Capítulo V A Silveirinha · Capítulo 5 de 20
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Capítulo V

As artes da Xaviera e as de Jorge de Menezes. Terça-feira, ás duas horas, Ludgero batia timidamente á porta do fabricante de conservas Juventino Teixeira, depois de ter dado uma sacudidela rápida com o lenço nas botas empoeiradas. Arrependeu-se logo daquele movimento, temendo estar sendo observado por alguém, através das venezianas. Olhou á roda. O aspeto da casa encantou-o. Dentro de um jardim á ingleza, a residência da Xaviera linha em cada angulo dous grandes tufos de manacás e de palmeiras, abrindo-se no centro por meia dúzia de largos degraus de mármore, que alvejavam no meio de relvas irrepreensíveis. Ludgero gostou. Vinha cançado de pobrezas e pelintragens provincianas. Desejava ser um dia dono de um palacete assim no Rio de Janeiro, e ter automóvel bem posto e ser citado nos jornais, nas rodas da aristocracia. Veio abrir-lhe a porta uma criada á européa, de vestido preto e avental branco. Logo que ele lhe entregou o cartão de visita, ela fez-lhe sinal que entrasse. Devia estar prevenida. Ludgero seguiu-a através um vestibulo com vitrais a cores e cadeiras altas, de couro lavrado, no velho estilo espanhol. Entrou depois numa pequena sala alcatifada de verde-ervilha, por um rico Aubusson, sobre que se espalhavam moles divans e macias almofadas. Nas paredes, algumas aquarelas e livros de gravuras espalhados sobre uma mesa de laça verde-clara e de cristal. — Que ele tivesse a bondade de esperar ali a senhora... Ludgero vestira o seu melhor terno, mas em face daquele interior luxuoso, observou-se com desconfiança num espelho esguio que enfeitava o vão entre duas janelas. Os tons verdes da sala como que lhe enegreciam ainda mais o moreno bronzeado do rosto; o cabelo todo puxado para trás e muito liso, dava-lhe um aspeto de roceiro ao domingo, e o colarinho muito alto não faria, em parte nenhuma do mundo, as glorias de uma engomadeira. E tudo isso era irremediável! Vendo-se tão exquisito ao espelho, teve medo do ridículo. Reparou para as unhas e achou-as lividas e sem esmalte. Também que idéa de fazerem uma sala verde, num paíz de morenos! Se fosse para falar á sua boa amiga Z. pouco lhe importaria a sua aparência. A meiga senhora era tão tolerante e lão simples! mas esta infundia-lhe uma grande impressão de susto a que se mesclava o desejo de agradar, de parecer bem. Começava a arrependerse de ter aceitado aquela entrevista; presentia cousas terríveis; a sua alma estava como a de um animal ante um perigo desconhecido. Ia ageilar o nó da gravata, quando viu arrepanhar-se o reposteiro e aparecer a Xaviera, toda de branco com duas rosas amarelas afogadas no peito. A brancura do vestido rejuvenescia-a. Veio com ela um perfume sutil de essência fina. Ele gaguejou meia dúzia de palavras, com ar acanhado, sentindo-se estúpido. Ela interrompeu-o : — Quem tem de- pedir desculpas sou eu. Imagine : logo hoje meu pai faltou! E' a primeira vez que ele deixa de almoçar comigo numa terçafeira... a primeira vez! — Não faz mal... — O senhor é muito amável; mas afinal tem seus afazeres, e não veio a minha casa a esta hora para me visitar, mas para ter uma conferência com uma pessoa bem diferente de mim... bem diferente! Ela sorriu e ele não soube o que responder. Depois de um arrepiosinho, indagou : — O Sr. seu marido está bom ?! — Oh, a esse não ha mal que lhe chegue! respondeu ela rindo com franqueza. — Realmente ele parece gozar de muito boa saúde; é gordo... — E'... Ela tornou a rir, mostrando uns dentes fortes e claros. Ao encanto daquele riso, Ludgero ficou ainda mais atrapalhado. Ela olhava agora para ele fixamente, poderosamente. Ele sentia-se redobrar de pezo, afundar-se no divan. — O Rio agrada-lhe? — Muitíssimo! — Apezar do calor? Hoje está tão quente ! — Mesmo assim. — Eu também adoro o Rio, mesmo no verão... — E' uma bela cidade. — E'... mas em todo caso... E ela sorriu com intenção. — Em todo caso... o quê, minha senhora ? — Nada... ia dizer uma tolice... — Não se calunie... diga sempre. — Vá lá: em todo caso, o senhor preferiria neste momento estar em Petropolis; não? — Não sei porquê! — Oh, lá tem comparação! Aquele perfume das alamedas de Petropolis com a poeira e o estridor destas nossas ruas... Depois, os amigos... — Ah, os amigos sim... Pela maneira por que a Xaviera olhou para Ludgero nesse instante, ele percebeu estar em 8o frente de uma criatura bem feminina e bem perigosa. Teve prazer com isso. Ela continuou : — Ainda não tive ocasião de falar a meu pai a seu respeito. Esperava fazel-o hoje, durante o almoço, prevenindo-o, do melhor modo, da sua apresentação... — Ficará para outra vez. — Sim. Não ha outro remédio. Em lodo caso, para o senhor não perder completamente o seu tempo... — Oh, minha senhora! — Apresental-o-ei hoje a uma das minhas amigas, que é infalível cá em casa ás terças-feiras e é pessoa de grande influencia na sociedade. Não direi que ela se compare com a Z. por exemplo, mas é muito distinta. Adorável, a Z, não acha? Ele enguliu em seco antes de responder. Xaviera estava linda, com os seus grandes olhos erguidos para ele numa indagação maliciosa e ao mesmo tempo séria. — Pois não. — E é muito sua amiga! — Faz-me esse favor. — Favor nenhum. Tem até nisso muito prazer., segundo penso. — D. Zelia é muito generosa... — E'... ela já me tinha falado a seu respeito 8 | por varias vezes. E saiba que a insistência em elogial-o era tal que cheguei a ter ciúmes... — Sim?! — Deveras. Sabe que eu sou amiga da Z. ha muitos anos? — V. Ex. não pode temer rivalidades. — Sei lá ! Vejo a Z. tão absorvida agora por pensamentos que eu desconheço... O que me vale ó que eu tenho o dom de adivinhar... Ela nunca lhe falou em mim ? — Muitas vezes, e sempre com os maiores elogios... — Dess'arte, o senhor deve ler tido uma certa decepção ao conhecer-me. Como os olhos dela consentissem, ele elogiou-lhe a beleza e a graça. Xaviera sorriu e acrecentou : — Em todo o caso a Z. é mais atraente... — Não diga isso... D. Zelia é muito distinta, mas é de um gênero de beleza impassível... e... — Acha?! — Acho. De relance Ludgero percebera a verdade. Esta voluptuosa criatura julgava-o apaixonado pela amiga de tantos anos e queria disputar-lhe a preferencia. Ele não seria tão tolo que se esquivasse a um jogo tão interessante. Foi-se deixando interrogar e respondeu a tudo. De resto a Xaviera enleava-o com o seu sorriso vermelho e o seu olhar quebrado, cheio de promessas... — Gosta de pintura ? — Muito... — Então repare para este quadrinho. Dizem os entendidos que tem muito valor... — Parece-me muito bom... — A Z . tem por ele uma grande paixão. Afinal, creio que não é só pelo quadro que ela experimenta esse sentimento... Estas ultimas palavras ela disse-as baixo, como para si. Ele sorriu indiscretamente e mordeu logo o beiço, como que arrependido. Começava o seu jogo. — Quando irá vel-a a Petropolis? — Não sei... talvez domingo... — Vai todas as semanas? — Quasi todas... Mentia. Ele, por economia, não se dava ao luxo de ir a Petropolis senão raramente. — Ah... Z., com aqueles modos de indiferente sempre foi feliz... — Sim... O marido parece amal-a muito... — Não é só o marido... E depois de ter sorrido, ela continuou : — E de flores, gosta? — Apaixonadamente... e olhou com atrevimento para as duas rosas amarelas do peito de Xaviera. — A senhora ainda deve ser mais feliz! — Porquê?! — Porque é mais formosa! ^^^^^r^n^r^^^* — Não diga isso!... — E muito mais moça do que D. Zelia... não é? — Talvez... Realmente Z. tem envelhecida nestes últimos mezes. Por causa dos filhos. Teve tantos! — Cinco... — Fora dous ou três que lhe morreram... — Não sabia. — Ah, ela não gosta, que se fale nisso... Não sei porquê! eu tenho duas... Mas que pena meu pai não ter vindo hoje! Talvez fosse por causa do calor. — Não lamente isso por mim... — Virá noutra ocasião? — Quando determinar.... Na outra terça feira? — Espere... talvez não seja precizo esperar tanto... Se viesse... no domingo? Ludgero pensou: — Bem; ela quer furtar-me á visita da amiga — e não respondeu logo. — Ah, é verdade, no domingo o senhor tem de ir a Petropolis! — Por esse motivo... não... eu adiarei essa visita... Um relâmpago iluminou o rosto pálido da Xaviera. — Então venha no domingo, ás três horas da tarde. Escreverei a meu pai para que não falte. Xaviera acabou a conversa com os olhos nos olhos de Ludgero e desfolhando nervosamente com as mãos impacientes as suas já amolecidas e quentes rosas amarelas. Houve um instante em que se calaram e ele aproximou-se, como atraído por uma força invencível; ela então afastou-se e foi tocar a campainha, para que trouxessem á sala um cálice de licor. Depois de o ter servido, e despedido a criada, ela aconselhou : — Não conte á Z. que esteve em minha casa... — Por quê? — Porque... sabe que nós, as mulheres,somos muito complicadas; e faço todo o empenho em não perturbar a paz de espirito da minha amiga... — Não sei em que a poderia perturbar este acontecimento... — Ora não sabe! e a Xaviera riu-se. — Não sei! — Bom, não falemos mais nisso. Em todo caso prometa-me. — Pois sim. — Obrigada. — Não ha de que... — Ha. Eu prezo muito a amizade da Z.! — E eu também... — Percebe-se... Bem! agora adeus. Vá-se embora. E o modo por que a Xaviera disse — vá-se embora, era como se suplicasse : — Fique! Ele procurou o chapéu vagarosamente. Depois, deram-se as mãos para o cumprimento e as mãos quedaram-se um momento unidas, as dele geladas, as dela quentes e tremulas. — Então só no domingo?! perguntou Ludgero, com afoiteza. — Estou-me lembrando agora que tenho amanhã uma prova de vestido na rua do Ouvidor... Se meu pai vier ver-me esta noite, eu combinarei que ele me acompanhe e poderei apresental-o na rua... — Quando? quando?! — A's quatro. Espere-me ás quatro no Castelões, da Avenida... Mas se meu pai não vier... ou se eu passar desacompanhada, nem me comprimenle sequer... E a um gesto dele, concluiu : — Sabe, este Rio de Janeiro é uma terra de tanta maledicencia... — Tem razão... — Ainda bem que o senhor concorda comigo! Adeus! alé amanhã, ás quatro horas. Ele saiu tonto. Não poderia nunca ter imaginado vitoria tão fácil nem que tanto o impressionasse. Adivinhava por instinto que tinha entrado nessa cena de franca sedução o desejo da Xaviera de suplantar a amiga. Ela não toleraria naturalmente que qualquer homem que a visse ao lado da Z., não a preferisse á Z... Devia ser isso. E ele seria tão tolo que se não prevalecesse da ocasião? Ao mesmo tempo, o seu orgulho de homem e ainda mais a sua vaidade protestavam: — Não! Xaviera fora ferida por uma dessas paixões súbitas, que se desvendam ao nacer. Nele, sabia-o bem, havia uma certa força magnética, que atraia as mulheres. Não supozera que a Z. o amasse, mas via agora pelas meias confissões e indiretas da amiga que também ela morria por ele. Talvez tivessem trocado alguma confidencia... Na verdade, á Z. ele fizera desde o principio uma corte inteligente e tenaz, fechada todavia num circulo do mais comovedor respeito. Via-a muito serena e muito altiva, para tel-a por amante, mas queria captar-lhe a amizade amorosa, para se sentir bafejado na sua vida de ambicioso pelo seu carinho eficaz e a sua proteção... Viera do seu Estado já muito instruído pelos exemplos dos romances modernos, para saber como abrir caminho na multidão .compacta dos indiferentes da Capital. O segredo estaria todo em saber fazer-se querido e protegido de uma ou duas mulheres de prestigio na sociedade. Fazer-se amado pelas mulheres é triunfar dos homens. A Z. fora a primeira senhora elegante a quem tinha sido apresentado, e em circumstancias que logo estabeleceram certa intimidade entre ambos. Apezar de vel-a séria e socegada, ele ensaiou-se logo, demonstrando-lhe por todos os modos uma atenção especial, muito delicada e carinhosa. Essas cousas comovem. Por mais fria e severa que fosse a mulher do seu amigo Zacarias, acabaria insensivelmente por corresponder ao seu afeto, e ás homenagens discretas e constantes do seu sentimento. Nunca lhe tinha passado pela cabeça fazer a corte á Madame Z., mas tratara desde o principio de conquistar a sua amizade e de explorar a meiguice do seu coração a favor dos seus interesses. Tinha tato; corteja-la seria ofendel-a; preferiu inspirar-lhe uma afeição fraternal, quasi sempre mais fértil em benefícios. E julgava ter conseguido as suas intenções. Agora, as cousas complicavam-se; e ele não sentia com isso nenhum desprazer. O que precizava era aproveitar com habilidade as circumstancias da ocasião. Conservando a amizade da Z. que tão grande influencia tinha no seu destino, nada o impedia de amar a Xaviera, de um modo menos platônico. Renderia assim o seu preito ás ultimas letras do alphabeto e teria em vez de uma, duas forças a impelil-o para um futuro brilhante, no fundo do qual rutilava o dote de uma noiva educada e milionária... Nada para conduzir o homem a uma mulher, como outra mulher... Foi pensando nisso que ele entrou no seu pequeno escritório da rua do Hospício com o rosto iluminado, como se tivesse acabado de tirar a sorte grande. A-SILVEIRINHA Esperava-o em cima na saleta um rapazinho baixo e magro, de fato surrado, todo derreado no sofázinho austríaco, cuspinhando a miude. Era um conterrâneo de Ludgero, que, por desempregado ia para ali passar todos os dias algumas horas e oferecer-se para cópias. Bebia, e a sua mocidade começava a murchar por essa razão, mesmo antes de completamente desabrochada. — Já estás aí?! — Ha muito tempo... — E' ter paciência! — E' ter necessidade. Não tenho dinheiro. — Nem eu. — Pois sim! — E' o que te digo. Toma um cigarrro. Veio alguém ? — Não. Só eu tive essa coragem... — Que papel é esse que tens aí íóra do bolso? — Ah... quer ver?... é um trabalhinho cá do Degas... um diploma de imbecilidade conferido ali ao comendador da esquina, que se negou a fiar-me um cálice de wisky... — Continuas então a beber paraty? — Para mim. Para mim é que eu bebo. Os outros que se arrangem... Olhe : E o rapazinho desdobrou uma larga folha de papel com vários dizeres em letras de diferentes estilos. > — E's um caligrafo de força! — Olaré! E depois, uma habilidade muito especial para imitar letras. No colégio eu fazia os exercícios dos colegas por qualquer tostão e o professor não percebia... — O professor era um burro. Imita a minha letra, se és capaz... O rapazinho tomou de uma pena e nas mesmas costas do seu diploma escreveu uma frase na caligrafia do Ludgero. — E's perigoso... — Nunca exerci esta habilidade em prejuízo de ninguém; pôde crel-o... — Simplório... — Como? — Nada. — Tens igual facilidade para imitar letra de mulher? — Até a de uma criança recemnacida! — Bom... — Por quê é que o senhor me olha assim? — Estou pensando... — Em dar-me algum serviço? — Exatamente... — Agora? Já?! — Não. Depois. Mais tarde. — Que é? — Não posso dizer por emquanto. Foi cá uma idéa que me passou pelo espirito... Ludgero começou a revolver uma gaveta, como á procura de qualquer objeto. Passado algum tempo perguntou : — Gostas muito de escrever? — Tanto que só para pretexto de ter a pena nos dedos acrecentei o meu nome fidalgamente! Quando assino goso ao menos o prazer de aparentar sangue azul e prolongar o meu exercício de caligrafia... — Que tolice... — O senhor já leu o meu nome todo? — Nào. Pôde ser que sim. Não sei. — E' assim : Jorge de Menezes Saboia Grilo de Montalvão Rolim de Almeida. — Realmente! — Assusta. — Com certeza. — Todos pensam que sou um príncipe que venho desterrado. — E não te dão emprego. — E' isso... No dia seguinte, Ludgero sentou-se ás quatro horas no terraço do Castelões e esperou. E eram já quasi cinco, quando a Xaviera apareceu, sozinha, dentro de uma toilette escura e muito simples. Olharam-se e nem um músculo das faces dela se contrahiu. Sabia dissimular. Ninguém poderia supor que uma mulher assim impassível, quasi austera, no seu modo de aparecer em puA SILVEiniNHA blico, fosse a mesma que ainda na véspera, no interior discreto da sua casa, a portas íechadas, tanto tivesse abusado dos seus recursos de tentação. Ludgero levantou-se estonteado e andou pelas ruas sem destino, absorvido na sua felicidade. No domingo, Xaviera, na certeza de o ter feito perder o trem de Petropolis, escreveu-lhe um bilhete, pedindo-lhe que adiasse a sua visita para terça-feira... E na terça-feira, como o pai, contra os seus hábitos, também tivesse faltado, conversou com Ludgero a sós, na doce intimidade da sua linda salinha verde...

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