Capítulo XVI A Silveirinha · Capítulo 16 de 20
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Capítulo XVI

A mentira corre; a verdade anda a passo natural. A mentira chega depressa onde quer chegar, porque se mete sem escrúpulos por atalhos e caminhos escusos. A verdade chega ás vezes tarde onde se faz preciza, por ter vindo pela única estrada do seu conhecimento... Ainda não eram três horas e já a Xaviera e o marido se sentavam á mesa de uma leiteria bem em frente ao escritório do Dr. Ludgero. Juventino Teixeira, que sabia a mulher inimiga irredutível de laticínios, vendo-a saborear aos goles, lentamente, deleitosamente um coparrazio de leite, que só de o ver se sentia enjoado, não se pôde conter e exclamou : — Que mania é essa de tomar leite? Não lhe vá fazer mal... Ela explicava que lhe tinha dado uma fraqueza. Chegara a temer uma vertigem no momento de atravesseram ao sol a Avenida... — Pudera, se você não almoçou!... Pois nos outros dias comia bem! Antes fosse agora fazer um lunch, papar sana i a dwiches e tomar cerveja! Leite só para bezerros! Ela lançou ao marido um olhar aborrecido. — Você tem expressões! — Muito justas. Negue, se ó capaz, que o leite das vacas é feito para os bezerros! Coitaditos dos animais. Isso é um roubo que vocês lhes fazem! Náo fora sem certa dificuldade que a Xaviera tinha alcançado para aquela hora a companhia do marido. Fingira para isso medo de ir sozinha ao seu dentista. Juventino admirou-se daquela pusilanimidade, tão acostumado estava a ver a mulher suportar com galhardia as operações dentárias a que se submetia freqüentemente. A uma sua observação nesse sentido, ela explicou : — Quiz que você me acompanhasse, porque posso ter um desmaio e não me apraz a idéa de que seja o dentista quem me desamarre o coleto... — Mas você nunca teve desmaios! — Mas posso ler hoje. Também minha mái nunca tinha tido sincopes cardíacas e aos cincoenta anos teve uma que a matou... A tão judiciosas ponderações, Juventino Teixeira não teve remédio senão ceder, embora lhe custasse deixar o seu escritório para andar encartolado pelas ruas ao lado da esposa. Sentada na leitaria, bem em face do escritório do Dr. Ludgero, a Xaviera prolongava a libaçáo do leite detestado, dando tempo á chegada da 2 l 3 dissimulada Madame Z. Entretanto, começava a sentir-se enjoada por aquela bebida pálida e gordurosa com que fingia deliciar-se. Do lugar em que estava, podia, sem que o marido o percebesse, acompanhar o movimento do tempo no relógio do estabelecimento. Tinham entrado para aquela maçada havia mais de vinte minutos e ainda a Z. não aparecera! Começava a arrepender-se de ter feito a vontade ao Ludgero, quando o viu chegar á sacada, enfiando um olhar comprido pelo interior da leiteria onde o Juventino, com as mãos gordas pousadas no castão da bengala, observava a mulher com um grande espanto : — E o leite vai indo todo! dizia ele, arregalando os olhos. • Xaviera repeliu o copo já vazio e tornou a olhar furtivamente para Ludgero, que lhe fez do alto um rápido sinal negativo. Juventino não viu nada, porque se dava ao doce entretenimento de pagar a conta da mulher, mas o caixeiro da leiteria sorriu. Xaviera desesperou-se. Ludgero não se estaria rindo da sua passividade e tola obediência? Como lhe parecia agora ridícula aquela inútil ingestão de leite e o sacrifício de se mostrar numa leiteria de segunda ordem, onde nunca imaginara poder pôr os pés?! Querendo sopitar a raiva, subiu-lhe o sangue ás faces e os olhos arderamlhe, lacrimej antes. Estava certa de que o Ludgero 2 l 4 quizera experimental-a, e nada mais. Z. estaria certamente a essa hora cozendo á maquina na sua salinha de costura em Petropolis, no meio do reboliço dos filhos pequenos e barulhentos. Xaviera apressou-se em sair. O marido seguiua, espantado. — Parece que o leite lhe fez mal... hein? — E tanto que nem vou ao dentista. — Ora essa! Eu bem dizia... — Vou para casa. E desandou num passo febril e nervoso a caminho do seu bond. — Se você se sente mal será prudente entrar numa farmácia e tomar algumas golas de elixir Paregorico... — Não. — Quem sabe se será bom desapertar o colete. Vá ao quarto de toilette do Palais Royal... Veju lá... — Náo. Chame antes um taxi... — De acordo. Nestas conjunturas o melhor é sempre a casa! — Agora não precizo da sua companhia. Pode ir para a fabrica. Eu volto só. Juventino não aceitou o alvitre e partiu com a mulher para o sen palacete. '} A pobre empalidecia agora; tinha as mãos frias, os lábios cercados por um friso violaceo. Pelo espirito do marido perpassou a idéa, ao vel-a assim, da morte da sogra, evocada pouco Ol5 antes pela filha, como um presagio! E, curvandose para o chau/feur, instigou-o a andar depressa, fazer voar o automóvel pelas ruas tumultuosas... — Assim que chegarmos mandarei chamar o medico... — Para quê?! Eu não tenho nada. Só quero socego; o meu roupão, o meu quarto, e ninguém ao pé de mim. Você bem sabe que eu quando tenho enxaqueca, prefire a tudo o estar só... e o que eu tenho não é outra cousa 1 uma enxaqueca furiosa, repentina, e nada mais... — Mas você hoje, mesmo antes de sair já estava nervosa... depois aquela mania do leite. Quando chegaram a casa a Xaviera atirou-se para o seu quarto, gritando pela criada que a viesse despir, depressa, depressa, que se queria deitar! Mas não se deitou. Enfiou um peignoir e agitouse do quarto para a sala, falando, ralhando, atordoando os outros e atordoando-se a si própria. Não era mulher de quem um homem como Ludgero zombasse e a quem dirigisre como a qualquer antomato. Vacilava entre o ir a Petropolis e lealmente contar tudo á Z. ou limitar-se a despedir o advogado para sempre da sua intimidade... E tun mundo de cousas se erguia no seu passado de curtos mezes, cheios de mistérios e de interrogações. Quem lhe diria se o Ludgero, assim como Uie falava da Z., não falaria dela á Z.? A qual das duas ele amaria mais ou respeitaria menos? 2 l 6 Não fizera ela uma loucura irremediável, atraindo sem amor aquele homem n si, só pela vaidade e coquetismo doentio, de o tirar do caminho da sua mais velha e terna amiga? E todo esse manejo de mulher mundana, não teria sido percebido e seguido com asco pela outra? Mas se a outra era realmente culpada e decia a mendigar o amor de um indiferente, por que se dava ela agora àquele sofrimento? Na sala, ao lado, o marido transmitia ordens pelo telefone para o seu escritório. Náo tornaria a sair nessa tarde, para ficar acompanhando a mulher, dizia ele ao sócio, contando-lhe que ela fizera a imprudência de tomar um copo de leite gelado na cidade, com todo aquele calor, e tinha voltado muito aflita para casa... Xaviera bateu zangada com o pé no chão. Ora que tolice, estar a dizer aquelas cousas ao idiota do sócio! Que se importava ele? Juventino desculpou-se, afirmou que o seu sócio era um amigo e que se interessava por tudo que lhe dissesse respeito. Mas que se não irritasse; ele ia ler os jornais para o pavimento inferior... Xaviera respirou com força e vendo-se só dirigiu-se á sua secretária Luiz XV para escrever uma carta de despedida ao Ludgero. Ao sentar-se, viu sobre a pasta uma carta ainda fechada da filha mais velha. Rasgou freneticamente o envelope e leu : « Mama (particular) « Sonhei uma noite que um anjo muito resplandecente se chegou para junto de mim e disse: «— Por amor da tua mãi, deveras cortar os teus cabelos e cobrir a tua cabeça com um veu preto; por amor de tua mãi, deveras mortificar a tua carne e isolar a tua vida da sociedade mundana; por amor da tua mãi, deveras entrar para um convento, B E, como é pela felicidade da sua vida eterna, prometo desde já seguir, acabado o meu curso, a vida das religiosas. Não diga nada a meu pai, e reze por mim. Sua filha MARILIA. » Que queria dizer aquilo ? Era evidente que a filha pensava em sacrificarse para desconto das culpas maternas... Mas como poderia ela ter sabido dos seus extravios, se desde criança a afastara de si? Que espirito mau teria ido segredar-lhe ao ouvido casto, a historia secreta dos seus amores e das suas aventuras? Oh! não consentiria nunca que a sua filha se fizesse freira, a expiação por aquele modo seria tremenda e injusta. De resto, haveria escândalo, 2 l 8 todo mundo comentaria o caso extrauho daquela menina romântica e da infeliz mãi dosnaturada... Como convencer a filha da sua inocência o fnzel-a abandonar a idéa absurda de se enterrar em vida na inércia do claustro? Desesperada, exausta, a Xaviera atirou-se do braços sobre a cama e desatou a chorar oonvulsi vãmente.

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