Capítulo XII
O mal está menos nas coisas do que nos olhos que as vêem... João Zacarias apagou a lâmpada do escritório e caminhou pelo corredor para o quarto de cama, quando viu a mulher sair da alcova das crianças. — Está tudo em paz? perguntou ele. — Tudo; mas o Roberto nem mesmo dormindo fica socegado. E' a terceira vez que lhe componho as roupas e já tem os lençóes como um ninho de ratos... — Escute, Zelia, você poderá amanhã descer ao Rio? — Para quê?! — Minha mãi teve hontem um forte acesso de asma, e eu gostaria que você a visitasse : bem sabe que é a sua nora preferida... Além de que, eu quero ver se passo amanhã o dia aqui, estudando o negocio do banco, que está muito complicado. Se você fôr, levará uns papeis que tenho aí ao Ludgero e trará outros que deverão estar prontos... Sei que é um sacrifício que lhe peço, mas tenha paciência. Também você ainda não desceu ao Rio nem uma vez neste verão! — Nem sinto falta, acredite. — Mas que diacho, só por um dia... — Não é sacrifício. Irei. — Bom. Eu já telegrafei ao Ludgero para a ir esperar á estação. — Mas se eu não pudesse ir? — Nesse caso iria eu! — O que eu não preciso é que o Ludgero me vá esperar á estação! Conheço bem o caminho- — Preciso eu. Logo á chegada você lhe entregará os meus papeis, pedindo-lhe que os leve amanhã mesmo ao ministério. A' tarde, depois das suas voltas, você irá então ao seu escritório pedir-lhe a resposta do ministro e uns outros papeis que nessa hora já deverão estar prontos. Entendeu? — Entendi. — Ao menos você gozará na viagem da companhia da condessa. Encontrei-a hoje, no telégrafo. ,Perguntou muito por você... — Ela pergunta sempre muito por toda a gente... E' uma interrogação viva, aquela mulher... L — Você nunca a visitou. — Nunca. Tomara eu tempo para tratar dos meus filhos e da minha casa. Venho para descançardo bulicio, não me agradam relações novas... 17a Sei que por isso me acham exquisita mas não faz mal... Nessa noite João Zacarias adormeceu feliz, antegozando as delicias do seu dia serrano, trabalhando sem atropelos nem constrangimento no bem-estar de um clima adorável e de um pijama macio. Na manhã seguinte a mulher saiu cedo, depois de ter feito aos filhos muitas promessas risonhas e de lhes ter aconselhado muito juizo! Quando chegou ao trem já nele encontrou a condessa, conversando com o Roberto Flores e o Max. Fizera-lhe ela a fineza de lhe marcar um bom lugar com a sua echarpe. Madame Z. agradeceu a amabilidade com um sorriso e sentou-se, esquivando-se a conversas. Poucos bancos adeante estavam o Dr. Jordáo o a Silveirinha, que desciam ao Rio a procurar caso para a residência do inverno e deveriam regressar á noite a Petropolis. A Silveirinha estava com um modo tão enjoado, que o Roberto comentou a meia voz. — Como os anjinhos se fazem mal anunciar, condessa! — Está enganado. E' por outra cousa. A Silveirinha sofre por ter de deixar Petropolis exatamente agora, que vai começar o mez de Maria! — No Piio também ha disso. — E' diferente. Você compreende que todos aqui nos conhecemos. Temos a nossa roda. A gente, quando se ajoelha em uma igreja, não tem medo de que as saias das nossas visinhas de oração tenham trazido, de cortiços ou de alcovas ignoradas, certas pulguinhas que, nem por virem bem alimentadas, deixam de ser famintas. O que nos vale ó que os operários e a gente das classes inferiores cada vez vão menos á igreja. Já notou? — Como haveria de fazel-o, se nunca vou á igreja? Talvez porque seja também — da classe inferior. Mas diga-me uma cousa : a Silveirinha já fez as pazes com o marido? — Pois se ela o adora! — Outra vez?! — Como outra vez? — Pois não me disse outro dia que eles tinham brigado até ao escândalo ? — Talvez tivessem tido o seu arrufo... sim parece que afinal de contas tudo se limitou a um arrufo... Mas as conveniências?Todas assenhores da sociedade adoram os maridos... Soube depois que tudo aquilo que se disse não era verdade. Estive com o Silveira, que me contou tudo. Nem ele está contra o genro; nem a criada gritou; nem a Guiomar teve ataques. Houve apenas um ligeiro arrepio entre ambos, e nada mais. A essa cena chamou o Silveira : — aperitivo para beyos. Os doces beijos das pazes! Ainda desta vez você não ficou vingado... 10nj-mj-i_r.n.n i i— - - — — . - . - - - » - . » - . - . - . - - - - * - - » * — - - - - - » - - - - - . - - - - . - ^ ^ - . - ^ ^ . - - - - - - [ „ n n -i.n_ri-inrmjum_l — O que muito estimo. — Conheço a elevação dos seus sentimentos... — Obrigado. Em todo caso a Silveirinha náo foi á festa do padre Pierre, pois não? — Não. — Nem o seu nome apareceu na tal lista... — Nem. — Eu dou toda a razão ao marido. — Não fosse você homem! — E que tal esteve a festa ? — Magnífica. — Imagino. — Não, você não imagina. A coisa foi superior. — Ainda uma vez — obrigado! — Não se ofenda. Sei que não lhe falta capacidade imaginativa; mas é que a festa excedeu a expetativa geral. Ora suponha que havia já dois dias que uma comissão de meninas andava enfeitando a casa do padre Pierre sem olhar a nenhuma despeza nem a nenhum sacrifício. A sala de visitas tinha as paredes completamente cobertas de cravos vermelhos — representando o sangue de Christo. — Sem vinho? — Ouça e cale-se. — Sim, para o vinho é preciso um cálice... — Que horrível calembourg, meu caro amigo, que horrível calembourg! Até parece do comendador Brandão... — Perdõe-me e continue. Como estava enfeitada a sala de jantar? — De avencas e dálias côr de rosa, tendo sido substituído o lustre velho por um magnífico, franjadode oiro... — Que idéa brilhante! — Brilhantíssima. Mas o que estava deveras lindo era o quarto de dormir, literalmente guarnecido de rosas brancas. — Oh, pureza! — Até nos chinelos de monsenhor elas acharam geito de prender bouquets de rosas miudinhas... — Que delicadeza de sentimentos ! — E entáo se você visse a cama! Parecia de noivado, toda coberta de sedas e de rendas. As moças tiveram arte até para engrinaldar o cortinado, á cabeceira, com um belo festáo de flores de laranjeira! — Se ha tantas sem aplicação. — Não se faça de tolo, nem seja má-lingua, ou eu não direi mais nada. — Diga sempre! — Não. Olhe antes para Madame Z. Repare que ela é bonita, vista de perto. — E de longe também. — Porque irá sósinha? — Isso é com os deuses. — Daqui a pouco irei conversar com ela. — Então saberá tudo. — Pelo menos, saberei alguma cousa. Náo nego, tenho pela vida real das pessoas que o acaso aproxima de mim o mesmo interesse que certos indivíduos têm pelos livros que lhe passam ao alcance das mãos. Quando os não leiam, folheiam-lhes ao menos algumas paginas para terem uma idéa do conjunto, e já com isso sentem um pouco satisfeita a sua curiosidade... Lá foi o Jordão conversar com a Z... neste caso irei conversar com a Silveirinha! E a condessa caminhou para o lado da amiga, cujo olhar se perdia nas nevoas de uma idéa distante. — Você está doente, Guiomar? — Eu não. Porquê? — Parece-me abatida. — Foi da madrugada. Não lenho o habito de me levantar cedo. — Ainda bem. — Talvez que também o russo de hontem á tarde me tivesse feito mal. Reparou como foi forte ? — Filha, o único russo que eu conheço é o Korsakoff, que só me parece forte na paciência de aturar as maluquices da mulher. I77 — Referia-me á neblina. Sabe que a chamam russo aqui ? — Sei. O nevoeiro começou exatamente quando saiamos da casa do padre Pierre. Fique certa de que a sua falta foi muito sentida... — Imagino... — Pôde ter a certeza. Tanto que Monsenhor pediu que eu lhe transmitisse o seu pensamento. Disse que rezará por você todos os dias e aconselha-a, por meu intermédio, a continuar no-proposito de converter seu marido com paciência, que o triumfo virá um dia, com a benção de Deus. Distribuiu por nós todas as medalhinhasde ouro e entregou-me a que lhe destinava, que beijou e benzeu á minha vista. Sabe que ele tenciona também mudar-se para a capital ? Um relâmpago de alegria iluminou o rosto da Silveirinha. — Quem disse ? — Quem havia de ser? Ele. — Seria tão bom, precizo tanto do seu conselho ! — Mas com menos imprudência do que em Petropolis, hein? — Nunca fui imprudente! Trabalhei pela felicidade de meu marido e salvação de sua alma e trabalharei até á morte. Somente agora, sem o apoio do padre Pierre, eu me sinto como uma I78 criancinha nos primeiros passos, sempre vacilanto e com medo de cair! — Você não está sozinha... — Se ele não me abandonar... se rezar por mim... se algum dia voltara falar-me, a inspirarme, ah, então sim, eu me sentirei fortalecida na minha esperança! Por que não me dá a medalha quanto antes, condessa?... — Porque náo a trouxe na bolsa, filha. Está muito bem guardadinha em casa, entre os meus lencinhos de seda e os meus fichús... — Elle não se mostrou zangado comigo? — Por que?! Não! ao contrario. Quer que nós todas nos reunamos para ouvir a sua primeira missa, no Rio. Eu estimo que ele venha para a Capital e deixe em doce paz o meu santinho padre Gil. Vocês não ignoram que eu estava ficando com ciúmes e ciúmes muito justificados. Depois que vocês puzeram em moda o padre extrangeiro, o nacional ficou abandonado... — Isso não... Mas diga-me: quando descerá o padre Pierre? — Assim que acabar o mez de Maria. Creio que ele tem promessa do Cardial para um bom lugar. É muito geitoso e felizardo, o padre Pierre... E vocês, quando descem? — Não sei. Vamos hoje vêr casas; se alguma nos agradar desceremos na próxima semana. Amanhã irei vêl-a, buscar a medalhinha econtar- *79 lhe tudo. A1 senhora eu posso falai como a uma mãi! — Pois sim. Adeus, coragem e náo seja criança... * Desde então a fisionomia da Silveirinha mudou. Tingiu-se-lhe o rosto de um rubor febril e os olhos encheram-se-lhe de humidade e de brilho. Acordava-lhe a alma numa aurora de esperança. 0 seu confessor, o seu querido pai espiritual, que lhe chamava — ma douce pelite bi'ebis, ma chère petite brebis!— mandava-lhe, emfim, uma palavra de bondade e um pensamento de perdão! Jà agora o Rio não lhe parecia tão antipático e hostil. Padre Pierre viria habital-o e ajudal-a na sua grande obra de piedade e dever religioso. Tendo-o a seu lado estaria certa de vencer o grande obstáculo. Depois da cena da sacristia, em que se supuzera repudiada por ele, era a sua primeira hora de alegria ! Teria ele querido pôr á prova o seu frágil e assustado coração? Tel-a-ia feito sofrer, para tornar mais doce e mais inquebrantavel depois a sua fé e a sua obediência ? Com que palavras, de que se não lembrava, o teria ofendido ao ponto de o tornar tão austero e tão cruel ? Ah se pudesse voltar atraz, desfazer toda aquela cena de amargura e de humilhação !... mas começava agora a sentir-se feliz... ele voltava... ele mandava-lhe um registro sagrado... ele pensava na tortura da sua pobre alma estrangulada... talvez já arrependido... l 8 o Quando o trem parou na estação da Praia Formosa, a primeira pessoa que a condessa viu na gare, indagando com a vista para dentro do trem, foi o advogado Ludgero, ja com um ar de elegância e de dinheiro. A condessa imprimiu uma cotoveladinha discreta no braço do seu bom amigo Roberto Flores. Nesse momento, Madame Z. oferecia a mão ao advogado que a ajudava a decer do trem.