Capítulo VII A Silveirinha · Capítulo 7 de 20
Obra Menu

Capítulo VII

Até onde pode levar a mania das coleções. Ludgero subiu contente e lépido a escada do seu escritório. Vinha de uma entrevista com a Xaviera; parecia outro homem, estava radiante. Em cima, na sala encardida e pobre, esperavao o indefetivel Jorge, mascando cigarros, todo derreado no sofá, á espera dos acontecimentos. — Apareceu alguém ? perguntou o advogado. — Sim. — Quem ? — Eu. — Ora bolas! — E' verdade apareceu também o carteiro. Está ali uma carta para o senhor, em cima da secretária. Ludgero precipitou-se, pensando em qualquer negocio. Mas a carta era apenas um recado de Madame Z., avisando-o de que o marido estava doente em Petropolis e pedindo-lhe em seu nome uns certos papeis que estavam em seu poder. — Cousa boa ? perguntou o Jorge, num tom de voz arrastado. — Maçadas !... e o Dr. Ludgero releu em silencio a carta de Madame Z., revirando-a entre os dedos magros. Depois resmungou com ar aborrecido : — Esta gente pensa que não tenho nada que fazer... — E' sempre a fama dos que mais trabalham, disse Jorge com ironia. O advogado sentou-se á mesa, remexeu na pasta esteve por algum tempo calado, até que de repente levantando os olhos para o rapazinho, perguntou: — Você não me disse que têm muita habilidade para imitar letras alheias ? — E posso provar... — Sempre quero ver isso. — Quando quizer... — Já. — Pois seja. — Vá lá : escreva o que lhe vou ditar, com esta caligrafia. E entregou ao outro o sobrescrito da carta da sua amiga Zelia. Jorge instalou-se. — Primeiro precizo fazer os meus ensaios... — Faça-os. — E depois prevenil-o de que não emprego a I 0 9 minha arte para o mal. Posso saber do que se vai tratar... — De uma brincadeira apenas. Questão para rir... — Se é para rir, muito bem... Para chorar, nunca ! — Nunca. Eu lá sou homem de lagrimas ! parece que você não me conhece... — E talvez não. Em todo caso, é bom lembrarse de que — quem não chora não mama. A letra é fácil, tem originalidade... individualidade. Ainda bem, porque não ha nada mais enfadonho do que imitar letras banais... esta é forte, de traço largo, regular, rijo e decidido, denota um caráter nobre, limpo, sem tergiversações. De quem é ? — De uma parenta pobre. Mas não perca tempo em considerações sem importância. Eu já sei que a minha prima é muito leal. — Não se arreceie; dentro de cinco minutos estarei habilitado a escrever tal qual ela. Verá a perfeição. Ludgero não respondeu. Redigia mentalmente a carta que ia ditar. Jorge calou-se, estudando com atenção a letra de Madame Z. ; no fim de alguns instantes declarou-se apto para o trabalho : — Vai ver: vale bem uns dez mil réis este servicinho... até mais, — uns vinte ! O outro começou, inclinando o busto para a secretária : « LUDGERO H O « Petropolis — Domingo — noite. « Foi este um dia de anciedade e de tristeza para mim. Por que não veio ? Persiste em seus escrúpulos que me atormentam ? Ele passou o dia de cama, com uma gripe; teríamos estado sós se tivesse vindo... Cada trem que chegava era um sobresalto para o meu coração, que é hoje, ai de mim, todo seu ! Z... » — Mas isto é uma carta de amor! — Está claro que é uma carta de amor. — E uma carta que pôde comprometer uma mulher ! — Mas que também pôde comprometer um homem. — Não tanto. — Como não ? — Fala-se aqui nos seus escrúpulos... Para que diabo pôde servir isto, não me dirá ? — Para a minha coleção de autógrafos e consolação imaginaria das minhas desventuras amorosas. Fica sabendo, donzel querido, que um homem só vale neste vai de lagrimas pelo numero de amantes que possa ter tido ou tenha... Eu ainda não estou iniciado nas intrigas dos boudoirs, que levam depressa um homem de simples advogado sem vintém, a deputado e diretor de compaI I I nhiasextrangeiras... Faço os meus ensaios, ora ai está... — O que eu não quero é ver-me em embrulhos... Nada de enredar ninguém, com a minha cumplicidade. — O' pateta, pois você não vê que isto é uma brincadeira de rapazes ? Os meus amigos vivem a falar nas suas aventuras amorosas, ao pé de mim e eu tenho de ouvil-os como um mendigo esfaimado pôde ouvir falar em bifes com batatas ou café com pão. Compreende agora ? Amanhã, quando um deles se puzer com historias, saco da minha carta, escrita evidentemente por mão feminina, e mostrolha, rente ao nariz e aos aros das lunetas... — Ah, bem! Então esta inicial Z... esta alusão a Petropolis... — E' tudo fantasia. A senhora cuja letra você imitou, tem cincoenta e sete annos de idade, usa botinas de duraque, tem uma mécha de cabelos no queixo e pede-me a maçada de lhe arranjar um logar de professora em qualquer colégio da capital. E' preciso fazer pagar de algum modo esta importunação... Como você vê, a coitada está acima de qualquer suspeita; tanto mais que se chama Amalia e ainda por cima — Amaral! de A para Z ha a distancia de todo o alphabeto... E' uma simples brincadeira de rapazes. Todos os pretextos para rir devem ser aproveitados para higiene da alma... — Já não está aqui quem falou... — Nem eu abusaria da sua amizade... Tome uns cinco mil réis para o bond; é o que hoje lhe posso dar... veremos se amanhã lhe arranjo a cópia de uns autos... — Que isso não fique em promessa... — Em todo caso, silencio sobre o que se passou hein? — Perfeitamente... mesmo porque não ó elegante este novo sistema de ostentar vaidades amorosas... A cousa não ficaria bem a nenhum de nos dois... Lucrei ao menos uma lição de aparências, que me pôde também ser proveitosa, quando eu me decidir a sair da penumbra e do anonimato a que estes chapelinhos russos me prendem... é — Na realidade, você preciza de um chapéu novo... — De dois ! — Isso já é luxo. — A natureza não se dá também ao luxo de ter uns dias de chuva e outros de sol ? O feltro e* a palha foram inventados para as dissemilhanea§| e eu serei tudo quanto quizerem, menos um ho-' mem monótono... de um só aspeto ! E adeus... — Adeus. — Como a questão é para rir, quando quizer outra cartinha é só marcar a hora de a escrever, contanto que seja noutra caligrafia... I l 3 — Ora essa ! porque ? — Cá por cousas... Jorge revirou os dedos no ar e voltando as costas saiu. Compreendo... pensou Ludgero; o patife teme alguma intriga e receia comprometer-se... Precizo, para convencel-o de que isto é uma brincadeira, ditar pelo menos umas quatro ou cinco cartas de amor, com varias caligrafias... Amanhã levarei de casa uma carta de minha irmã e outra de tia Josephina... As garatujas desta são horríveis, mas um homem de aventuras não pôde ser amado só por mulheres da mais fina cultura... Eu lho farei crer que essa faz escrever as suas cartas pela criada de quarto, como as heroinas de Alexandre Dumas... Precizo levar esta historia com habilidade, até obrigar o Jorge a escrever outra carta da Z... Quando a Xaviera, com os seus ciúmes, vir esta carta da amiga, redobrará de amor por mim. As mulheres preferem sempre os homens que são amados por outras mulheres, . embora todas se assanhem com as rivalidades. Foi uma idéa esplendida., com este simples papel posso provar três cousas diferentes a três pessoas, fasendo crer á Xaviera que sou amado pela D. Zelia... ao marido da D. Zelia, caso houvesse por causa disso alguma trapalhada, que é a mulher que solicita o meu amor, que, impoluto e leal, tenho escrúpulos em ceder ás suas solicitações; e I l 4 ao marido da Xaviera que eu me correspondo com a Z. e que se visito a sua linda mulhersinha a horas em que ele não está em casa, é só para desabafar as minhas maguas e saber noticias da sua amiga. Enlacei assim em poucas linhas a vida de quatro corações, assegurando ao mesmo tempo a minha defeza e a tranqüilidade da Xaviera, que me convém conservar em paz e alegria. Ela supõe convencer-me que faz sacrifícios por mim... Como se eu lhe não soubesse a crônica... Tanto melhor, com uma assim é sempre menos perigoso! Dias depois, na mesma saleta encardida de escritório barato, Ludgero ditava ao Jorge duas cartas de amor em estilo diverso, tendo-o feito estudar a caligrafia delicada da irmã e as grossas garatujas de uma tia quasi cega. O rapaz, convencido do gracejo, entrou para dentro do assunto com alegria. Afinal, sempre a brincadeira pingava algumas notinhas de cinco e dez mil réis, fora uns cálices de Cognac e uns maços de cigarros com que o outro o obsequiava. 0 que era evidente é que o Ludgero se não contentava com o ter só dois chapéus, um para chuva e outro para os dias de sol; mas que dava já muito mais trabalho ao seu alfaiate e á lustradora das suas camisas de linho... O próprio penteado sofreu alguma alteração. O amor realizava a sua obra de transformação e polimento... I l 5 Observando-o, Jorge pensava comsigo : « Decididamente este Rio de Janeiro gosta dos homens catitas... » Na verdade, Ludgero começava a ter trabalho, causas cedidas pelo João Zacarias e por um outro advogado, primo da Madame Z., que se interessava nessa questão. Ah, certamente a D. Zelia era uma amiga preciosa, uma protetora nunca assaz louvada e cuja simpatia lhe convinha conservar, atravez dos tempos!

1/1
Menu

Fazer anotação