Capítulo XIX
Deram a um pobrezinho um cofre de dinheiro a guardar; mas que lhe não tocasse! O mendigo guardou-o religiosamente, mas todos os dias, ao sentir o estômago estorcegado pelo suplício da fome pensava: — Com uma simples volta de chaoe eu acabaria com o meu tormento — todavia não abria o cofre que não era seu, o que não obstou que houvesse tido maus pensamentos. Não se deve proporcionar a ninguém ocasião de ter maus pensamentos... Ha segredos mais difíceis de guardar do que um cofre de moedas por um mendigo, porque ainda as moedas são inertes e os segredos quasi nunca esperam pela volta de chaoe para saltarem de onde os meteram. A Xaviera andava neurastenica; tinha crises. A's vezes, fechava-se no quarto horas inteiras; outras expandia-se em impertinencias insuportáveis. Toda a gente percebia que ela estava sob a ação de algum desgosto forte; mas ninguém ousava interrogal-a. Uma das suas amigas fez correr que semelhante irritação devia ser motivada pela desconfiança em que andava a Xaviera de estar com um tumor num seio. Os criados comentavam entre si o caso maliciosamente. Conheciam a5a a índole da patroa. O marido apareceu-lhe um dia em casa com um medico, de surpreza; mas a mulher zangou-se com o disparate e só se queixou ao facultativo atonilo de excelente apetite e noites bem dormidas. Quando se via só, desesperava-se. Quem poderia ter metido na cabeça da filha a idéa de se fazer freira para remir os pecados da mãi? Vivendo dia e noite enclausurada no colégio, que poderia aquela criança saber da volubilidade do seu coração fraco e da perene agitação da sua vida? O segredo asfixiava-a; não podia conflal-o ao marido, mas também não sabia resolver a situação sósinha. Lembrou-se de escrever á Z. pedindo-lhe que visitasse a menina e a dissuadisse do seu propósito; mas sentia-se agora para com a amiga numa posição perigosa. Deveria evitar toda a espécie de confidencias e provocações com medo de que qualquer atrito fizesse explodir a bomba de um escândalo. Cada vez quê se via ao espelho, encontrava sinais de decadência no seu lindo rosto moreno e oval. O desgosto abafado tingia-lhe as olheiras de roxo e amolecia-lhe as faces. Era urgente tomar uma deliberação que a aliviasse, salvando-lhe ao menos um resto de mocidade. Com trinta e três anos, na força da vida, ela tinha a preocupação de se defender dos insultos da velhice, que a amedrontava mais que a morte. Desde os seus vinte e oito anos que se lhe engastara esse pensar no cérebro, quando ao levantar-se de um tifo descobriu fios brancos na sua linda cabeleira negra. Nessa hora quiz chorar, mas reprimiu as lagrimas para não estragar os olhos e achou de melhor alvitre mandar chamar um cabeleireiro que lhe restituiu a côr natural ás madeixas grisalhas. Fora o primeiro rebate. Desde então poupava-se. Evitava os trabalhos domésticos e sabia dominar as suas inquietações. Cada dia que passava não tinha para ela outra significação senão a de ter perdido com ele um pouco da sua beleza, que recompunha ao espelho, milagrosamente. Mas toda a sua astucia e arte de viver parecialhe quebrarem-se agora como o vidro ao choque desse desgosto sério e verdadeiro o sacrifício escandaloso da filha! Todo mundo comentaria o caso; com a sua resolução absurda, aquela criança leval-a-ia ao cemitério. Entretanto, Marilia escrevia-lhe novas cartas de Petropolis, insistindo na sua idéa, exigindo respostas afirmativas, visto que ela era chamada ao convento, á oração solitária, por intenção dos pecadores... Um dia, o pedido veio tão urgente, tão impeis a54 rativo e nervoso, que a Xaviera náo pôde mais, e resolveu dizer alguma cousa ao marido. Essa ultima gota de veneno causou o transbordamento da confidencia, havia muito sopitada. Quando Juventino Teixeira chegou a casa, gordo, tranqüilo, risonho, porque o seu dia de negocio lhe tinha corrido bem, a mulher desfechou-lhe com vor segura a noticia terrível: — Fica sabendo que a Marilia, quer se fazer freira! — Hein?! — E que eu não posso consentir em semelhante cousa! — Nem eu! Escreveu-te?! — Escreveu-me. — Está doida! Ora se eu me ia cançar em organizar-lhe um dote para que ela o atirasse para um convento! — Vocês, homens, logo pensam no dinheiro. Só pensam no dinheiro! — Porque sabemos quanto ele custa a ganhar... Escreve-lhe, dizendo que se deixe de caraminholas; que eu não consinto. E acabou-se. — Marilia sempre foi teimosa. Desde pequena que impunha a todos as suas opiniões. Náo te lembras? Até comnosco ela teimava! — Não saiu a mim. — Nem a mim! — Pois se não saiu a nenhum de nós, acabará a55 im a teimosia depressa. Havia de ter graça, eu r uma filha freira, era só o que faltava! Trabaar como um burro de carga, para encher os ifres de um convento, porque a menina teve capricho de se fazer religiosa! — Precisamos desvial-a dessa idéa... — Por força. Que razões alega ela para semelante disparate? Xaviera estremeceu e murmurou : — Vocação... amor a Deus... — Pois que ame a Deus em casa, que é onde ielhor pôde servil-o. — Com violência não se arranja nada. Talvez sse prudente retiral-a do colégio, trazel-a para jui, obrigal-a a distrair-se... — Com este calor? — Já que não temos outro... O verão está aasi no fim e no inverno haverá muitos espetados e bailes. Teremos de assinar um camarote 3 Municipal e arranjar convites para todos os liles... Só acredito na eficácia destes remédios isfarçados, oferecidos sem imposição. Principaliente para pessoas da indole de Marilia, que é is de antes quebrar que torcer. — Tanto melhor. Chamal-a-ei á ordem. Usarei >m rigor da minha autoridade de pai. Sempre lero vêr se me resiste! — Acho que ela deve ignorar o motivo da sua saida definitiva do colégio. Dir-lhe-emos que estou doenle e precizo de minhas filhas a meu lado. — Ora, doente! Outro dia afirmoste ao medico estar de perfeita saúde, o que ele não acreditou, valha a verdade, e tanto que me aconselhou a levar-te á Europa! — Sempre era precizo receitar qualquer cousa para fazer jus ao pagamento da visita... — Com certeza. Em todo caso, olha que a lembrança vem agora a propósito... — Talvez... — Demais a mais o momento ó favorável... Tenho aqui o sócio e os empregados são bons. Xaviera calou-se, meditando. Sim, seria uma solução, não só para o caso da filha como para o seu próprio. Começava a ter medo do Ludgero e das complicações com a Z. Ao mesmo lempo não lhe sorria a idéa de o deixar completamente livre ao lado da outra ; não por ciúmes, que os náo tinha, mas por vaidade e temor de que o seu romance abominável passasse todo para o conhecimento da amiga. O marido, vendo-a alheada, indagou : — Em que estás pensando?... — Em nada... — Ora essa, em nada! — Quero dizer, em cousas difíceis de explicar... — Tudo é fácil de explicar. Eu exijo que me 2:">7 expliquem tudo. Pensas que me resigno com a idéa do que a Marilia não me diga a razão porque se quer fazer religiosa? Não. — Eu já disse. E' a vocação. — Ora bolas, vocação! Vejam como são as cousas : o meu sócio disse-me hoje que a filha Zuleika, que tem um dote de quinhentos contos, lhe declarou ao almoço que lhe arranje um marido quanto antes, porque ela está farta de suportar a madrasta e quer sair de casa! Gomo estão os tempos! Uma menina de dezenove anos diz ao pai que lhe arrange um marido, seja ele quem fôr, para sair da casa paterna; a outra, de dezoito, declara á mãi querer abandonar os pais para entrar para um convênio! Que geração! — A nossa tem menos razão. Eu já sabia que a outra sofria muito com a madrasta. O pai está resolvido a fazer-lhe a vontade? — Por força! Antes que a filha faça alguma asneira... Não pôde ser agradável viver-se entre duas pessoas que se odeiam. — Não... — Ora a Marilia! que surpreza! Precizamos ir buscal-a amanhã mesmo. E nada de atender a rogos nem a considerações de nenhuma espécie. Freira só no inferno! Xaviera meditava : A Zuleika tem quinhentos contos de dote e não é bonita nem inteligente, mas também não é feia de todo... e creio que pelo menos sabe ler e oscrever... Não é mulher que faça sombra á memória radiante que outra tiver deixado no coração e na vida de um homem... mas terá pelo menos, no período do noivado, poder bastante para distrair o marido de outros enleios amorosos... Interrompendo as suas reflexões, perguntou : — E o teu sócio já arranjou noivo para afilha? — Ora essa! pois so foi hoje quo ela lhe fez essa declaração! E' preciso ter muita falta de pudor... — Ou muito desespero... — Qual desespero!... — Estou-me lembrando de uma coisa : amanha levo comigo a Zuleika a Petropolis, a buscar a Marilia, e depois, com o pretexto de alegrar minha filha, relenho-a uns dias comnosco... — Bom. Então está resolvido que vern amanhã a Marilia? — Eslá. — E a viagem á Europa? — Essa só se decidirá daqui a uma semana. Fique desde já entendido que se formos levaremos as duas meninas. Juventino concordou com a mulher, intimamente admirado de a vèr tomar umas resoluções tão sensatas. Não parecia a mesma mãi, até então empenhada em ter as filhas distantes. 25o, — Sim, certamente que levaremos as duas; e que tu, com uns mezes de Paris, ficarás para sempre livre das tuas enxaquecas! Afinal de contas é lá que está o remédio para tudo! É bom não tomar muito a sério as vontades das crianças... Xaviera não ouvia o marido : concentrava- se. Já não pensava na sua filha, mas na do sócio da fabrica, carregadinha de ouro como a bolsa de um milionário e anciosa por casar fosse com quem fosse.. Em poucos minutos o seu cérebro excitado organisava um desfecho tranquilisador para a hisrtoria do seu coração. Convencia-se ainda uma vez de ser uma mulher de recursos, uma mulher invencível. Sentia-se feliz. Sorria. Juventino, já entusiasmado com a idéa da viagem, saiu para comprar um guia de Paris e telegrafar ás filhas que as iria buscar no dia seguinte... Vendo-o afastar-se, Xaviera telefonou para o sócio da fabrica e participou-lhe que iria no dia seguinte buscar a filha para um passeio a Petropolis. Que estivesse pronta ás oito horas da manhã. . O homem consentiu, rompendo em agradecimentos. Certa da companhia da moça, Xaviera telefonou também em seguida ao Dr. Ludgero, pedindo-lhe que estivesse no dia seguinte, a hora da partida do segundo trem para Petropolis, na 2 6 0 estação da Praia Formosa. E apenas ouvido o sim, fechou o aparelho não querendo dar azo u maiores conversas. Atirou-se depois cançada sobre uma espreguiçadeira do seu quarto de toilette. Sabia-lhe bem agora aquele doce socego da sua casa, que dentro de poucos dias estaria alterado pelo piano da Marilia e as gargalhadas da incontida Juventina, a sua caçula barulhenta... A entrada das pequenas em casa poria necessariamente um ponto final ás aventuras de amor em que, de vez em quando, se via enlaçada, por solicitações imperiosas a que não sabia fugir ou por infortúnios do seu temperamento. Tinha medo do futuro e de não saber resistir. Acreditava em feitiços, cousas que lhe fizessem para a comprometer. Contavam-se fatos tão extraordinários! E, de resto, não tivera ele mesma em casa exemplos do poder da sugestão, numa preta velha que vivia bebeda e que um príncipe russo, do Catete, tornou pacata e sóbria, a distancia, e só pelo dominio da sua vontade ? Com os olhos semi-cerrados, Xaviera percebia apenas o ambiente todo verde do quarto, formado pela cortina de folhagem da grande acácia rente á janela toda a escorrer ouro na pompa dos seus grandes cachos luminosos. E pensava também na Z. e no modo por que haveria de tirar para sempre do seu caminho esse Ludgero comprometedor, a quem não amava, mas que não queria restituir á outra. Arrepiava-se com a idéa do tempo que as filhas lhe tomariam com perguntas, pedidos e assiduidades. Jamais poderia ter pensamentos só seus, horas de recolhimento ou saídas independentes. Pensava logo depois na filha do sócio, a pobre Zuleika, com tipo de cigana, sempre mal querida pela madrasta invejosa e que suplicava agora por um marido fosse ele quem fosse, comtanto que a tirasse de casa... E seguindo o rumo de certas combinações, concluía que apezar de todos os sustos, todos os dissabores, a vida ainda é uma cousa bem interessante para quem a saiba levar com geito e arte. Admirava-se de haver gente estúpida ao ponto de se deixar viver sem procurar colaborar na historia da sua existência com a minima parcela ao menos de fantazia. Apezar de toda a sua coragem, teria de ensaiar-se para, no dia seguinte, enfrentar com a filha sem córar, guardando, ao contrario, a atitude nobre de quem nada tem a temer. Com que autoridade poderia impor a Marilia virtudes que não tinha? Não sabia. No ardor da sua fé religiosa punha o seu coração nas mãos de Deus e esperava dele as forças que lhe iam faltando... No dia seguinte, ás oito horas, chegava, como marido e a filha do sócio, a Zuleika, á gare da Praia Formosa, onde o Ludgero já estava, á espera de um amigo. Vendo o Juventino ao lado da esposa, voltou para esta um olhar interrogativo: 15. a6a ela respondeu-lhe, apresentando-lhe u sua nmipa Zuleika, uma menina que, apezar da sua grande fortuna, era de uma simplicidade encantadora... Havia qualquer cousa diferente na voz da Xaviera, que impressionou o moço; elo era muito esperto para não perceber a insistência com que ela olhava para a rapariguinha e para ele logo depois... O próprio Juventino foi sugestionado a ponto de dizer baixinho á mulher : — Magnífico para a Zuleika, hein ? Ela não respondeu, mas, antes da partida, convidou Ludgero a ir jantar em sua casa no dia seguinte para festejar a volta das filhas ao lar paterno e acrescentou com intenção : — Zuleika estará também comnosco. Terá assim o prazer de a.ouvir tocar... A moça interrompeu vivamente : — Eu toco muito mal! Mas ninguém a ouviu. Entrava-se já á pressa para o trem. Durante a subida da serra, Xaviera contou naturalmente á sua companheira quem era esse Ludgero, um rapaz de talento, muito trabalhador e honesto, que, em poucos mezes de Rio de Janeiro, tinha conquistado amizades valiosissimas na alta sociedade e grande consideração no foro. Conhecia-o bem e sabia haver algumas moças apaixonadas por ele, e entre elas citava-se a a63 filha de um rico estancieiro do Sul, tida como verdadeira beleza. Ele não passava por santo; sabiam-se de algumas aventuras amorosas suas, sem conseqüência... afinal não era de admirar que um rapaz interessante, instruído, de boa família e bem encaminhado na vida, suscitasse certas predileções e simpatias... Zuleika ouvira tudo com modo indiferente. Ao aproximarem-se de Petropolis Xaviera calou-se e o seu rosto, até então desanuviado, cobriu-se de preocupação. Para evitar atritos e questões, tinham combinado tirar as meninas do colégio sob pretexto da moléstia da mãi e de uma provável viagem á Europa. Não haveria desse modo relutancias nem explicações enfadonhas. Assim foi feito, com simplicidade e presteza, embora com lagrimas das pequenas, que se tinham afeiçoado ao colégio. A mais velha, ao despedir-se da diretora, disse com firmeza, embora a meia voz pela comoção da despedida : — Jereviendrai! Ao que a Irmã respondeu com doçura : — Soyez obéissante àvosparents, ma filie... Juventino apressou a família a entrar nos dois carros que os esperavam á porta, para dar uma volta pela cidade e terem ainda tempo de almoçar no hotel e abraçar a mulher do Joào Zacarias, antes do regresso pelo primeiro trem da tarde. 2Ô4 Em casa do Dr. Zacarias, porém, só encontraram as crianças e a mestra, que informou : — D. Zelia saiu; foi acompanhar a senhora do Dr. Jordão, que a esta hora deve estar sendo operado no hospital... estão-lhe cortando um braço... A' Xaviera não desagradou o desencontro. Preferia ver a amiga, depois de ter posto em execução todo o seu plano. Juventino abria a boca numa sorpreza e resolveu deixar o seu cartão de visita em casa do medico. — Mas você só o viu uma vez, aqui na casa do Dr. Zacarias, objetou a mulher. — Não importa: simpatisei com ele; e depois é amigo do meu amigo, interesso-me pela sua vida. Vão vocês andando e esperem-me na estação. Ora que desgraça! Concordaram. A casa do medico estava aberta, podia entrar quem quizesse. Juventino procurou alguém com quem pudesse deixar o seu bilhete de visita, mas só via senhoras ás quais não podia dar tal incumbência. Perto da porta a condessa falava com a Loocking-glass, que a ouvia de ar espantado, fazendo girar entre os dedos calçados a fio de Escossia o seu medalhão de espelho. — Pois é o que lhe digo; o que mais aflige a Silveirinha éter sido ela a causadora da moléstia do marido... A 6ILVEIRINHA a65 — No... no... ela no culpada... oh... I am sorry... Juventino prestou o ouvido, muito curioso, mas vieram outras pessoas e estabeleceu-se a confusão. Pensava em retirar-se quando sentiu que alguém lhe batia no hombro; voltou-se; era a Irmã Luiza. — Venha Cá dentro. A irmã da Silveirinha está com um ataque, precizamos da força de um homem que a subjugue... — Pronto... Juventino sentiu-se quasi alegre por aquele ataque que lhe proporcionava ensejo de ser útil e de fazer notada a sua presença ali. Sem um tal acidente ninguém se lembraria de anunciar o seu nome á dona da casa; e ele teria perdido o seu tempo bem estupidamente. Ao atravessar a casa ao lado da serviçal Irmã Luiza, viu num recanto da sala de jantar a Silveirinha, muito pálida e de olhos esgazeados, entre a D. Clara e a Baltazar Luz, que tivera o mau gosto e a precaução de vir de preto! Seguiu depois pelo corredor da copa até a uma alcova, em que uma mulher magra esperneava no chão, batendo com os cotovelos e a cabeça no soalho, Madame Z., de joelhos, procurava evitar os baques do corpo da moça nas taboas, mas não conseguia siquer atenual-os. Uma outra religiosa aproximava do narizinho pálido da doente um vidro de sais, murmurando uma oração. Juventino Teixeira tinha as mãos pesadas o a voz grossa. Poz um joelho em terra, comprimiu o ventre da doente e ordenou-lhe que tivesse juízo. Poucos instantes depois ela abria os olhos. Madame Z. levantou-se, limpando o suor do rosto, muito cançada. Nunca vira uma cousa assim ! Juventino perguntou-lhe o nome da moça que estremecia ainda, no chão. — Não sei. Sempre a ouvi nomear só por — irmã da Silveirinha... As religiosas também não sabiam, e emquanto o fabricante de conservas acomodava a enferma numa poltrona, uma delas notou a Madame Z.: — E' curioso; agora é que estou reparando que aqui em Petropolis tudo que se relaciona com a família do Sr. Silveira é conhecido como sendo — da Silveirinha... A casa da Silveirinha... o pai da Silveirinha... a irmã da Silveirinha... até o cão da Silveirinha... só falta ouvir chamar aoDr. Jordão — marido da Silveirinha ! Vendo a irmã da Silveirinha voltar a si, Juventino tornou a sair, acompanhado agora pela Madame Z. Ao atravessar a sala de jantar, vacilou se havia ou náo de cumprimentar a dona da casa tão absorta a via nos seus pensameutos. Z. aconselhou-o a que saisse em silencio; transmitir-lheia depois os seus cumprimentos. Entravam ambos no corredor da porta da rua quando tiveram de se unir á parede para deixar passar o padre Pierre, chamado a confortar e aconselhar Madame...