodinha figuram na homenagem : eu, a Clara, as Guimarães, a Baltazar Luz, suponho mesmo que até a própria Goldenberg, coitada, que apezar de protestante cáhiu na rede da Magdalena, a quem quer agradar. A Magdalena está irresistível, encontra para todas as vacilações argumentos convincentes e terríveis... Sabe que tudo quanto se dizia da Goldenberg ó falso? Pois é. A pobre girl é tão écuyère como eu sou dansarina. O pai é riquíssimo, mas parece que volta para a pátria sem achar onde empregar aqui os seus capitais! Não lhe basta a subscrição para o padie Pierre para desafogo! A Silveirinha mordia os beiços, num movimento de despeito. Já não prestava atenção ao que dizia a condessa. Pensava que se ia fazer uma manifestação de apreço ao padre Pierre no dia do seu aniversário, que nessa manifestação figurariam os nomes de todas as suas amigas e que ninguém se lembrara de lhe pedir o seu. Era uma pirraça da Magdalena, que se não sentia disposta a tolerar; não e não! — E' um desaforo! exclamou ela por fim, avermelhando-se toda. — Qual desaforo, filha, distração, pura distração...