Capítulo II
Em Vila Clara, no Patatinato, numa radiota manhã de sexta-feira. Ouvida a sua missa, e recebida em atitude contrita a benção do beatifico padre Gil, a condessa entrou no carro e mandou tocar para o Palatinato. Nessa sexta-feira, D. Clara dava um almoço ás suas amigas. Almoço só de mulheres. O próprio criado de mesa fora dispensado do serviço e substituído nesse dia pela arrumadeira, uma portuguezinha de rosto pequeno e olhos enormes. Quando a condessa pisou os primeiros degraus do terraço, percebeu a voz de D. Clara discutindo na sala com a trefega Magdalena. D. Clara não podia suportar o padre Pierre, com o seu latim afrancesado, as suas unhas esmaltadas, os seus termos a escorrer doçura, como bon-bons de licor. Desconfiava até que ele usasse sachets de Coeur de Jeannette em baixo do solideu e que escovasse as suas batinas com a água de Colônia Russa; oferecida talvez pela Korsakoff. — Pois é exatamente por todas essas razões que eu o prefiro aos outros. Deus me livre de beijar mãos de unhas sujas ! — Essa alusão não cabe a padre Gil, que a bem dizer não tem unhas. — Porque as róe. Dizem que ele é um comilão de força. Quando não tem mais que comer, comese a si! Afirmava a Magdalena. — Que barbaridade! Nem você deve desprestigiar os padres. E isso que está dizendo acaba com a reputação de um homem; tanto mais que padre Gil é mais que um homem — é um santo! — Eu não o desacredito. Comparo-o apenas a monsenhor Pierre, sempre bem escovado, tanto nas batinas, como você notou, como nas idéas, que são de uma limpidez admirável. — Frases. Ele é um mundano. E' o que é. — Só sei que todos que se acercam dele ficam encantados. Quando o padre Pierre nos afaga as mãos, chamando-nos : ma brebis, ma pauvre petite brebis, é como se nos puzesse ambrosia na boca. — Por essas e por outras foi que a Rozinha Abrantes se apaixonou por ele e se fez freira... — E de quem foi a culpa ? Ele falou-lhe como um pai espiritual e a tolinha equivocou-se! — Com padre Gil isso seria impossível. Ninguém se equivoca com o padre Gil. — Pudera. Esse tem já setenta anos... — Que exagero! Faz cincoenta e sete em onze de Fevereiro. 2 9 — Pois parece ter oitenta e é feio como um chimpanzé. — Chimpanzé não é bicho que se possa comparar a um padre. — Não, porque padre Gil ainda é mais feio e menos engraçado. Nem parece gente. Dá-me a idéa de um pote velho de barro, já esborcinado, onde toda a velhada de Petropolis vai lançar os seus segredos... — Lá vem você com as suas comparações... Pois eu não sou velha e não quero outro confessor. — Naturalmente, porque ele já está surdo... Em todo caso, como não ha regra sem excepção, você é a excepção desta regra... — E' que eu não sou volúvel nem acompanho modas em religião... — Pois é pena. Eu acho que a gente deve acompanhar a moda em tudo. O padre moderno, embora pareça muito mais transigente. sabe incutir forças mais poderosas àqueles a quem aconselha e a quem dirige, do que o padre antigo. Os de hoje estão mais aparelhados para argumentar e convencer. — Imagino... — A religião agora é uma espécie de diplomacia. Os padres são verdadeiros adidos da embaixada do Reino Celeste... — Pois sim... A quem ouviu você isso? — A ninguém. E' a minha opinião. Eu não sou 3o A SILVEIRIHNA como vocês, que só dizem o que ouvem dizer aos outros... — Isso é indireta? — Sou muito franca para falar indiretamente. E' preciso que respeitem a minha opinião. Se digo que padre Pierre é um verdadeiro diplomata, é que tenho razões para dizel-o. — Ora muito bem, que venha de lá uma prova... — Ei-la : a Silveirinha, foi confessar-se ao padre Pierre, para se casar com o tal Dr. Jordão. Dizendo-lhe ela — imagine, coitadinha, com que desespero — que o noivo é ateu, pensa você que o padre Pierre esmurrou o confissionario ou que a proibiu de contrair semelhante matrimônio? Não; ao contrario! Disse-lhe que ela fazia muito bem, que obrava como uma verdadeira católica apostólica romana, e prometeu-lhe ajudal-a a converter o espirito desse infeliz, transviado do bom caminho. E explicou que todas as mulheres sinceramente religiosas deveriam unir-se a maridos incrédulos, para os salvarem com a sua fé e iluminal-os com o seu exemplo. Crer não é só rezar. Ela sahiu do confissionnario radiante de alegria, certa de que o padre Pierre a ajudaria a salvar a alma condenada do noivo... — Talvez que ele conte demasiadamente com o seu prestigio... E por que meio realizará o milagre ? 3 l — Por este : a Silveirinha irá diariamente instruil-o do que se passar em casa... — Mas o marido consentirá nisso?! — A arte está aí : o marido ignorará tudo. — Então o Pierre não é só diplomata, é também um artista... Não me parece comtudo, que seja fácil, numa cidade como Petropolis, ir uma senhora todos os dias á igreja sem que o marido venha a saber disso! — Ora essa, pois exatamente ás igrejas é que as senhoras podem ir todos os dias sem levantar suspeitas em ninguém. Ainda assim, está tudo previsto. Guiomar iludirá o marido, dizendo ir visitar esta ou aquela amiga, e entretanto irá aconselharse com o padre Pierre ou na igreja, ou na sua casa particular, ou mesmo na sala de qualquer amiga comum, conforme ulterior combinação. E' um plano verdadeiramente genial. Emquanto o Jordão pensar que a mulher está comigo ou com você, ou com qualquer outra pessoa, ela estará... — Com o padre Pierre! — E' estupendo, filha, é estupendo! Só um grande espirito poderia conceber um plano tão superior. — Oh, muito superior... — Confesse que o seu padre Gil seria incapaz de tal arte. — Confesso. — Padre Gil é um santo f disse a condessa entrando na sala. — Temos outra! objetou Magdalena, rindo. — Mas porque seria que a Silveirinha se casou com um ateu? — Falta de homens; afinal a natureza tem muita força... respondeu Magdalena. — Não lhe faltariam maridos. Ela é rica. — Qual! O Silveira deve até os bigodes! — Então foi por isso que ele os rapou! — Quê! O Silveira também rapou os bigodes!? — Também! — Que horror! — Antes a^ filha ficasse solteira toda a vida. Que assanhamento. Com um ateu... — E' medico aqui do hospital ha um ano e pensa agora em mudar-se para o Rio... — Não serei eu que o chame. — Nem eu. — Descansem, que padre Pierre o converterá, como converteu o marido da Nini Mendes. Também essa fingia ir para casa das amigas e ia para o confessionário, o que não impedia que ás vezes o confessionário funcionasse em casa de qualquer conhecida. Lembram-se? Cada dia a Nini levava uma instrução nova para ao pé do marido. — Hoje negue-lhe tudo! — aconselhava-lhe o padre Pierre — amanhã conceda-lhe meio favor... e depois de amanhã favor inteiro, a troco disto fi^^mm^^iw ou daquilo... Agora, torne a negar... faça tal exigência e torne a conceder, sob tal ou tal condição... invoque com freqüência o nome de Deus em sua presença; enregele-se nos seus braços... faça-se amada e fuja da sua convivência... aproxime-se depois... repila-o... provoque-o... desespere-o... vença-o! — E ela venceu. — Sim. Mas o marido da Nini era um palerma, sem convicções firmes. Um toleirão. — A convicção de um homem de juízo é procurar ser feliz no seu lar. — Pois olhem : a maior parte deles prefere sel-o no lar alheio. — Esta Magdalena não perde vasa! — Em todo o caso, continuou a condessa, o padre Pierre, com esse processo, acoroçôa a mentira. Padre Gil reprovaria esse plano. Mas logo as outras exclamaram : — Quando é para bom fim, Deus perdoa! Nesse instante viram atravessar o jardim uma claridade rosea. Era a Baltazar Luz vestida de solferino. Romperam as aclamações. — Bravo, como vem bonita l Vrai Paquin, hein ? — Para que negar ? E a Baltazar desfez-se da sua écharpe, com um gesto elegante e mole. — E quelparfum! — suspirou a condessa com os olhos em alvo. — Que delicadeza de olíato! observou a recémchegada. Eu puz apenas uma gola de essência aqui, na renda do corpinho... E deu a nuca a cheirar ás amigas. — Sapristi! mas deve ser então muito forte essa essência... Houbigant? — Não é francesa. — Não me diga que é alemã! — Tampouco. — Vá! Não excite a nossa curiosidade! — E' indiana, e tem uma historia... — Que venha a historia, se não é comprida. — E' a historia de um dia... — De inverno ? — Porque de inverno ? — Porque os de verão são longos. — Pois é a historia de um dia de inverno. Numa segunda-feira de carnaval, em Nice, fui apresentada a um príncipe de Bombaim, com quem passeei de carro pela cidade, espalhando pelas ruas as violetas, e os lilazes que ele me punha nas mãos. A' noite, dançámos num baile e trocamos sorrisos num terraço civilisado, sombreado de mimosas. Uma semana depois eu voltava para o Brazil e ele para a sua índia distante... c'était un homme charmant... — Mais nada? — Mais nada. — E o maridinho ? — Meu marido tem muito espirito para me proibir um flirt inocente. Tanto mais que ele conhece muito bem a rigidez do meu caracter. — Seu marido sempre foi uma pessoa de espirito. Mas a essência? — Que essência? — Ora essa I — A que você pôz na renda... — Ah, sim! Mandou-m'a o príncipe de Bombaim em pequeninos tubos de cristal, com arabescos de esmalte, como recordação daquele dia... — Bonito! E digam que a gratidão não é mais que uma palavra. — E' que a índia ainda está muito atrazada... murmurou D. Clara. Nisto, sentiram passos de homem e houve logo um alvoroço : — Não pôde entrar! seja quem fôr, não pôde entrar! — Mesmo que seja o Max? indagou com malícia a Magdalena. — Principalmente esse! Era o que faltava!... D. Clara saiu da sala, para explicar ao amigo que a reunião era exclusivamente de senhoras; nenhum homen seria consentido no salão. Ele que tivesse paciência de voltar pelo mesmo caminho. Entretanto, a Condessa indagava : — Vocês já viram alguma vez Madame Z. na igreja? — Nunca. — Porque se lembrou agora da Madame Z? E' uma mulher tão insignificante... — Insignificante ? Acho-a até uma linda mulher. — Sim, mas... ça manque de chie. Elle a Vair rigide düune statue greeque couverte de chiffons parisiens... pas même parisiens! berlinois! — Dizem que ela é assim esquiva por ser ríspida em questões de moral, como... — Não te dês ao trabalho de procurar comparações, Clara; hoje em dia, a moral sofre falsificações como o vinho. — Não digas isso, Magdalena. — Ora se digo! Senão, respondam: se a tal Madame Z. fosse assim tão ríspida, freqüentaria a Xaviera ? — Quem é essa senhora ? indagou a condessa. — A Xaviera é a mulher de um fabricante de conservas, filha de um estancieiro rio-grandense e irmã de um corretor rico, o Belmiro, que está agora nos Estados-Unidos. O marido é gordo como uma pipae rico como um nababo. Têm aqui no colégio duas filhas, já taludas. A mais velha é amiga da minha sobrinha, chama-se Marilia. A segunda é uma flor. — Marilia ! Tenho idéa desse nome... 3j — E' o da cadelinha de Mme Korsakoff, disse a Baltazar. — Marilia de Dirceu! murmurou a condessa. — Que Dirceu ? indagou a Baltazar, que tinha distrações. — Um pintor italiano da antigüidade, explicou a Magdalena, piscando um olho. A Baltazar disfarçou, percebendo a perfídia e Magdalena continuou: — Diz-se que a Marilia quer fazer-se freira para redimir os pecados da mãi. — São assim tantos? — Que de romances na vida! — De onde conhece você essa Xaviera? — Das premières do teatro e da missa na matriz da Gloria. Ela é interessante e tem crônica... Veste-se bem e pinta-se melhor. — Já estou morta por conhecer essa senhora, a filha e tudo! confessou a condessa, sempre curiosa. — E o marido, não ? — Também, lambem! Nesse momento, a criada anunciou a chegada das senhoras Guimarães e cunhada. Vinham da igreja, onde a ultima comungara, esforçando-se por esse motivo por dar ao seu rosto viril, sombreado por um par de sobrancelhas largas e negras, uma expressão de suavidade. A mais velha das casadas gostava de mostrar as meias de seda da côr dos sapatos, cruzando as pernas em atitudes cômodas e desembaraçadas. A do meio tinha um riso lindo, em que os seus trinta e dois dentes resplandeciam como jóias raras. Como tivessem chegado de uma viagem recente, misturavam a tudo o nome de Paris e de Vienna d'Áustria, onde tinham visto o imperador Francisco José acompanhando uma procissão ! — E o Kaiser ? Vocês também viram o Kaiser da Allemanha? É uma personalidade! Parecia-lhes que sim... Como ? não tinham certeza ? — Não... — Que exquisitice! Expliquem-nos. Houve uma anciedade. — Foi em Berlim? — Não. — Em Corfú? — Não, foi no Lahmann Sanalorium, onde estivemos tomando banhos de ar. — Vocês também ? perguntou sorrindo a condessa. — Nós também. — Já ouvi falar em banhos de lama, que deve ser cousa bem execrável; em banhos de vapor, de sol, de mar, de termas, de luz, de chuva, de igrejt, de electrícidade, de leite, lustraes; mas ainda não tinha ouvido falar em banhos de ar. Como se toma isso, em frente a algum ventilador? — Não. Passeando-se despida no parque do estabelecimento. — Quê! — Nuas num parque, á clara luz do dia ?! — Então? Não ha nada de escandaloso. E' disciplina medica. — Olhem que a medicina, ha uns tempos para cá, têm inventado cousas !... — Que nefelibatismo! exclamou Magdalena. — Na verdade, ha sistemas de cura bem originais. Principalmente na Alemanha. — Canalhas de médicos... — Alto lá, bemfeitores ! Porque é já sabido que todos os processos, no principio, curam. — Nós, por exemplo, passávamos muito bem no Sanatorium. — Fresco Sanatorium. — Muito fresco! Delicioso. O que lhe posso assegurar ó que, de longe, era bonito de ver-se através das sombras movediças do parque, aquelas mulheres louras, cobertas apenas por túnicas transparentes de pongé rosa, azul, verde ou lilaz, ao lado de outras mulheres passeando ao sol em plena nudez, como no Paraíso. — Não posso conceber paraíso sem Adão... — Mas era bonito só de longe? por que? insistiu alguém. 4 o — Porque a distancia imprimia uma certa irrealidade ao quadro... — Sempre estou com corta curiosidade de saber como se arranjariam as feias... — As feias eram qunsi todas. Nunca imaginei ver tantas cicatrizes na minha vida. — Onde? — Nos ventres. As Européas parece que se fazem operar por prazer... — São as apendicites... — Vocês deviam ter feito um figurão!... — Eu parece que lhes metia um pouco de medo, disse a cunhada das Guimarães, arqueando as sobrancelhas. — Por que? ! — Porque sou muito cabeluda! E mostrou o braço até á altura do cotovelo, velado por uma penugem negra e macia. Riram-se. — Basta olhar-sc para as suas sobrancelhas, para a gente ficar um pouco assustada! disse a Magdalena, confiadamente. E logo depois: — Morro por uma cousa. — Qual? — Saber como puderam vocês lobrigar o Imperador Guilherme II no meio dessa imensa confusão, ou antes, no meio dessa simplicidade de corpos. Disfarçado não podia ser! — Escuta, filha, é que o Sanatorium lambem 4 1 •a para homens. Um dia, estávamos folheando álbum de fotografias da sala, — nós gostavaIOS muito de ver os retratos da sala, — quando imós um militar debigodeira suspensa atravessar corredor, acompanhado por um grande grupo e homens. Dizia-se no dia seguinte que esse mitar era nada mais nada menos que o próprio nperador! — Ele não as teria visto... no parque? ! — Oh! não ! Ali impera a moral mais ríspida. — Tal e qual como a de Madame Z ! — Somente, os homens faziam-se fotografar m pelo e incluíam os seus retratos no álbum do alão! — Percebo agora! — Percebe agora o quê ? — Porque vocês gostavam de folhear os álbuns e fotografias... — Má! — Estamos aqui muito bem, mas são horas do ilmoço. Vamos? convidou a dona da casa. — Você não se teria esquecido, Clara, que hoje i sexta-feira e que não dispensamos peixe ? — Não. Ainda hontem padre Gil me recomenou que não esquecesse nenhum preceito... — Mas padre Gil come carne; padre Gil come ndo! disse Magdalena. — Em oposição ao padre Pierre, qui ne mange que des bonbons... respondeu a dona da casa com ironia. — Não, que o padre Pierre tem mesa fina! Trata-se. — Bem, bem! sentenciou a condessa, deixemos a religião em paz e vamos aos camarões. Onde é o meu lugar? — No centro, á direita. Mas leiam os nomes nos cartões. — Linda mesa... — Você tem uma bela cristalaria! — Não é má... — Que vinho é este, Clara ? — Veja no rotulo... Eu não entendo do vinhos... — Nem eu. — A garrafa não tem rotulo. E' de cristal. — Então deve ser Porto, Madeira, ou Xerez!... — Ou outro qualquer... — E' um vinho branco, para o peixe. — A propósito de vinho, querem saber a novidade que o Roberto Flores me trouxe hontem do Rio? — Diga! A condessa fez-se esperar um instante antes de continuar: — Corre no Rio que a Looking-glass é corisla do Alhambra de Londres e que o Goldenberg é tanto pai dela como de qualquer de nós ! 4 3 «VtmswtnMMAA^srwwvw* — Eu logo vi. Ela tem modos de écuyère! — Quelle horreur! Mon Dieu t mon Dieu I — Constava que eles vinham fugidos da policia ingleza e que o parentesco foi inventado no Brazil por disfarce. — Que teriam eles feito em Londres, para fugir! — Talvez algum desfalque. 0 Goldenberg sua libras esterlinas. — Eu sempre desconfio dos estrangeiros endinheirados que nos visitam. A America nasceu para os pobres... — E para refugio dos criminosos. — Quelle turpüude! — Se isso fôr verdade, sempre quero ver a cara com que ha de ficar muita gente que aqui recebe os Goldenberg, como outro dia o Karsakoff. Não se lembram dos urros do Goldenberg, vendo dançar os pretos? — Serão amantes? perguntou Magdalena, E D. Clara mostrou-lhe com os olhos a figura da Guimarãesinha que, nessa manhã, comungara e se refazia das fraquezas do jejum com o ensopadinho de camarão com palmito. — Que horrores! — Que horrores, o quê ? — E' cá unia idéa! — Você também tem disso ? — Sempre. O que não tenho agora é peixe, que me faz mais falta. D. Clara fez sinal á criada que servisse o peixe. — Com o seu gosto pelas originalidades a Korsakoff é capaz de ficar agora delirando pela Looking-glass... Sabem que no dia7 de Setembro, ela foi cumprimentar o Presidente ao Palácio com um sapato de setim escandalosamente verde e outro escandalosamente amarelo? — Historias! — Palavra! Vocês nunca a ouviram dizer: — Nous rtaimons pas Ia vulgarité en Russie...? — Quantas vezes! Foi por isso que ela fez dançar os pretos na sua sala. — E é amiga da Looking-glass. — A Looking-glass en maillol deve ser pavorosa. — Menos do que no tal parque da nudez... — Se vocês fossem artistas poderiam ter trazido de lá uma aquarela... — Deus nos livre! — E o medico ? — Esse sim, era um artista! — Até onde nos levará a medicina moderna? — Até ao Paraíso, — está-se vendo. — II faut recommencer... — Mas, nós não fazemos outra cousa na vida! — Não ! Nós também... Magdalena teve de suspender a frase a um novo e imperativo olhar de D. Clara, designando a comungante. — Diabo... como estas jeunes filies atrapalhara 4^ a vida da gente! resmungou Magdalena, abafando a voz num copo de Bordeaux. Daí por diante, o barulho, o riso, a confusão, até á hora em que se levantaram da mesa para irem a uma conferência sobre « O Flirt », no Palácio de Cristal.