Capítulo IV A Silveirinha · Capítulo 4 de 20
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Capítulo IV

E' mais fácil aos pecadores desejarem que os virtuosos se nivelem a elet, do quê desejarem eles nieelar-se aos virtuosos. Palestra em casa do Dr. Zacarias. — Poucas sociedades terão mudado de face de um modo tão extraordinário e decisivo como a nossa mudou nestes últimos dez anos; dizia Gastão Soares ao Dr. Zacarias. Para se perceber bem isto é preciso passar-se uma temporada iôra, como eu passei. — Na verdade, temo-nos transformado... — Não sei se em todas as classes se dará o mesmo fenômeno que observo naquela em que vivo; mas é provável que a causa que alterou uma, tenha também tido sua influencia sobre as outras. Acredita meu caro Zacarias, que a casa onde me sinto ainda como dentro da alma antiga da minha terra é a tua, porque entre outros hábitos brazileiros, vejo ainda nela respeitada a doce lei hospitaleira da porta aberta, que está hoje substituída pela da recepção em dia certo. O Brazil bonachão, tornou-se um catita, ainda um pouco desorientado, mas com magníficas intenções de se aperfeiçoar no estilo insincero das aparências. Estou triste. Vejo alguma cousa mais do que este desconforto material de uma vida absurdamente cara e alheia a simplicidades doces... — Que vês tú? — Um relaxamento moral tão grande que chego a duvidar da acuidade da minha observação... Houve um pouco de silencio meditativo. O Dr. Zacarias disse depois: — Todas as sociedades têm as suas crises transitórias, e que mesmo pela sua instabilidade são desorientadoras. O nosso período revolucionário ainda não acabou; é precizo não te esqueceres disto. Estamos ainda dentro da caldeira política, cuja fervura varia de intensidade, conservandonos comtudo em constante ebulição. Quando a caldeira descançar e descermos a uma temperatura normal, revira o bom senso; emquanto isto não acontecer a vida e os costumes terão de estar sujeitos ás contingências de um artificio inconeiente e perigoso. A desorganização que te parece notar na sociedade que freqüentas, é uma conseqüência do tempo e não um sintoma do ca rater nacional. Gastão Soares levantou-se, foi á janela sacudir a cinza do charuto, emquanto o Zacarias falava, recostado numa cadeira de balanço. Depois, voltando-se para o amigo : — Desgraçadamente eu aprecio tudo isto de ura modo muito diferente. Considero esta época demasiadamente longa para estar ainda no refluxo da onda que transformou o nosso regimen político e que o transformou sem os abalos terríveis que são só os que deixam vibrações demoradas. Antes de culpar uma arvore pelos seus frutos podres, é preciso observar na atmosfera ambiente as causas dessa podridão. Mas aqui ninguém se dá a esse trabalho e até parece que todos se deixam gostosamente contaminar pela decomposição, que se torna assim geral... — Será bom fugires a tempo... disse sorrindo o advogado. — Morto por isso estou eu já. Volto para a velha e corrupta Europa, agora rejuvenecida a meus olhos com uma alma cândida, de adolescente !... Como se não interessasse por tais assuntos, a dona da casa conversava noutra extremidade da sala com a sua amiga Xaviera. Alta e magra, a Xaviera tinha linha. Nos seus grandes olhos castanhos, sublinhados por uma orla enegrecida de pinturas, parecia arder constantemente a chama de uma paixão sopitada. Os cabelos pretos encrespavam-se-lhe na nuca, como encolhidos por crispações amorosas. Não era bonita, mas tinha uma expressão sedutora e rara. O marido, o gordo Juventino Teixeira, fabricante de conservas e de licores, prestava atenção á palestra do Gastão Soares, acariciando enlre os joelhos um dos filhos mais novos do Zacarias. De vez em quando, o pequeno tentava uma arremetida para se libertar, mas as mãos cabeludas do fabricante subjugavam-n'o e a criança esperava uma frouxidão distraída, para a fuga. Foi nessa atitude que os sorpreenderam o Dr. Jordão e a Silveirinha. De relance, depois dos primeiros cumprimentos, a Xaviera examinou a recemchegada da cabeça aos pés, concluindo que aquela mulher de aparência delicada, guardaria, embora depois de casada vinte anos, o nome por que fora sempre conhecida em solteira : — Silveirinha — tanto era nela acentuada uma expressão de inconfundível individualidade. Nunca a vira de tão perto. De longe, na missa das dez na matriz da Gloria, no teatro, ou mesmo na rua, sempre lhe tinha parecido feia, por demais esguia, com o peito e os quadris chatos como os dos rapazinhos e a pele descolorida, de um branco embaciado. De perto, compreendia poder ter havido nela qualquer cousa que atraísse o Jordão, além do dote... A voz tinha uma sonoridade doce e cheia e o seu olhar guardava no fundo um mistério que excitava a curiosidade e o desejo da indagação. Depois, percebia agora que ela sabia vestir-se. O seu traje de seda crua com bordaduras a torçal, seguro no peito por um pequeno dragão de esmeraldas e diamantes, recendia a Paris; assim como o chapéu, de um modelo novo e ousado de que irrompia, em desesperado alvoroço, um feixe riquíssimo de penas côr de cobre novo. — Cinco filhos?!... oh, a senhora tem bastante com que se entreter! Como se chamam ? perguntava ela á dona da casa, que enumerou, sorrindo : — João, Luiza, Marieta, Cláudio e Roberto. — Costuma vir todos os anos a Petropolis ? — Nem sempre. Preferimos ás vezes ir passar o verão em Terezopolis ou em Palmeiras... — A bem dizer eu, no Brazil, só compreendo ura lugar — Petropolis; tanto que tenciono prolongar a minha estação aqui este ano até fins de Maio... A senhora também está veraneando aqui? perguntou ela, voltando-se ligeirameule para a Xaviera, que sabia perfeitamente não ter ido a Petropolis senão por dous dias. — Não senhora. Sou muito fiel ao meu Rio de Janeiro; não o troco por cousa nenhuma. Vim ver duas filhas que tenho no colégio de Sião e vizilar Z. Voltarei amanhã... — Pelo que vejo, a única inconstante aqui sou eu! notou a dona da casa, visto que se você não sai do Rio, também Madame Jordão não deixa de vir a Petropolis todos os anos... — Todos ! Os ares e as flores daqui sempre me seduziram. Não gosta de flores? — Quem não gostará de flores! exclamou a Xaviera, ao mesmo tempo que a D. Zelia respondia: — Por força! Além disso a vida aqui é mais fácil. Temos melhores criados... — Só essa felicidade! No Rio é um inferno. *— Aqui também eles não são tão bons assim... — A minha casa está em crise! disse a Xaviera. Saíram, ao mesmo tempo, cozinheira e lavadeira. Imaginem! — Que horror! — Realmente, a vida de uma dona de casa é uma cousa bem triste... — Para quem tem muitos filhos, como a senhora, é que isto aqui oferece vantagens, por causa dos colégios, observou a Silveirinha. — Eu ensino os meus em casa, atalhou D. Zelia. Ainda hoje contratei uma professora alemã, para vir morar comnosco e instruir as crianças..! — Masé católica... não é ? perguntou a Silveirinha, num movimento incontido e irrefletido. — Não sei. Creio que é protestante. O Dr. Jordão interveio depressa, interrompendo o assunto, e pedindo noticias daqueles lindos serões musicais em que Zelia se fazia ouvir tão con4. decendentemente. Silveirinha retraiu-se e olhou com mal disfarçada impertinencia, para as duas senhoras em frente. A Xaviera tinha uma expressão febril. Toda ela era quebranto. As suas roupas, fingindo-se discretas, eram provocantes. Na côr sombria do seu vestido castanho, um medalhão de platina, trabalhado com brilhantinhos e pérolas miúdas, refulgia como uma estrela, convidando ao descanço entre os seus dous seios pequenos e amorosos. Os seus lábios carminados eram carnudos e bem desenhados, embora já levemente descaídos nas comissuras, e ó seu gesto vagaroso parecia pezar o amor em cada movimento. A Silveirinha sabia algo da sua crônica fácil e já linha determinado de si para si não lhe oferecer a sua casa, ao despedir-se. Começara cedo a compreender o perigo das facilidades brazileiras, em que toda a gente põe ao dispor dos outros o conforto da sua casa. Prometia a si própria ser inflexível e não admitir na sua convivência senão pessoas de reputação solida, bem escolhidas. E nisso o marido aprovava as suas resoluções. Madame Z., era bem diferente da Xaviera. Se esta era esbelta e esguia, ela oragorda, serena,de uma gordura sadia, sem excesso de banhas nem arrouxos de colete. O assunto escolhido agora pelo Dr. Jordão animava-a. Tinha abandonado um pouco o piano por amor dos filhos, mas esperava ainda um dia voltar a estudar, como em outros tempos. Infelizmente, não tinha podido conciliar as cousas de modo a poder ser ao mesmo tempo pianista e ama de leite; mas começava a sentir saudades do teclado. Acompanhava, todavia, todo o movimento musical do Rio, não perdia nunca os bons concertos. Ainda na véspera, ali mesmo, em Petropolis, fora ouvir a uma casa amiga musicas de Grieg e de Debussy. Ela não gostava de Debussy, todo de pensamentos curtos e errantes. E ele? O Dr. Jordão gostava. Preferia-o mesmo a Grieg. Estabelecia-se um principio de discussão, quando vieram anunciar o Dr. Ludgero Dias. Madame Z. teve um sobresalto. — Dr. Ludgero ! por que teria ele vindo a Petropolis e a esta hora ! Asorpreza de Mad ameZ. nãopassou despercebida á Xaviera, que em tudo farejava intrigas e mistérios. Silveirinha distraía-se nesse instante conversando com o diplomata Gastão Soares, que tinha abandonado a conversa com o Dr. Zacarias e viera sentar-se a seu lado, relembrando o prazer que sentira ao ouvil-a recitar um monólogo em casa dos Korsakoff. — Ah! o senhor estava lá? — Eslava lá. — Pois assistiu á minha despedida. Nunca mais recitarei em publico. juxrun-rx^i^-Lrirtru-u-LrB-in.ri.riru-.r^-^>-ir-^-f-K-ir-ii-rii-r-ii-i—1-1—— — - - - - - ..--,— -.m — Não diga isso. Então agora é só para o seu marido ? — Nem para ele. — E' ser cruel... Entretanto, MadameZ. levantava-see ia ao encontro do advogado Ludgero Dias, a quem apertou a mão com ar interroga tivo. Ele sorriu e disse qualquer cousa baixo, que a Xaviera não entendeu. Não entendeu e por isso mesmo imaginou logo cousas extraordinárias. Por que teria ele falado tão baixo ? Por que se levantaria Zelia, e por que, ainda, teria tido aquele sobresalto ? Emfim! Havia já dez anos que ela era amiga intima dessa formosa Zelia honesta e fecunda, sem que jamais lhe pudesse ter penetrado o mais pequenino, o mais insignificante segredo. Toda a gente lhe gabava a sua beleza impassível de escultura, a sua côr morena, nunca disfarçada pelo maquillage, ao mesmo tempo que o seu caráter sem macula, e ela não podia suportar tanta superioridade numa só pessoa. Emquanto ela se debatia em aventuras perigosas, essa amiga continuava intangível e serena como uma deusa num pedestal. Nunca obtivera dela nem um segredo, não ousara nunca comunicar-lhe um dos seus. Ao principio tinha-se agarrado á sua amizade como a um escudo contra as perfidias do mundo, de que se chamava vitima; as suas relações com aquela senhora representavam como que uma garantia de defesa contra a maledicencia da sociedade. Com a convivência, entretanto, essa amizade tornouse de fato imprescindível ao seu coração sempre em temporal. Zelia apresentava o Dr. Ludgero Dias com termos de muita simpatia ás suas visitas. Depois, lembrando-se que o pai da Xaviera era demandista e amigo de consultar advogados, quiz recomendar-lhe o seu protegido por intermédio da filha e sentou-o a seu lado com algumas palavras de apresentação, voltando imediatamente a sua atenção para o outro grupo. Ludgero acompanhou-a com a vista, sem prestar quasi atenção á conversa da Xaviera, que o observava com um sorrizinho de ironia e de mal disfarçado despeito... No angulo oposto da sala, Juventino Teixeira sacudia as mãos gordas em gestos veementes, afirmando que nunca o Brazil fora tão bem governado como nos saudosos tempos do Senhor D.Pedro II. 0 dono da casa sorriu, o Dr. Jordão pediu provas. Que lhe apresentasse fatos comprovadores de tal asserção. Por ele, não julgava assim. Os sessenta anos do reinado do ultimo imperador considerava-os como um largo período de estagnação. — Não diga isso! — Digo. Basta lembrar que o Brazil império, era um país pestifero, aterrador, de que se não •JO falava no mundo senão para lhe citar o calor, a febre amarela e o nome do seu imperador como sábio e filosofo... — E como homem honesto. — Mas que fez esse homem honesto, em tantissimos anos de reinado, para ao menos afastar do seu paíz essa reputação nefasta de paíz da Morte? Nada. Coube á Republica cumprir essa obra patriótica e redentora. A Silveirinha voltou para o marido olhos de desespero. Juventino Teixeira replicou : — Bom; mas isso também o imperador faria mais tarde, quando chegasse a ocasião. — Oh, senhores, mas a ocasião tinha-se apresentado já tantas vezes! — Nunca tão bem como com o exemplo de Cuba. O saneamento de Cuba foi que nos orientou. E depois, o que ninguém pôde negar é que no tempo da monarquia o Brazil vivia com outra fartura e tinha outra honestidade por base. — Ao contrario, meu amigo; o Brazil tinha então por base, para servir-me da sua expressão, a maior das deshonestidades possíveis — a escravidão ! Se vivia farto, era á custa de sacrifícios da raça negra. Hoje, tem de pagar o que antigamente nada lhe custava; eis a diferença, e olhe que não é pequena. — Ha outras diferenças... — Ha muitas outras! — Afinal, quando a Republica surgiu, já não havia escravos. A abolição tinha sido decretada pelo trono. — Não. Pelo povo. — Ora essa! então, D. Isabel, a Redentora... — Assinou uma lei ditada pelos abolicionistas. Se ela não tivesse querido assinar, teria havido uma revolução. Juventino abalou a sala com uma gargalhada. — Ora, uma revolução! Não creia nisso... — Não creio noutra cousa... — Nesse caso, o senhor não tem veneração pela memória do Imperador? — Não. Silveirinha sacudiu a cabeça nervosamente. — Chega a parecer uma heresia! exclamou Juventino Teixeira. — Não sei porquê. E' possível que o Imperador tivesse qualidades particulares muito apreciáveis, mas um chefe de Estado não pôde ser observado através do tempo senão pelas obras que executou. — Então? — Então pelas obras que executou deduzo que D. Pedro não cooperou como devia e podia pelo progresso do seu paíz. A Silveirinha revolvia-se aflitivamente na cadeira. Não podia ouvir falar com menos respeito no venerando velho das barbas brancas. Juventino exclamou desesperado, voltando-se ?a para o Zacarias, como a pedir-lhe que o secundasse no meritorio esforço de defender D. Pedro II: — Pelo amor de Deus, isto é querer mascarar a verdade da historia ! — Efetivamente, murmurou João Zacarias, acariciando o queixo magro com a mão vagarosa; ele poderia ter deixado alguma cousa mais do que deixou. — Qué! você também ? ! — Por que não ? Sou um homem desapaixonado, que observo tudo a frio. O segundo reinado foi, num paiz tão necessitado de energias e de iniciativas, um verdadeiro período de tempo perdido. — Sempre quero saber se foi a Republica que fez a nossa civilização. — A nossa civilização foi criada por D. João VI, o grande rei, esse sim, para quem ainda somos ingratos. — Ha muito quem diga que não foi D. João VI quem fez nada, mas os seus ministros. — Ainda que assim fosse, quem escolheu os seus ministros e prestigiou as suas ações adiantadas? Não acredite que um rei tão operoso tivesse sido um homem insignificante. Impossível! D. João VI era forçosamente um homem superior. Emquanto a conversa política palpitava numa extremidade da sala, a Xaviera conseguia chamar ?3 a si, pouco a pouco, a atenção do Ludgero, falando-lhe num tom de voz quente e roliço, transmitindo-lhe através da pequena distancia que os separava o calor do seu corpo flexível, da sua carne amorosa e dos seus olhos cheios de promessas, os seus lindos olhos circumdados de bistre. Quereria disputal-o á amiga, não por ele, que lhe parecia insignificante de tipo e acanhado de idéas; mas pela outra, a Zelia, silenciosa, que a enganava ha tantos anos com uma pele de honestidade e afinal se entregava tal qual ela ás delicias de um amor criminoso... Porque, com o seu farosinho atilado percebia tudo de relance : Zelia amava aquele idiota do Ludgero, que dentro de pouco tempo, ela, Xaveira, reduziria ao que quizesse... Já pelo modo por que a Z. se tinha varias vezes referido a esse amigo, que uma tia velha lhe mandara de presente lá do fim do seu Estado, ela desconfiara de qualquer sentimento suspeito. Zelia tinha-lhe parecido sempre muito egoísta, para se incomodar assim com tamanho empenho pela colocação de um sujeito qualquer... Estranhava a insistência, embora desanuviada e franca, com que a amiga se interessava agora pela felicidade material daquele rapaz, só porque a ti tia o recomendara a sua atenção... Que excelente sobrinha, a Zelia! Vendo-os ali juntos e supondo ter adivinhado em ambos um sentimento oculto, Xaviera ^4 estremecia de prazer, o prazer maligno, fatal, de ver a sua amiga decida ao seu próprio nivel. Emfim, já a não incomodaria por muito tempo a superioridade da outra... — Falarei a meu pai a seu respeito, dizia ela a Ludgero. Mas para isso, será bom que o senhor se apresente em minha casa... — Quando?... — Espere... Terça-íeira! Meu pai costuma ir visitar-me todas as terças-feiras, durante o dia... — A que horas deverei apresentar-me ? — A's duas... E os olhos dela como que desdobravam mantos de veludo, que o envolviam todo. Na sua amabilidade de dona de casa Zelia não percebia nada. Ia de um a outro, intervindo agora geitosamente na discussão política que aumentara de calor procurando amainal-a com a sua voz prudente. Ela tinha em grande consideração a memória dos velhos imperadores. Mas não lhe foi fácil convencer aqueles senhores a mudar de assunto, tão animados estavam. A Silveirinha sofria, agitava-se, parecia comer o marido com os olhos, absorvêl-o todo, para que ele não tornasse a maldizer do império, e sobretudo não aludisse desrespeitosamente ao nome do imperador. Como ele não percebesse a sua aflição, ela levantou-se de repente para as despedidas, obrigando-o assim a calar-se. Foi ao dizer adeus j5 a todos que notou, apezar da sua alteração, o fulgor apaixonado do olhar da Xaviera e a frialdade das mãos do advogado, que lhe traspassou a luva. Zelia linha uma doce expressão de confiança ao pé daqueles amigos tão extraordinários... Embora alterada pelas opiniões do marido, foi nisso que ela saiu pensando. Afinal, aquela Madame Z, tão séria, era intima da Xaviera, tão desacreditada, e não vacilava em se interessar com tamanha vivacidade por um rapaz solteiro de ar pobretão... Dentro daquilo tudo deveria haver qualquer feio enredo... Que seria? Foi ao deitar-se que ela disse ao marido : — Estiveste hoje muito inconveniente ! — Como assim, eu? — Tu, sim. — Ora esta, quando ? — Quando falaste mal do imperador. Como ele se risse e quizesse beijal-a ela retraiu-se muito amuada e não se falaram até ao dia seguinte.

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