Capítulo XI
No chá das cinco em casa da condessa, que tem por único conviva Roberto Flores. Pela larga janela aberta da sala entram o aroma do jardim e as claridades amortecidas de um crepúsculo pálido. — Vai amanhã á casa da Korsakoff, condessa? — Deus me livre! Depois daquela noite do maxixe, as recepções dessa gente tornaram-se fastidiosas. Ha piano de mais. Prefiro a casa do embaixador americano, onde a Goldenberg dança o kake-walk... — Tem todas as condições requeridas para o êxito! Com quem dançará ela? — Isso#ainda é segredo; só.lhe posso afiançar que não é comigo... — Pois é pena. — Quê, seu maroto; você queria gozar o espelaculo de me vêr em posições grotescas no meio de uma sala ? Roberto Flores riu-se. A condessa continuou : — Não! eu prefiro gozar da minha cadeira os cancans das outras... IÔ2 V SILVEIRINHA — E posso dar testemunho de que é uma espetadora admirável. Não lhe escapa nada. — E o que lhe digo é que tenho sempre parceiros na galeria... E um dos mais animados ó você. — 0 Gastão Soares é melhor... — Qual! o Gastão é um imbecil. Pois ele náo deixou escapulir a Madame Z. para o tal advogadozinho Ludgero Dias, um tipo sem valor de espécie alguma? — Realmente, o João Zacarias não so deve sentir supremamente lisongeado pela escolha da mulher. Fala-se nisso por aí como se eles fossem uns grandes personagens ! Não sei como náo apareceram ainda alusões nos jornais á paixão da bela Madame Z. Quanto ao Gastão, esse tem mais espirito... — Qual espirito! o que ele quer é uma noiva rica... — E acha que isso seja uma prova de máu gosto? Todo o diplomata preciza casar bem, quando não tenha ele próprio fortuna sua. — Acho que uma cousa não impede a outra, e que ele poderia escolher noiva e obstar ao mesmo tempo que a Madame Z. se desse ao desfrute com um homem tão desengraçado... Eu só aprecio estas infidelidades quando elas são feitas com elegância. — Dizem que o Zacarias se divorcia agora. l 6 3 — Que estupidez... — E vai para a Europa com os filhos. — Nisso tem ele gosto. E a mulher? — A mulher fica ainda por aí algum tempo, até que depois se vá juntar com ele na Europa. — Em Paris. Na Magdalena! e o outro? — Que outro?! — 0 tal Ludgero. — Essa casar-se-á com uma mocinha da cidade nova e tudo acabará em paz. — Roberto, você nunca pensou em escrever um romance? — Para que? No Brazil, não vale a pena. Não ha publico, não ha críticos, não ha nada. Tudo uma súcia de ignorantes. Eu ainda admiro a paciência de alguns dos nossos literatos em escrever livros... — Coitados, eles não sabem fazer outra cousa... — Ora aí está a razão! — A propósito; a Baltazar Luz vai publicar um volume das suas memórias... — Já?! — Pensa você talvez que ela é muito criança? — Vinte e seis... vinte e sete anos... — Upa! trinta e quatro feitos... — Mas que terá a contai^nos essa senhora da sua vida, não me dirá? — Vai narrar casos de príncipes indianos atravessando com ela carnavais de Nice e mandandolf>4 lhe de Bombaim frascos de essências raras... Do que ha de positivo na sua vida é que nada dirá... Mesmo porque o que ha de positivo na vida da Baltazar é que nasceu e se casou com aquele primor de marido, que, apezar de estúpido, tem galgado excelentes posições. De resto, todo o livro de memórias faz-me lembrar os espelhos em que certas pessoas se miram só depois de se cobrirem de pinturas e de trajes elegantes. — Ora aí está uma observação bem feita... — Para que saiba... — Mas porque razão pensou a Baltazar em escrever um livro? Ela é estúpida, — Oh, Flores, isso não se diz! — Diz-se. Ela é pretenciosa e não tem historia. — Como não? Tem-n-a e tem-n-as contado ao marido excelentes. Pelo menos ele acredita nelas como ninguém. A's vezes até chora de piedade por certos infortúnios de cousas amorosas... Agora está um engenheiro eletricista a fazer-lhe a corte; até já lhe disse num arrebatamento : — O seu olhar tem mais força que sessenta mil cavalos! Foi ela quem me contou isso, pondo-o a ridículo. — Quer dizer que não faz caso dele... — Não. Parece que prefere o Max... — Já ouvi dizer. Naturalmente vai ser o editor do livro. — Não. Esse papel generoso compete ao marido. l65 — Mas a sua amiga D. Clara fica posta de lado? Sempre considerei o Max como um homem fiel. — Homem fiel! Onde é que você viu disso ? — Dizem que no Japão... — Ah, bem, no Japão! — Dizem que no Japão... — Não me fale desse paiz detestável. Temos com que nos entreter aqui. Sabe que é amanhã que a comissão de senhoras vai oferecer os brindes ao padre Pierre? — Ouvi dizer hoje no trem... — Olhe que a gente nunca lhe diz nada que você não saiba! — Mas que tem isso de interessante? — Tem de interessante que o Dr. Jordão mandou riscar o nome da mulher da lista; que, sabendo dessa grosseria, o Pierre pediu á commissão que não publicasse os outros nomes nos jornais, conforme a combinação; que a Magdalena, encontrando-se depois disso com a Silveirinha na igreja, lhe disse com aquele atrevimento que lhe conhecemos, meia dúzia de palavras duras; que a Silveirinha arremessou-se furiosamente para ela, retribuindo-lhe em unhadas o que ouvira em desaforos; e que o padre Pierre para acalmar ambas, deu-lhes a sua benção e a beber água de flor de laranjeira... — Que belo escândalo! E a senhora sabia isso e estava aí muito caladinha... E depois? l 6 6 — Depois a Silveirinha foi transportada do carro para a sua residência e a Magdalena parece que teve um ataque histérico; mas tudo isso sem barulho, dentro da sacristia. — Quem viu? — Ninguém. — Como se sabe, então ? — Ora que pergunta! Essas cousas sabem-se sempre, ainda que ninguém as veja... Talvei fossem elas mesmo que dissessem. Toda a gente tem os seus confidentes. Aquela espécie de flirl religioso da Silveirinha não podia acabar bem... — Flirt religioso tem a sua graça... E o que faz o Pierre no meio dessa confusão? — Eu já lhe disse : — abençoou e apaziguou. — E' um sábio. — Goza antes da fama de santo. — Um santo que recebe bronzes artísticos e relógios de ouro de alto valor... — Lá isso, ele não os pediu... — Mas talvez tivesse insinuado... — Não! não vá tão longe. Em todo caso, ha de se lembrar que aconselhei mais de uma vez a oferecerem outro mimo ao padre Gil. Mas como ninguém é profeta na sua terra, preferiram o Pierre, só porque é francêz. Nós temos fanatismo pelos francezes ! E por seu lado os francezes não fazem caso de nós. Antes nos ridicularisam a propósito de tudo, e sem propósito também. — Nós não temos fanatismo pelos francezes só; temos também pelos padres... — E' diferente. Por um lado estas quisilias agora dão-me prazer. E' bem feito. Hão de se capacitar da superioridade do padre Gil. Olhe, uma das Guimarães já foi hontem proibida pelo esgrouviado do marido de ir incorporada á comissão levar o presente ao seu idolo. — E a senhora vai ? — Por força; quero vêr. — Sempre curiosa... — Sempre. Não me basta viver. Quero ver viver os outros. Em todo caso, confesso, desgostoume agora este caso da Silveirinha... — Eu gostaria de olhar para a cara do Dr. Jordão depois de tudo; palavra. — Ficou furioso. — Pudera não! — Houve cenas medonhas. Dizem que chegou n arrastar a mulher pelos cabelos. — Oh! — E a bater-lhe. Tanto a maltratou que a pobre da criada, coitada, correu a chamar o Silveira para acudir á filha. — Não é sem razão que eu implico com aquele sujeito... , — Realmente, a Silveirinha estava maluca quando o escolheu. Antes tivesse consentido em se casar com você, que a requestou... l 6 8 — Águas passadas... — Ainda movem o moinho do seu despeito. — Que diacho, a conversa ia tão bem, e a senhora voltou-a agora para um lado tão antipático... — E' a primeira pessoa a que ouço chamar assim ao passado. Decididamente a você náo aprouveria escrever um livro de memórias, como á Baltazar.. — Talvez... Sempre haveria capítulos agradáveis... Mas diga-me antes o fim da historia. — Que historia ? — Da Silveirinha! Ella voltou para a casa do pai? — Não. Para salvar as aparências continua com o marido, com quem apenas troca palavras quando estão visitas. Na intimidade nem sequer olham um para o outro. Não se podia esperar nada bom daquele casamento. E vejam como são as cousas : exatamente agora é que eu ia começando a simpatisar com o Jordão. Ouvi-lhe outro dia umas palavras que me comoveram... Pois, foi tão grande o desgosto em casa que por amor disso a irmã da Silveirinha vai entrar para um convento! — Cá temos nós outra vez o convento como solução das crises de familia. Senhor! não haver quem queime esses conventos ! — Roberto, não se dizem essas coisas, nem brincando. — Já outro dia constou que a filha da Xaviera ia-se fazer freira para redimir os pecados da mãi: esta vai mais longe, e faz-se religiosa por causa de um arrufo do cunhado! Mas se isto continua, minha amiga, dentro em pouco a sociedade brazileira será uma comunidade de sorores bem pouco interessante... — Hão de vir sempre extrangeiras para os cafés-concertos, descanse... — Valha-nos isso, e que se salve a pátria! — Não diga barbaridades e assine ao menos cinco mil reis nesta lista para um presente ao padre Gil. Por patriotismo, ao menos... — Quê, também! ? — Pudera não. Eu não lhe tinha dito? Haveria do ter graça que o francêz recebesse tanta coisa e o brazileiro nada. Ao menos por este não se divorciará ninguém. Vá, vá, assine... — Pronto... obedeço. — Cincoenta mil reis? Oh là, là! quel beau geste... Obrigada.