Capítulo IX A Silveirinha · Capítulo 9 de 20
Obra Menu

Capítulo IX

Quando a rajada passa com violência, até as raizes das arvores estremecem. Ha certas palavras que têm o poder dos ciclones: quando vibram, derrubam os mais altos castelos em que os homens põem a sua felicidade, com a mesma bruteza com que o vento destelha pardieiros, arranca arvoredos ou faz ir ao fundo do mar os barcos e os navegantes. A confiança no amor, que é a mais forte razão de tranqüilidade humana, uma palavra a pôde destruir mais rapidamente do que um raio destróe um jequitibá secular. A diferença ainda é que nem sempre a palavra portadora de desesperos irremediáveis é dura ou má. A grande dôr de um desengano ou de uma humilhação vem ás vezes dentro de um monosilabo que tanto pôde afirmar como negar o bem como o mal, ou de qualquer outro vocábulo harmonioso e curto. Saindo do hospital de que era medico, o Dr. Jordão topou, a quatro passos da porta, com a inquieta Magdalena, que estava ali assim á espera de um carro que tinha mandado chamar. l3o Ora, ele recebera, exatamente poucos minutos antes, um bilhete anônimo avisando-o, entre pontos de exclamação, de insinuação maligna, de que a mulher havia remetido àquela senhora nada menos de trezentos mil réis para a celebre lista do padre Pierre. Havia já alguns dias que se falava, em Petropolis, com certa extranheza, nessa manifestaçlo de apreço por parte de um grupo de senhoras distintas a um sacerdote extrangeiro. O próprio Dr. Jordão tinha, ainda na véspera, ridicularizado essa lembrança entre vários amigos e ao pé da mulher, que ouvira tudo sem dar um pio. Como ele, os amigos confessavam não encontrar explicação para aquele fato extravagante. Não acreditando na denuncia anônima, o medico sumiu nas profundezas de um bolso o papel torpe, para o queimar em casa, e deixou o hospital. 0 seu encontro inesperado com a amiga da mulher, a quem a carta se referia, irapeliu-o a perguntarlhe, depois de rápidos cumprimentos, se estava contente com o resultado da subscrição de sua iniciativa. — Oh, muito ! respondeu ela. E parou, de repente, como á espera de outra pergunta. Ele não teve coragem de fazel-a imediatamente e propoz-se a acompanhal-a até á sua porta. — Obrigada. Saí para fazer um exercício de l 3 l duas horas a pé, mas cansei-me e mandei um pequeno buscar um carro... — Regimen? — Sim. Para combater a gordura, que me ameaça... — Mas muito de longe confessemos... respondeu ele, sorrindo. Realmente, a Magdalena era magra I Como o carro tardasse, falaram sobre a beleza do tempo e a profusão de flores daqueles jardins. — Qué I o senhor gosta de flores? ! — Oh, minha senhora, afirmo-lhe até que [nada aqui mo consola das agruras da enfermaria como estas hortensias e estas rosas... Não se espante se algum dia ouvir dizer que troquei a minha profissão de medico pela de jardineiro... — E eu que sempre pensei que o senhor fosse materialista! — E acredita que os materialistas não se extasiem diante da natureza ? — Acredito que não. Será um preconceito da minha parte, mas não me entra na cabeça o contrario. Tanto mais o senhor, que tem a fama de não amar na vida senão a ciência e ser para tudo ) mais absolutamente indiferente... — Deveras, tenho essa fama ? — Tem-n-a. — Então a minha mulher, coitadinha... Magdalena sorriu. E depois de uma pausa. l3l — Sua mulher é muito feliz, e tive disso agora uma prova bem eloqüente... Chegava o carro e, antes que ele parasse, o medico perguntou-lhe, mal disfarçando o anceio: — Qual ?! Magdalena não respondeu logo o foi só ao pôr o pé no estribo que disse, voltando para o medico o rosto sorridente: — A prova de que o senhor é um bom marido, um excelente marido, é que, apezar das suas idéas anti-clericais, não se opoz a que sua mulher fizesse o que tinha na vontade... — Assinando para o presente do padre Pierre9 inquiriu ele, a contragosto, rapidamente, nervosamente. — Sim. Esta ultima palavra disse-a Magdalena já sentada e fazendo com a mão sinal ao cocheiro para que seguisse. i O medico ficou tão ataranlado, que nem levou a mão ao chapéu para a ultima despedida. Entretanto, a moça concluiu : — Hei de ir agradecer-lhe pessoalmente. Lembranças ! O carro partiu. O Dr. Jordão permanecia em pé, na beira da calçada, com ar estúpido: — Sim. A voz daquela mulherzinha baixa, galante, vibrava naquele monosilabo como se todos os diabos l33 do inferno tivessem falado pela sua boca. Significava aquilo que a mão vil da carta anônima dissera uma verdade. Seria possível que sua mulher fosse tão leviana que desrespeitasse assim as suas opiniões e a sua vontade, publicamente? Toda a gente em Petropolis sabia qual o seu modo de pensar a respeito daquela comedia do presente aa Pierre, o padre da moda naquela estação! Ainda na véspera varias pessoas tinham comentado o caso á sua custa, na botica, polvilhando-o de pilhérias e chacotas maliciosas. Perguntavamse uns aos outros porque ofereceriam as senhoras um presente ao padre Pierre. Que nobres e belas ações praticara esse homem, que justificassem tal homenagem? Respondiam uns que o prestigio desse padre de trinta anos residia todo na amenidade do seu trato e na fascinação da sua elegância. Alguém, Ungindo conhecer a sua biografia, declarava que ale fora anteriormente caixeiro de uma perfumaria e, em pequeno, modelo profissional dos juadros sacros em que tivesse de figurar um melino Jesus ou um S. João Batista. A pele rugosa } morena do nacional padre Gil nunca soubera aspirar tais dedicações. Porquê? Exatamente sob esta rubrica —Porquê— tinha iparecido na véspera uma mofina em um jornal Io Rio, indagando qual a razão daquele preito èminino ao sacerdote francêz. No dia seguinte, alvez aparecesse nesse mesmo jornal o nome de l 3 4 sua mulher figurando na lista das subscritoras como a mais generosa e por tanto a mais fervente! Previa comentários, doía-se principalmente de que sabendo das suas opiniões, tão conhecidas, a mulher o provocasse com um ato de tão decidida e também tão ostensiva rebelião. Sentia o seu orgulho de homem espezinhado e caminhou para casa ardendo em raiva, morto por interrogar a mulher, como se ainda duvidasse da afirmação da outra. Ficara-lhe no ouvido, no timbro peculiar da voz da Magdalena aquele sim positivo, claro, que náo lhe podia consentir nenhuma duvida. Sabia quanto a mulher era religiosa, mas nunca a supuzcra capaz de o ridicularizar em plena rua, levando do seu lar provas de tão extranha veneração á casa de um padre moço em quem não se conhecia nenhum merecimento especial. Que obras tinha feito esse homem que o recomendassem á gratidão popular? que hospital tinha fundado com o favor do seu prestigio clerical ? Que asilo auxiliava ? Que pobres protegia ? Ninguém o poderia dizer. Quando o medico entrou em casa, estava pálido, com o beiço a tremer-lhe de raiva. Mal o viu, a Silveirinha levantou-se adivinhando borrasca e foi fechar a janela sobre o jardim do senhorio. Não fosse o marido dar escândalo com algum berro mais alto. Ele começou logo. l35 — Mandaram-me uma carta, dizendo teres assinado trezentos mil reis para o presente ao padre. — E' verdade. — Sei. A lua amiga Magdalena confirmou a informação anônima. — Com certeza feita por ela mesma. — Ao menos, essa admirou-se de que, sabendo quais as minhas idéas, tu tivesses assinado na lista! — E1 que ela tinha-se esquecido das minhas. — Uma senhora casada não tem o direito de se apresentar em publico em oposição ao seu marido. — Oh!... chega a ter graça... Mais de vagar... mais de vagar... — Não te dês ares irônicos e fica sabendo que não consinto que o teu nome apareça na lista das subscritoras. Evitarei ao menos o escândalo maior. Ouviste ? — Que tolice — escândalo ! — quem fala aqui em escândalo ?! — Toda a gente que vê dois palmos adiante do nariz. — E' porque eu vejo quatro, que não entendo o que dizes. — Basta. Fica sabendo que eu náo consinto que o teu nome apareça na chalaça dessa manifestação. Tudo, menos isso. — Hein?... — Não consinto! — Imaginas por ventura que eu me opozesse l36 algum dia, a que assinasses quanto quizesses nas subscrições que bem te parecessem ? Nunca! A tua vontade é livre, respeito-a e não te peço em troca senão a mesma consideração pela minha! — E' diferente. — Já me tardava!... E' diferente. Por que! Só porque a tua é de homem e a minha ó de mulher? — Bastaria essa, se não houvesse ainda outra! — Qual?! — A de que a tua é insensata. — Insensata! — E ridícula. — E ridícula? — E perigosa! — Tanta coisa! — Tanta coisa que tu não quizeste vêr, apezar de prevenida por mim, visto que ainda hontem aqui na sala, naquele lugar, eu disse tudo quanto pensava a tal respeito. Não reparaste também que o Zacarias concordou comigo? — Ora o Zacarias! que me importa esse sujeito... — E não ouviste o Gastão Soares? — Outro que tal. De mais a mais àquela hora, já era tarde. Estava tudo feito. — E nem ao menos me disseste nada. E* inacreditável ! — E' naturalissimo. Demais a mais aqueles rezentos mil reis eram meus! — Ahl — Tinha-m'os dado meu pai. Eu tanto poderia gastal-os como não, sem que nem suspeitasses da Bua existência. — Ofendes-me. Não sabes o que estás dizendo! — Depois, para que incomodar-te? Eu já sabia que isso não te daria prazer nenhum... — Como tu falas, Guiomar, como tu falas! — Com a razão. — Com a frieza premeditada de quem já se preparou para martirizar-me. Tu não és tola, mas nei-de provar-te que não me deixarei vencer tão facilmente. — Ah, tu serás sempre o vencedor! E's o homem. O homem! — Sou o responsável. Porventura o teu nome hoje não é o meu ? Que beleza! vêr a senhora Jordão presenteando padres! — Um padre! Um grande sacerdote: a quem o meu espirito deve os maiores conselhos. — O belo conselho de praticar ações que não me podem dar prazer nenhum como disseste ha pouco. Que horror! — Que feia culpa, a de assinar numa subscrição em que figuram os nomes de varias senhoras respeitáveis! Mas a vergonha, o desastre, a calamidade, fica sabendo, seria deixar de concorrer 8. l 3 8 para essa manifestação de caráter puramente religioso. — Puramente individual. — Puramente religioso, quando todos sabem que fui, sou e serei sempre religiosa. Que diriam os outros? Responde : que diriam os outros? — Que tinhas juizo. — Diriam que me violentavas a um silencio injusto; diriam que eras um tirano, um algoz abominável! — Que dissessem. Mas não diriam, podes ter a certeza! — Por um homem ter a desgraça de ser ateu, não quer dizer que obrigue a mulher a professar as suas idéas. — Nunca te impuz o meu modo de pensar nem te privei de ir á igreja. Bastaria essa consideração para respeitares um pouco as minhas convicções. — Também era só o que faltava, proibir-me de ir á igreja! — E julgas que não poderia fazel-o?! — Se tal tentasses! — Nada me impedirá de o fazer algum dia! — Nunca. — Bastaria uma palavra, — Nenhuma teria forças para me arredar de Deus! Antes a morte. E se não, experimental — E' um desafio?! Pois então seja! — Proibo* l3 te, de hoje em diante, de entrares nas igrejas, ouviste?! Entre o teu Deus e o meu amor, veremos o que é mais forte. — Deus. — Guiomar! — Deus, Deus, Deus! — O teu fanatismo leva-te á loucura. Pensa bem no que estás dizendo. — E tu pensaste no que disseste? Supões que baste a um homem abrir a boca para reduzir a alma da mulher ao que elle queira? Enganas-te. Nada me arredará do meu caminho. Nada! — Veremos! — Verás. — Que desespero! casar-se um homem com uma mulher assim! — A porta é livre, vai procurar outra mulher que te entenda. Quando pediste a minha mão, não te enganei : cobri-me com todas as insígnias religiosas que tinha quando fui chamada á tua presença, para le dar o — sim. Não és cego, havias de as ter visto! — Vi; mas pensei que fosse uma criancice e que o meu amor te bastasse depois. — Ah, não basta. — Bem vejo. Estavam ambos lividos, trêmulos, numa tremenda agitação de nervos. As suas palavras cruzavam-se rapidamente, como tiros de guerra. l 4 o — Mas se eras assim, por que consentiste em ser minha mulher?! — Para salvar-te. — Oh, prescindo da tua misericórdia. — Eu é que não prescindirei da minha idéa. — Não mintas; casaste comigo porque me amavas. — Não. — Sim; e agora que és minha mulher, para a vida e para a morte, tens de ceder á minha vontade, porque a minha vontade é a mais forte e ó a mais justa. — Enganas-te. — Vais sentil-a já : escreve uma carta á Magdalena, proíbindo-lhe de publicar o teu nome na lista. Depois, prepara as malas, que partiremos sábado para o Rio. — E por qu* não hoje? — Porque não quero. — Eu também não quero nem hoje, nem sábado. Nem tampouco escreverei á Magdalena. Teria graça que o senhor meu marido se arvorasse em meu carrasco, logo nos primeiros tempos de casado! — Mas quem fala aqui em carrasco? — Eu. — E' preciso que isto acabe de uma vez. Se teu nome aparecer em publico em homenagem a l 4 l esse padre que eu detesto, abandonar-te-ei ao teu destino e irei pensar só no meu. — Já te disse : és livre! E ela fugiu para o quarto, batendo com a porta, cuja chave rangeu logo na fechadura. 0 medico sentiu uma vertigem, tapou os olhos com os dedos hirtos e gelados. Penetrara bem na alma da mulher; aquela era uma invencível. Que fazer agora? Tirou a carta anônima do bolso, rasgou-a em pedacinhos, com gesto de nojo. Era aquela, a calma que ele tinha procurado no casamento para a sua vida de estudo e de trabalho honesto? A essa idéa, o corpo amoleceu-se-lhe e ele deixou-se cair numa poltrona com os olhos rasos d'agua. A figura febril e nervosa da mulher plantavase-lhe no pensamento com uma espécie nova de tormento nublado de voluptuosidade. Por que não a segurara ele com as suas mãos fortes e corajosas : por que não lhe fizera vergar a haste delicada do corpo e não abafara com a sua boca varonil a boca irônica e provocadora? Culpava-se de mal atilado. Seria preciso aprender com os egoístas de que com uma mulher náo se discute : ordena-se. A casa tinha caído em silencio. Ainda vibrando de comoção, o medico levantou-se, telefonou para o sogro, chamando-o com urgência. A filha atenderia ao pai, já que se negava a atender ao mal4a rido. Dentro de uma hora estará tudo acabado. Emquanto não chegava o sogro, chegaram clientes, a quem não atendeu, mandando-os despachar pela criada. Imaginava a mulher atirada na cama, abafando os soluços no travesseiro. Chegou a ir encostar-se á porta, mas voltou logo para a outra extremidade da sala, sacudindo os ombros com um movimento de impaciência. Foi uma hora abominável aquela, enevoada pelo fumo de cigarros consecutivos e que, mal acendidos, eram logo atirados fora. Por fim, apareceu o sogro, o corretor Silveira, de riso nos lábios e flor na lapela, irradiando a frescura feliz de uns cincoenta e cinco anos bem disfarçados. — Que temos? O genro levou-o para um canto do sofá, e baixo, aflito, contou-lhe tudo o que se tinha passado, pedindo-lhe que aconselhasse a filha, que a chamasse á razão, evitando um escândalo. Ele fora um dos primeiros a escarnecer daquela idéa da manifestação ao Pierre; todo mundo sabia disso, em que papel ficaria agora com a comparticipacão da sua própria mulher nessa festa? Que poderia fazer para a arrancar daquela obsessão e a atrair ao seu carinho e ao interesse do seu lar? — Homem, esta questão de religião é delicada. Você preciza ter um tacto muito especial no combatel-a. Roma não se fez num dia... l 4 3 — Mas eu nunca me opuz a que minha mulher fosse todos os domingos á sua missa, nem a que passe todas as noites vinte minutos de joelhos, recomendando aos anjos a vigilância do seu sono. Pedi-lhe unicamente que se não confessasse nunca. Repugna-me a idéa de que minha mulher se ajoelhe aos pés de um homem e lhe diga o que não me diz nem a mim, nem ao senhor, que é seu pai. Agora, porém, não se trata disso, mas de evitar que ela se dê ao disfrute de presentear, sem pretexto nenhum, um padre, que é de mais a mais moço e bonito, e que por estas duas razões è de algum modo suspeito a certa classe de pessoas. Compreende? — Perfeitamente... Mas isto é o diabo. Já a outra senhora minha filha me declarou hontem que se quer fazer freira... — Que?! — E' o que lhe digo. — Mas o senhor não consentirá. — Como eu lhe dissesse isso mesmo, respondeume cinicamente que saberá esperar pela sua maioridade. Foi para ela levar para o convento que me cancei a organizar-lhe uma fortuna. Veja você que ingratidão e que doce velhice vai ser a minha! — Compete-lhe indagar a causa dessa resolução. Terá ela algum amor infeliz, algum desgosto que possamos remediar... quem sabe? l 4 4 — Qual, ela não ama ninguém. Tudo isso é o resultado de um trabalho oculto de mineiros de almas, trabalho executado na sombra, em voz baixa, dentro de um mistério que o defende de ataques e de lutas. — Dentro de poucos anos, todo.o Brasil será como um convento... — Quando a gente dá pela cousa, ela está feita; e de tal modo que ninguém a abala. Nns mãos de um padre habilidoso... — Como o Pierre... — A mulher mais frágil transforma-se numa fortaleza de pedra e de bronze. Não sei se poderei convencer a sua. Em todo caso, mande chamal-a. Trasmitida a ordem para dentro, veio uma criada a sala dizer que a senhora não podia aparecer porque tinha saído. — E' impossível! — Saiu, sim senhor. — Quando?! — Mal entrou para o quarto, pediu-me a capa e o chapéo e abalou. Os dois homens entre-olharam-se com espanto. — Não disse para onde ia? — Não senhor. — Bem. Retire-se. A criada desapareceu. — E' fantástico... observou o corretor, resvaando o olhar, do genro para as paredes. l45 — E agora? — Agora, é esperar... Olhe, naturalmente ela correu lá para casa a desabafar com a irmã, sempre foram amigas e confidentes... Desencontrámo-nos com certeza no caminho. Pergunte aí pelo aparelho se não estará lá... O Dr. Jordão telefonou com pressa para a casa do sogro. Não, Guiomar havia seguramente uns três dias que não aparecia ali. Estavam até com cuidado... — Nesse caso, aconselhou ainda o Silveira, será prudente perguntar para a casa da condessa. Tampouco estava com a condessa, que por ter ela própria vindo falar ao aparelho, poz-se a dizer cousas inúteis e a perguntar outras, na sua costumada curiosidade. O medico impacientou-se, desligou o telefone e atirou-se praguejando sobre o divan. — Que inferno! — Tenha paciência, homem, tenha paciência e espere um pouco, que eu já lhe digo onde está sua mulher... E o Silveira ergueu-se e foi por sua vez ao telefone falará D. Clara, ás Guimarães; á Kossakoff, com quem trocou também duas palavrinhas acerca do jogo da véspera; á Madame Z., á Baltazar Luz, a toda a gente, emfim, de quem se lembrou e de quem recebeu uma resposta negativa. — Então, não sei! confessou ele, sentando-se por sua vez e acendendo um charuto.

1/1
Menu

Fazer anotação