Capítulo XVIII A Silveirinha · Capítulo 18 de 20
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Capítulo XVIII

Um sapinho atolado na margem dv um brejo, passava a cida inconritnte t inerme, coaxando baixo e eitupidamente. Um dia, corta um lavrador n moita do hereaçal que lhe dará sombra, chega ate ele o clarão dos astros e o sapinho, deslumbrado, salta repentinamente para a areia fina e pôe*?, milagre! a cantar como um rouxinol para as estrelas palpitantes... Como se tivesse espalhado n noticia de que o Dr. Jordão estava ás portas da morte com umn inlêçào cadaverica, o advogado Zacarias aconselhou a mulher a ir oferecer á Silveirinha os seus prestimos de enfermeira: — Você sabe, o Jordão sempre foi meu camarada e a mulher é ainda tão nova e inexperiente... — Não creio que aceitem o meu oferecimento, mas vou ; ficarão assim ao menos .sabendo a nossa boa-vontade... — E' bom; apezar de que a Silveirinha parece que aproveitou o estado de fraqueza do marido para encher a casa de padres e de irmãs de caridade. Foi o que disseram na botica. Pobre Jordão... 23l ^ ^ w w ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ . — Esperemos que se salve. Ele deve ser forte, resistente. — Qual, o medico assistente está desanimado. Creio que é um caso perdido... Quando a Madame Z. entrou na casa da Silveirinha, a primeira pessoa que viu, fazendo as honras da sala, foi a Irmã Luiza, com a sua grande touca de religiosa e o habito escuro cingindo-lhe o corpo baixinho e magro. Em pé, ela circumvagava a vista por lodo o aposento, recebendo quem entrava, dando ordens a pessoas que vinham de dentro interrogal-a. Viera espontaneamente acudir á aflição daquele lar em refrega. Conhecia os sentimentos da Silveirinha; aproveitava o ensejo de a auxiliar. Tinha tomado conta de tudo, com a sua atividade assombrosa, pondo e dispondo das cousas sem mesmo interrogar ninguém. Vendo então Mme Z., com quem jamais falara em sua vida, veio logo ao seu encontro com solicitude carinhosa : — Entre, venha sentar-se... aqui... é precizo ter paciência e resignarmo-nos á vontade de Deus... — Mas, minha senhora, eu... — E' muito amiga da Guiomar! O pobre amor 2 3 2 V SILVEIRINHA está inconsolavel, mas o seu anjo da guarda tomna iluminado e dado forças ao seu bom coração. Se não puder salvar a vida do marido, resta-lhe a doce esperança de lhe salvar a alma... Guiomar está cumprindo uma grande obra, o nós todas devemos auxilial-a com as nossas orações... Tenhamos fé! Mas sente-se, sente-se; a senhora está pálida... mas como é linda, minha filha, e que expressão de bondade têm os seus olhos! Madame Z. cerrou instintivamente as palpebras, e ficou um momento em silencio desconcertador. A Irmã Luiza, tornou : — Está muito comovida... tem razão... quer tomar um pouco de água de flor? Eu mesmo vou arranjal-a... — Não! Vim oferecer a Madame Jordão os meus serviços e peço-lhe unicamente que lho transmita a minha vontade de lhe ser útil. Sou a senhora do Dr. João Zacarias. — Que bondade! muito agradecida... mas náo se incomode; o enfermo está bem acompanhado... Vê como a casa está cheia? — Talvez gente de mais... — Ah, os amigos nunca são de mais, minha filha... Como o brazileiro é carinhoso o prestativo !... na minha terra náo é assim. O povo holandèz é bom, mas muito egoísta... oh, muito egoísta. E como a chamassem do corredor, a religiosa, concluiu : — Sente-se. Com licença; precizam de mim lá dentro. E saiu trefega, com uma chama de triunfo no olhar inteligente. Madame Z. olhou á roda, a ver se via alguém a quem pudesse perguntar sobre o estado do doente, de um modo mais positivo. A Irmã Luiza mal a deixara falar. Entre algumas pessoas que não conhecia, viu num angulo oposto a condessa, muito entretida a conversar baixinho com a D. Clara e a irmã da Silveirinha; não querendo interromper a palestra, esperou uma ocasião, até que, dando casualmente com os olhos nela a condessa veio falar-lhe: — Que infelicidade, minha senhora! — Enorme... mas a senhora assusta-me. Ele está peor?! — Parece que sim... Quererá ir lá dentro ver a Guiomar ? — Se lhe posso ser útil... — Ela ficará muito grata á sua gentileza, mas suponho que está agora descansando... — E o doente ? — Ah, a esse não se pôde ver. A Irmã Luiza declarou não querer ninguém mais á sua cabeceira, além das pessoas da família e de uma outra Irmã de sua confiança, que veio do Rio propositadamente para o tratar. Sabe que ele amanhã vai ser operado? Parece que não haverá remédio se não lhe fazerem a amputação do braço... Dir-se-ia um castigo... — Castigo por que? indagou ingenuamente Madame Z. A condessa não respondeu á pergunta, contentando-se em afirmar : — Deus ha de ter pena da Guiomar... Ela está aflilissima por ter sido a causadora involuntária deste desastre... — Como assim ? — O marido, ao abraçal-a, picou-se com um alfinete que ela pregara no cinto. Resultou disso um pequeno arranhão em quo ele não reparou ao fazer a tal autópsia. Também não sei para que se meteu nisso. Deveria haver médicos especiais para esse gênero de trabalho. « Médicos de páu » pensou comsigo a Z. — Ou em ultimo caso, continuou a condessa, os que não quizessem deixar de praticar osse ato deveriam executal-o de luvas. Madame Z. sorriu; a condessa despediu-se. Ia para o ar livre, para outras idéas, nias mandaria mais tarde saber noticias... Madame Z. demorou-se ainda alguns minutos; depois saiu lambem, sentido uma grande pena pelo pobre Jordão, para quem tantas vezes ela tocara nos seus antigos serões musicais de Flamengo... Fora ele quem lhe despertara o gosto por a35 certos autores modernos, cujas dissonâncias aparentes a tinham indignado antes, e que depois de compreendidas ela tanto apreciava. Era um grande gozo intelectual que lhe ficava devendo para sempre e em que envolveria a sua memória... Começava a pensar nele como num desaparecido e essa impressão aumentou-lhe a tristeza. Afinal ele vivia ainda e de um momento para outro poderia salvar-se e ser feliz! Uma onda leve de vento fazia desprender das arvores algumas folhas que volteavam no ar e vinham cair no chão. Aquela silenciosa queda de folhas, nem todas ainda amarelecidas, como que lhe respondia negativamente á sua procurada esperança. A imagem da Morte aparecia-lhe ali com uma doçura infinita. Morrer sem agonia, e sem fazer chorar, que felicidade! Ah! se os homens pudessem morrer como as tolhas, suavemente... E ela enxugava os olhos, borbulhantes 'de lagrimas, quando chegou a casa. Alguém a esperava junto ás grades do jardim. Era um rapazinho cuja figura não lhe era estranha; ele tirou o chapéu e aproximou-se dela com ar tímido, muito constrangido. — Que deseja? — Falar-lhe, minha senhora. — A mim ? a36 — Sim... V. Ex. não se lembra de me ter visto já ?... — Sim... parece-me que sim... — Viu-me no escritório do Dr. Ludgero... — Ah, sim... Tenha a bondade de entrar. Ela passou na frente, empurrando o portão. A campainha vibrou com força e n criançada correu de dentro em alvoroço, gritando : — Mamai!... mamai chegou! — Não façam barulho... então?... e ela beijou os filhos. Depois, subindo dois degraus da varanda, onde havia cadeiras, fez sinal ao mocinho que se sentasse, ao que ele retòrquiu: — Eu precizo falar a V. Ex. em particular. Madame Z. voltou para ele um rosto admirado. E Jorge ainda a achou mais linda assim, com os seus grandes olhos negros, bem abertos numa expressão interrogativa. 0 vestido de linho rosado que trazia, realçavalhe a côr morena e assetinada das faces e do pescoço airoso. Vinha da sua pessoa um aromu brando de flor silvestre ao ar livre; uni aroma despretencioso e honesto. Ela mandou abrir a sala e esperou na varanda que a chamassem. Entretanto, descalçava as luvas de fio de Escossia mostrando as mãos delicadas e em que, por únicas jóias, havia a aliança do casamento e um anel de pérola. Toda ela era sóbria e distinta. E aquela tranqüilidade mais aumentava o embaraço do rapazinho, cujas mãos nervosas reviravam incessantemente as abas moles de um chapelinho de feltro, já encebado e muito russo. A moça pensava comsigo : — Naturalmente ele vem pedir-me que interceda para que o Dr. Ludgero lhe aumente o ordenado... ou que lhe arranje algum emprego melhor... Bom será que eu possa fazer alguma cousa... o coitado tem um ar tão modesto e uma roupinha tão pobre!... Quando se viram a sós na sala, Jorge ainda voltou para uma porta, aberta para o interior, um olhar apreensivo. Madame Z. tranquilizou-o : — Descanse, ninguém virá incomodar-nos, pôde falar á vontade... Ela tirou o chapéu, que poz sobre o sofá ao lado e ele observou quanto a sua fisionomia parecia assim ainda mais nobre e mais serena. — Minha senhora, o que tenho a comunicar-lhe é muito grave e muito delicado... e peço-lhe desde já que me perdoe se as minhas palavras lhe causarem alguma sorpresa triste... Evidentemente, ele trazia o seu discurso estudado; mas parecia agora perder a memória das palavras e embaraçar-se. Ela animou-o. — Fale. Não tenha receio. Jorge corou intensamente. — Hesitei muito se deveria vir ou não; mas l38 decidi-me pelo que estou fazendo. Agora porém já me sinto arrependido e duvidoso de ter escolhido o melhor caminho... — O assunto é assim tão extraordinário? Náo tenha pejo. Está diante de uma mulher que ó uiài cinco vezes e que não passa um dia sem pensar no futuro dos seus rapazes... Se eles hoje vivem fartos e felizes, acontecer-lhes-a o mesmo quando lhes faltarem os pais ou qualquer acidente mudar a posição de todos nós ? Estou habilitada a compreender todas as situações e serei muito feliz se puder de algum modo melhorar alguma, pela influencia da minha boa vontade. Jorge compreendeu onde ela queria chegar e sentiu-se comovido. — Não se trata de mim, minha senhora. Sou um pobre diabo que anda á mercê da vida, sem estimulo para o trabalho nem esperança de melhores dias... Não tenho família nem tenho dinheiro, e estas duas circumstancias desanimadoras cortaram-me as azas da ilusão, mal elas começavam a criar penas... — E' singular... O senhor é poeta? — Não, senhora; eu não sou nada, ou talvez seja um criminoso, querendo ser um homem bom. Agora mesmo, desejando praticar o bem, estarei praticando o mal? Será a minha atitude correta? A minha boa intenção teria escolhido a melhor maneira de se manifestar? Náo sei. Vivo sempre a3ç} em duvida, e é por isso que lhe peço antecipadamente perdão, de joelhos, pelo que lhe vou dizer... o E' doido! » pensou Madame Z., mas continuou a ouvir toda cheia de piedade o pobre rapaaelho, apezar de tudo tão simpático e inteligente. — Para eu ter coragem de chegar até onde precizo chegar, permite-me V- Ex. que lhe conte a minha historia? — Pois não... Tanto mais que não deve ser longa. 0 senhor é tão moço! — Mas tenho sofrido tanto!... Z. esboçou um gesto vago. Jorge começou : — Naci na mesma terrinha do Dr. Ludgero. Somente, eu comecei a fazer os meus estudos num colégio publico, quando ele já freqüentava o seu curso de direito em Pernambuco. Aos dez. anos, eu já não tinha pai nem mãi e era regularmente sovado por meu padrinho» que bebia como uma esponja e tinha o habito original de met obrigar a beber também de vez em quando um oopinho ou outro de Parati para lhe fazer companhia. Madame Z. extremeceu. Ele continuou : — Péssimo habito, minha senhora, esse de entorpecer o cérebro de uma criança pelo uso do álcool... Felizmente, meu padrinho era avaro e* não me dava a beber todos os dias. Mas quando não me dava Parati, dava-me pancada; ficava uma cousa pela outra; e um dia gritei tanto, qu& u4o um vizinho, atordoado, acudiu, remetendo-me dias depois para o Rio, recomendado a uma casa de comercio, onde estive dez mezes, até que a casa faliu. Rolei então do balcão em balcão, sempre mal sucedido. Estive duas vezes doente na Misericórdia, e uma preso, por ler defendido na rua um pequeno de jornais contra os safanões de um guarda civil... Precizo acrecontar que o vizinho generoso que me enviou para o Hio, como mercadoria de ultima espécie, em terceira classe e sem sapatos, era o pai do Sr. Dr. Ludgero. Grato a esse senhor, também pobre o carregado de família, escrevi-lhe sempre as minhas cartinhas, pbndo-o ao corrente da minha situação... Para ser completamente franco, como quero s

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