Capítulo III
Duas almas que se procuram e te desencontram. O casamento da Silveirinha tinha-se feito á capucha, por luto recente na família do noivo. Desde esse dia, o casal fora habitar á parle, numa casa de aluguel já mobilada e de aspeto elegante, embora simples. Esse acontecimento tomara assim em Petropolis a aparência de um acidente vulgar, sem importância. O marido continuou a ir normalmente ás suas visitas no hospital, e a mulher a casa das pessoas das suas relações. Mas depois do seu casamento com a Silveirinha, o Dr. Jordão descaía ás vezes em tristezas, que impressionavam os amigos. E* que a mulher evitava intimidades. Saía Iodos os dias, a horas desencontradas, sósinha e sem dizer para onde, como se fugisse da sua companhia. Muitas vezes, ele voltava, ancioso, para casa, na doce esperança de uma convivência amável; mas logo ao entrar, esbarrava com a criada que lhe dizia : — A senhora saiu... 4? — Deixou dito para onde ia? — Disse que ia visitar uma amiga, mas voltava cedo... — Está bem... E ele entrava para o escritório, disfarçando a sua decepção, mas não tanto que a ladina da criada não a percebesse. Começava então a tragédia de abrir e fechar livros e de atirar cigarros apenas começados para o cinzeiro de bronze, em pouco tempo repleto. Quando ela voltava, alegre ou abstrata, com as mãos cheias de flores ou repassando apenas materialmente as continhas de ouro do seu rozario, seguro á cinta por um broche, ele retinha a custo a palavra de censura que lhe saía da garganta sufocada. A's vezes, dominando-se, ia beijal-a, procurando convencel-a, no meio de caricias : mas Guiomar repelia-o, fechando-se no quarto, a duas voltas de chave : outras vezes, porém, era ela quem se atirava de encontro ao seu peito, erguendo para ele a boca num gesto convidativo. — De onde vens ? Ela respondia sempre, com um grande ar de ingênua sinceridade, que vinha da casa da Condessa da Penha-Rosa, ou da casa da Baltazar Luz, ou da casa da irmã... Não reconhecia as glicinias que ela trazia nas mãos? pois eram da varanda do pai... E gabava sempre os deliciosos momentos que tinha passado com as outras, a fazer musica. Decididamente, quando voltasse para o Rio, recomeçaria a estudar seriamente o canto e o piano; ele que se fosse armando de paciência para a ouvir martelar no teclado, pelo menos três horas por dia... — Quatro! cinco horas, filha! prefiro tudo a este inferno de nunca estar comligo. Por que não esperasle pela noite, para irmos juntos ? Também eu gosto de musica, mas gosto sobretudo da tua companhia, que me falta cada vez mais. — E' que eu não quero roubar-te aos teus clientes... — Não tenhas tantos escrúpulos. — Em todo caso, nada nos impede de sair á noite... — Não gostas então de estar em casa ? — Oh, eu adoro a minha casa! Ele sorria com tristeza mal dissimulada. Vendo-o entristecido, ela sabia com habilidade desfazer-lhe as más impressões. Fazia-se então carinhosa, inventava pieguices quasi infantis, que o obrigavam a sorrir. — Criança! — Alto lá! lembre-se que tenho vinte e três anos... — Mas o teu juizinho agora é que vai crescer... A's vezes cismo ; se tivermos um filho... — Uma filha! — Ou seja uma filha, como a has de educar! — Ora essa, mal, talvez! — E' o meu receio. Tens o humor tão desigual... — Deixa estar; quando a nossa Maria vier... — Maria! teria graça. Por que? — Porque é o nome de Nossa Senhora. Elo ria-se, abalando-se todo numa gargalhada sonora. Ela insistia, já ofendida, muito seria : — Maria de Lourdes. — Demais a mais! — E até aos quinze anos não vestirá senão branco e azul. — Pobre criança! — Eram as cores que Nossa Senhora usava... — Ficam-te muilo bem esses sentimentos, mas também tenho os meus e... Ela continuava, sem querer ouvil-o : — No dia do batisado, daremos uma grande festa, om regosijo pela sua entrada no Reino Christão. Já tenho pensado nos padrinhos... Minha irmã já me declarou que não quer saber de afilhados. Tudo que papai lhe dá, parece pouco para as suas economias! Portanto, precizamos ir pensando em outra madrinha para a nossa Maria de Lourdes. De risonho, o marido se ia pouco a pouco tornando sério. Ele percebia que, sob a frivolidade do tom em que falava, a mulher não dizia tais cousas ÒO em vão, provocando-o, em ar de caçoada, para um duelo futuro em que as suas opiniões e vontades se haviam de combater. — Tem paciência, respondia ele, se quizeres balisar a tua Guiomar... — Maria! — A tua Guiomar, batisa-a; mas sem estardalhaço, e que eu não saiba. — Havia de ter graça! Demais a mais Guiomar ! porque ?! — Porque é o teu nome. — Eu detesto o meu nome. Não ha santa Guiomar... — E eu adoro-o! — Não sei porque. — Porque é o teu. — Obrigada. Deixa-o então só para mim. Milha filha será Maria. Quem escolhe o nome é a nai. — Se é por isso, quem registra a criança é o >ai. Vé como fica bem soanle: Guiomar Jordão. — Maria de Lourdes da Silveira Jordão. — Sim, Silveira, tinha-me esquecido ; mas não daria... — Não penses que hei-de criar minha filha fora Io grêmio da Igreja. Ela fará a sua primeira conunhão aos dez anos e... — Pobre mártir. — E será educada num colégio religioso. ->I — Nunca. Será educada em casa, ao pé de nós dois, entre o nosso carinho e sob a nossa vigilância. — Notre mère não me perdoaria... — Notre mère é nossa Mãi: quer dizer a tua ou a minha. Estão ambas mortas. Não conheço outra. E deixa-me dizer-le, com franqueza : acho uma profanação darem vocês esse titulo a uma extranha. Mãi ha uma. Só uma! E a propósito daquela filha, Maria ou Guiomar, cujo aparecimento nada ainda parecia anunciar, a discussão tornava-se ás vezes longa e irritante. Ela acabava chorando, ele saindo para a rua. Quando isto acontecia, os olhos da Silveirinha secavam-se depressa; um clarão os traspassava como um raio de sol apóz a tempestade. Relataria toda aquela conversa ao padre Pierre e ele lhe ensinaria a domar aquele homem, a transformar aquela alma, que a sorte lhe dera por companheira na vida. No fim se havia de vêr quem era o mais forte! Um relâmpago de orgulho passava então pela sua fronte pálida, de mulher dominadora, e as mãos finas contraiam-se-lhe no instinto de querer esmagar, para vencer. Corria ao seu quarto, abotoava á pressa um vestido, atirava um chapéu sobre a sua cabecinha estonteada e corria a contar tudo ao seu amigo e diretor espiritual. Ele ouvia-a com calma, insi- ,V2 nuava-lhe paciência. Roma não se fez num dia, e ha almas mais complexas e difíceis de refundir do que cidades. Ela que o levasse por bem com exemplos e frases inspiradas no amor de Deus. Ensinava-lhe algumas que ela escrevia a lápis no seu carnet de prata, para não esquecer... e concluía citando como suas as palavras de um velho poeta latino : « Le jeune rameau se courbe sous une main prudente, il se brise si vous faites sur lui Vépreuvt de vos forces ». Um dia de maior desespero, a Silveirinha confessou ao padre : — Meu marido é mais forte do que eu supunha. Se eu adivinhasse que a luta teria de ser tamanha, preferiria ter ficado solteira... — Mapauvre pelite brebis ! Du courage! Se Deus a chamou para o lado de um rebelde, foi por que a viu com o poder de o redimir. A sua missão é superior ás forças banais das almas comuns. Continue na sua campanha de redemção. Seu marido é como uma criança perdida num caminho errado, precisa de quem lhe dê a mão; mas, como os homens são vaidosos, não lhe deixe perceber o seu esforço; traga-o ao bom destino por meio do seu amore da sua boa inspiração. — Mas, padre Pierre! ás vezes sinto-me impotente, sem argumentos, e sem coragem nem para um simples sorrizo... Se ele nega o que eu afirmo, fal-o de um modo tão positivo que chego a ter medo! — Medo de quem, minha filha?! — Medo de mim, padre! Ha na minha razão qualquer cousa que extremece, que vacila e então... — E então, quando ele expandir essas teorias diabólicas, tape bem os ouvidos ou fuja. Nesse dia, não consinta nem o mais leve contato do seu corpo, todo infiltrado da peçonha maldita... A cada uma das suas heresias, retraia-se e faça-lhe sentir a distancia que ha entre os dois. — Enorme 1 — Mas sempre que o vir humilde, bom, penetrado da sua influencia, seja então a esposa que a Igreja aconselha: dócil,meiga, obediente.., Ela córava, ele alizava-lhe as mãos assetinadas, em que o ouro da aliança reluzia. — Tenha fé; eu rezarei para que o milagre se cumpra. Volte amanhã... — Amanhã?! Ele já desconfia das minhas saídas... N — Eu irei visitar a condessa ás cinco horas da tarde. Será um encontro de acaso — concluía o padre. Não era preciso dizer mais. No dia seguinte, encontravam-se em casa da condessa, onde ele com os olhos lhe impunha silencio, contendo-a a distancia. Sem se dizerem uma palavra, ela vol- ;>.( tava reconfortada, segura do seu apoio e da sua bençam. Foi de volta da casa da condessa que ela encontrou, um dia, o marido passeando agiladamente pelo seu escritório. — Estou aqui sozinho ha quasi duas horas! — Sim? — E' uma estupidez casar-se a gente para não ter mulher. — E' — Divertiste-te, ao menos?! — Diverti-me. — Logo vi. Bastava estares longe de mim. — Bastava. — Nem ao menos disfarças? — Nem ao menos. Ela dizia isso descalçando as luvas, tirando o chapéu com o modo mais natural do mundo. — Em casa de tua irmã ? — Na da condessa. — Da implicantissima condessa! Sabes que por aí toda a gente fala dela com o tal Roberto Flores? — Nunca faltam as más línguas. A condessa podia ser mãi do Roberto. — Mas como não é nem mãi nem tia, prefere ser outra cousa. — Está no seu direito... — Não está : ou então, fuja da sociedade. 0.1 — Ninguém viu nada. — Também era o que faltava. — E se ninguém viu, ninguém tem o direito de falar. Ela ó uma senhora piedosa, temente a Deus e amiga das suas amigas. E' só o que sei. Foi enfermeira desvelada de minha mãi e basta esta razão para o seu nome ser respeitado -em minha casa. Quem foi que te falou de Roberlo Flores? — Toda a gente. — Pensei que te ocupasses só com a tua medicina e com o falar mal da religião. — Bem vês que te enganaste. — Bem vejo. — E' melhor acabarmos com isto que não pôde ser agradável a nenhum de nós, e irmos antes pagar a visita á senhora do Zacarias. — Pagar a visita? Mas quando ela veio cá nós não estávamos em casa... — Não quer dizer nada. Deixou-nos o cartão. — Nem já me lembrava disso. Se queres que te fale com franqueza, embirro solenemente com a tal Madame Z.! — Chama-a pelo nome. — MadameZ. é como é conhecida. Tem umnome de caçoada o dá-se ares de grande seriedade! — Por que embirras com ela ? — Não sei bem. Acho-a muito burgueza, e, francamente, eu só gosto das pessoas da minha igualha. — Tem graça. Qual é a diferença que ha entre ti e a mulher do Dr. Zacarias, faze me o favor de me dizer? — Oh! nenhuma! respondeu Guiomar com ironia. — Está claro. Não são ambas da mesma classe social? Tu és casada com um medico, ela é-o com um advogado. — Eu não nasci no dia do meu casamento. — Tu és filha de um corretor, ela é filha de um industrial; tu és branca, ela é branca. — Isso é que eu não sei. — Sim: ambas são da mesma raça, do mesmo paíz e até da mesma roda! — Não! Madame Z. vive numa roda muito diferente da minha. — Por que não quer freqüentar a tua, então. — Porque não pôde. — Minha filha, no Brasil, uma senhora casada com um homem como o Zacarias, freqüenta quantos e que salões quizer. — Ninguém a convida.... — Tu mesma já me disseste que a viste na noite do maxixe em casa dos Korsakoff. — Também em casa do Korsakoff estava a Looking-glass, que dizem ser uma corista do 5? Alhambra, de Londres! A Korsakoff é uma original. — Não duvido que a Looking-glass tenha sido corista. Em todo caso... — Emfim, o que eu acho que falta a Madame Z. são certos hábitos de sociedade. — Mas como sabes disso, se a não freqüentas? — Pelos outros. — Os outros são injustos. Procura julgar sempre das cousas e das pessoas por ti própria. — Queres-me fazer ter ciúmes da Madame Z? — Ora, que tolice! — Parece-te tão cheia de perfeição ! Depois de teres dito o que disseste da condessa, falas desta como de uma deusa! — Eu não inventei nada a respeito da condessa; repeti o que toda Petropolis diz. Assim como da amiga. — D. Clara ? — D. Clara. — Com o Carlos Max ? — Com esse. — Isso é já muito antigo. — Nesse caso é virtude. — A da constância I Pois vou-me vestir para irmos á casa da Madame Z. Acaba-se com isso de uma vez. — A casa do Dr. Zacarias! interrompeu o medico. — Ele é teu amigo ? — E' — Ha muitos anos? — Ha alguns. — O que não impede de ser bem feioso... Tens ido muitas vezes á sua casa? — Algumas. Mas não percas tempo. Vae-le vestir. Esperarei, lendo. — Já vou, mas quero dizer-te antes uma das razões porque embirro com aquela senhora... •? — Nunca a vi na igreja! — Oh ! filha ! mas é demais ! Deixando o marido com o seu espanto, ela sumiu-se atraz doreposteiro, gritando pela criada, para ajudal-a a vestir-se. Sentiu-se má ; excedera-se talvez, mas já se arrependia, prometendo a si mesma dispensar á mulher do Zacarias deferencias que lhe rehabilitassem a conciencia. Emquanto se empoava e vestia em frenle ao espelho da « toilette », o marido lá fora chegou á janela e respirou com força o ar fresco da noite, impregnado do aroma das magnolias da rua. Sentia-se opresso. O coração pesava-lhe no peito como se se tivesse transformado em chumbo. « Ha de ser chuva que vem por aí », murmurou ele, levantando a cabeça para o céu a ver se havia nuvens.Não havia nuvens, havia estrelas. Acausa 5 d'aquela afrontação poderia também ter sido causada pelo trabalho desse dia, ao lado de um doente de muita responsabilidade... A pensarno doente, pensava ainda mais na mulher, que parecia ter o propósito de misturar a religião em tudo! Ao principio achava graça naquilo ; começava agora a temer e a irritar-se. Era demais. Acendeu um cigarro e encostou-se ao peitoril. Insistiria ela no assunto para o aborrecer? para o convencer ? Para quê ?