Capítulo XV
Ha Jrates que são para o nosso ouvido como o zumbido das abelhas: só téem som. Mas quem entendesse as abelhas descobriria talve* no seu tumbido, significações bem extraordinárias. A Silveirinha estava contente, lépida, e, mal terminou o seu almoço, vestiu-se para saire correu á casa da condessa, pensando na medalhinha do padre Pierre. A condessa estava na sala de jantar, rodeada de amigas, fazendo flores para o altar. Ia começar o mez de Maria. Queriam que a igreja resplandecesse de candura o de lindeza. A sala fora arvorada em atelier de floristas. Magdalena estava á cabeceira da mesa, dirigindo tudo e armando as palmas e os ramalhetes. A Baltazar Luz estava a seu lado, trabalhando de luvas, para que o arame náo lhe ferisse os dedos, nem lhe encardisse as unhas primorosas. D. Clara era a mais expedita; já tinha feito nada menos de vinte botões! Estava também a mais moça das Guimarães, a das sobrancelhas cabeludas, sempre atrapalhadora, sem saber fazer nada e perguntando tudo! — Quanto paga pela lição? perguntava-lhe D. Clara, a cada uma das suas indagações. A condessa, de pé, colocava as flores já feitas em uma bandeja sobre a étagère. Quando a Silveirinha entrou na sala e deparou com a Magdalena, teve vontade de voltar para trás e desandar o seu caminho; mas dominando o seu impeto, cumprimentou a todas com um — boa tarde! — tão amável quanto lhe foi possível, e caminhou para a condessa. — Bravo! cá temos a nossa Guiomar! Arrangem um lugarzinho para ela. Então você hontem ficou no Rio? — Sim, condessa. Fiquei e não me arrependi, sabe? Diverti-me muito! Esta declaração fel-a ela á Magdalena, indiretamente. Precizava que essa senhora soubesse que ela não tinha ficado acabrunhada, que vivia contente... D. Clara chamou-a : — Venha para o pé de mim; precizamos de operárias. Imagine que já mandámos chamar até a Goldenberg! — A Looking-glass não sabe fazer flores; saberá quando muito fazer hastes... Vocês têm notado como a pobre está cada vez mais comprida? observou a Magdalena. Já quando anda, se sente 30Q o ruidozinho do medalhão de espelho batendo-U de encontro aos ossos... — Pensei que você fosse muito amiga da Go! denberg! disse D. Clara, olhando para Magdalei em ar de censura delicada. — E sou, ora essa! Eu e o padre Pierre estami trabalhando até com muito entusiasmo para a st conversão. Já a temos abalado um pouco... A coi quista não é nada fácil; mas que quererá padi Pierre, que não consiga fazer? Isto disse a Magdalena para o lado da Silvei rinha, que ouviu tudo calada, mas com avidez. — Pois eu náo acredito que vocês possam cai tar vitoria nessa questão. A Looking-glass à prc testanle; e os protestantes são inabaláveis. — Quando não encontram no seu caminho ui padre Pierre. — Mas quem se lembrou de semelhante idéa — Eu. — A que propósito? — A propósito de cousa nenhuma. Conversand um dia com padre Pierre, que vai a nossa cas muito a miude, lembrei-lhe que seria um verda deiro triunfo para nós a entrada da Looking-glat para o grêmio católico; e logo ele aprovou, io struindo-me sobre o modo de a atrair-mos pouco pouco, sem violência, para o nosso lado... — Mas essa ação deveria ser executada em sa gredo! observou D. Clara. 2o3 — Também eu só digo isto a vocês! Nem é necessário recomendar discreção... — Por que processos contam vocês conseguir essa vitoria? — Padre Pierre me instruirá diariamente sobre o que devo fazer... JHontem, por exemplo, eu levei a Looking-glass á igreja, sob o pretexto de ver um painel; que não tem historia nem valor artístico, mas que lhe gabei ao ponto de lhe excitar a curiosidade. Que diacho, a gente preciza inventar com que se divertir, em Petropolis... — Olhe que você é terrível, Magdalena! — Terrível, porque? Trabalho para um fim piedoso e em beneficio de uma alma que me é simpática, apezar de tudo... Vocês não podem dizer o contrario. — Ah, não! — Depois, meu marido está de acordo com as minhas opiniões e ao corrente da situação... Eu seria incapaz de me meter nesta aventura sem oiencia dele... Silveirinha compreendeu o remoque, mas não retrucou, na anciã de ouvir o resto. — Vamos ao que importa, exclamou a Baltazar; afinal a Looking-glass, foi? — Foi; e padre Pierre veio em pessoa explicarnos a vida da santa, uma grande hereje convertida ao cristianismo o que depois da conversão fez cousas sublimes e feitos milagrosos de assombrar ao4 o mundo! Padre Pierre fez uma verdadeira conferência, a ponto da Looking-glass se deixar penetrar pelas suas idéas até ás lagrimas. Tenho reparado que as inglezas náo sáo de pedra. Quando monsenhor lhe tomou as mãos e disso com aquele modo envolvente que lhe conhecemos : — Venex, ma brebis, venez souvent, et je vous raconterai de belles choses — e ela respondeu com alvoroço : — Oh, yess! II returnf — Eu tive a impressão do ouvir uma lixa grossa raspar sobre um setira macio! — Realmente a voz do padre Pierre ó o que ha de mais doce... — Isso é. Voz e olhos ninguém os tem como ele! — Em compensação a da Looking-glass é áspera. — Compensação, tem graça! — Que instruções tem você para alcançar um sucesso tão extraordinário? — Varias. Visitarei de novo a Looking-glau, sem lhe falar em religião, nem cousa que se lhe pareça. Virá dela a primeira curiosidade. As Inglezas são curiosas. Conto agora que vocês me ajudem. Padre Pierre aconselhou-me esta confidencia, na certeza de que vocês todas unirão os seus esforços aos nossos... — Gosta muito de colaboração, o padre Pierre!.. objetou D. Clara. — Para repartir comnosco a sua gloria! afirmou Magdalena. 2o5 — Bem; excitada a curiosidade da Goldenberg, que fará você? — Leval-a-ei á igreja, ou fal-a-ei encontradiça com o padre Pierre e ele, sem pressão, sem conselho, indiretamente, literariamente, contar-nos-á a vida dos santos mais apropriados ao caso. Ha uma espécie de magnetismo nos olhos do padre Pierre, qualquer coisa que fascina, e que sendo nele um dom natural de que usa inconcientemente, o ajudará a converter a alma dura da Goldenberg... — No seu caso, eu deixaria a moça em paz... advertiu a Baltazar Luz, emquanto a condessa pedia : — Olhe, Magdalena, conte-me tudo o que se fôr passando. Essa historia interessa-me singularmente... Silveirinha corava e empalidecia sucessivamente. Percebia o propósito da Magdalena de a magoar. Todo o carinho espiritual do padre Pierre, de que ela se ufanara desde solteira, passava agora inteiramente para a outra que o atraíra de propósito para a ofender... Magdalena conquistara o padre Pierre, só porque ele demonstrava preferencias e bondades pela sua pessoa. E o que diria dela ao padre, a Magdalena? De que invenções seria capaz a sua imaginação? Não acreditava que a Magdalena tivesse um interesse sincero pela felicidade futura e eterna da Looking-glass, de Q O 6 quem se ria e caçoava, como fizera havia pouco. Que a Transvaliana fosse judia, protestante ou budista, dever-lhe-ia ser tão indiferente como se andasse vestida de azul, de preto, de branco ou de amarelo... A intenção fora só a de atrair para si a atenção do padre Pierre, ruubando-o á sua intimidade e ao seu cuidado... E padre Pierre, homem inconstante como os outros homens, aceitava aquela nova situação como qualquer mundano um flirt novo que destruísse um antigo... A condessa, que tinha como o melhor prazer da sua vida observar os sentimentos alheios, não perdera nem a mais sutil das inflexões de voz da Magdalena, nem tampouco a mais dissimulada expressão fisionômica da Silveirinha. Quando achou que as cousas tinham chegado a um ponto de que não deveriam passar, reclamou a atenção geral para a sua bandeja de flores e ofereceu chá e bolos ás amigas; depois, chamando a Silveirinha ao seu quarto, tirou de uma gaveta a medalha oferecida pelo padre Pierre e entregou-lh"a : — Aqui tem você a imagem de Nossa Senhora. Padre Pierre beijou-a, abençoou-a e entragoum-a com estas palavras: — Dites à Madame Jordão dêtre sage ei quejepenseà elleconstamment... dites-lui de travailler sans cesse, mais avec prudence pour Ia régénération de celui à qui son unge gardien l'a conduite... Le jour ou elle mettra celte petite médaille au cou de son mari avec sa permission, les royaumes des cieux se couvriront de gloire et je Ia bénirai avec mes deux mains... Silveirinha deixou-se cair numa cadeira com uma crise de choro. A condessa assustou-se. — Que é isso, Guiomar?! Estou-a desconhecendo ! Você, tão enérgica, tão pertinaz, desanima assim?! Chorar, por quê?! — Porque eu lutarei em vão contra as idéas, do meu marido. Já não tenho argumentos, nem sei que imaginar... Sou como uma onda de encontro a um rochedo; por maior que seja o meu impeto, recuo desfeita em cada embate que lhe dou... Padre Pierre abandonou-me, trocou-me por outra, ja não pôde dirigir duas almas ao mesmo tempo, e eu sem ele tenho medo de errar o meu caminho! — Mas se ele diz que pensará sempre em você! — Não basta pensar; é precizo esclarecer... ensinar! — Ele já esclareceu... Foi até onde podia ir. Foi mesmo mais alem. Compreende que, embora padre, ele é homem, moço e bonito; e ainda mais — que o mundo vê o mal até no bem! Percebendo o perigo a que ele a estava expondo, fez muito bem em retirar-se, e proibir a você de se aproximar de sua pessoa... Já sei tudo. Entretanto, afirma-lhe a distancia que a ampara e a segue com o pensamento, e isso deve fortalecel-a. 0 que lhe aconselho é que não faça caso do que lhe disse a Magdalena... Todas nós sabemos que ela faz aquilo por pirraça... E' o seu feitio... — Se eu pudesse confessar-me ao padre Pierre antes de voltar para o Rio!... — Fale antes ao padre Gil... — Não... Precizo justificar-me a monsenhor Pierre, explicar-lhe as intenções que tive e náo soube exprimir a ultima vez que o vi, na sacristia... Mas eu estava numa hora de tamanha confusão o desespero!... Condessa, poderá obter que ele me ouça em confissão ? — Talvez... — Diga que sim ! — Tentarei... — Comunicar-me-á depois a sua resposta? — Por força; embora, com franqueza, eu proferisse que se confessasse a outro. Seu marido é um homem muito digno da minha simpatia e da minha consideração e não quero que ele venha a ter motivos de aborrecimento contra mim. Aprovo que você o converta, como boa católica que é, mas não creio que seja o padre Pierre o diretor mais conveniente para esse fim... Bem; agora venha lavar os olhos e cobrir de pó de arroz o narizinho, que ficou vermelho... Vocês não fazem nada por terem juizo... Descance, que Deus não a desamparará... Silveirinha voltou para casa com a esperança na alma e a medalhinha do padre Pierre na bolsa. O marido já a esperava. — Vim cedo para casa na idéa de encontrar-te e achei só a criada... — Fui visitar a condessa... — Quando poderei ter a minha mulherzinha só para mim? Ela soriu-lhe e ele abraçou-a com o braço pela cintura, mas logo retirou a mão com uma exclamação repentina: — Ah!! — Que foi?! — Feriste-me! - E u ? — Sim. Vês? com um alfinete. Não é nada. Mas parece impossível como doeu... Foi fundo. Não sei para que as mulheres hão de usar alfinetes!... E ele espremia o dedo picado. — E quanto sangue!... é que além do furo fez um arranhão... toma o lenço... — Declaraste-me guerra mal chegaste a Petropolis ! Eu não digo que este clima implica com os teus nervos! respondeu ele, rindo. — Não fui eu, foi a Maria que pregou mal este alfinete... — Não te desculpes... e dá-me o fenol! 0 fenol e... um beijo. Ela ergueu o rosto para o marido, num gesto sincero de paz. 0 alfinete não fora pregado com arte por culpa da sua pressa em correr para a casa da condessa... 12. 2IO O desageitamento,dizia-lhe a conciencia, era muito mais seu do que da criada, que ela tinha sacudido na anciã de ir buscar a medalha do seu confessor... O que lhe valia é que as picadelas de alfinete não tem nenhuma importância senão quando são representadas meta fisicamente por gestos ou por palavras... Essa fora material, casual, e não deixaria nenhum vestígio na vida. Daí a instantes náo se pensava nisso.