Capítulo XX
Um jardineiro preguiçoso plantou num vaso especial a semente de uma fina laranjeira seleta; mas, não querendo dar-se ao trabalho de a cultivar, mandou-a para o terreno de um professional. Pastados anos, lembrou-se da planta, foi buscai-a e encontrou-a arvore feita, grande e carregada de frutos. Somente esses frutos, em vez de serem dourados, sumarentos e doces, eram acres, pequenos e côr de ferrugem. Zangou-se o jardineiro e exclamou : « Plantei uma laranjeira seleta e encontro uma da terra! antes eu a tivesse guardado em meu jardim e a ticesse enxertado a tempo! » Em poucos minutos, Xaviera organizou uma festa em casa, para solenizar a saída das filhas do Pensionalo. Ela mesma falou ao telefone, convidando algumas famílias mais intimas a jantarem em sua companhia e a outras que viessem á noite para dançar. Os criados receberam ordens ativas e ao cozinheiro chim foi dada liberdade e dinheiro para as maiores fantazias. Lançado o pessoal na patinagem dos enceramentos e na depena dos perus, Xaviera mandou avisar a sua filha Marilia que a fosse ver ao seu quarto. Ela tinha ensaiado o seu papel e afivelado ao rosto a mascara da mais altiva compostura. Procuraria resumir tudo em meia dúzia de palavras imperiosas e decisivas. Entrava agora em jogo o seu prestigio materno. Escrevia, sentada á sua secretariazinha Luiz XV, quando a filha lhe entrou no quarto tão sutilmente que mal a percebeu; voltando a cabeça viu-a de pé, de encontro á porta que tinha fechado atráz de si. Xaviera contemplou-a demoradamente antes de falar. A filha conservava o penteado entrançado do colégio, veslia-se de linho pardo e tinha os braços pendentes ao longo do corpo esguio e chato. Os próprios olhos, que eram grandes como os da mãi, se apagavam numa expressão silenciosa, impenetrável. A Xaviera começou com voz seca, em que as palavras se destacavam com inflexibilidade : — Presta-me atenção, porque o que te vou dizer quero dizel-o uma vez só. Ofenderam-me os termos das tuas ultimas cartas; não estavas em ti quando as escreveste. Antes de tudo, é precizo que saibas que não tenho razão para temer penas do inferno ou do purgatório, e que não quero, ouviste bem ? e que não quero servir de pretexto á realização de idéas a que me oponho. Se alguém te falou de mim com menos respeito, o teu dever seria defender-me e não acreditar em tais conceitos, a ponto de querer sacrificar por eles a tua 37O vida ! Desse modo confirmarias um fato que tens o dever de repelir. Tomo a tua resolução como uma criancice, de que espero procurarás fazer-te perdoada. — De que modo? perguntou a moça olhando fixamente para a mãi. — Do único como as boas filhas sabem corresponder ao amor e á bondade dos pais — pela sua convivência e a sua ternura. — Foi pena que a senhora não tivesse pensado nisso quando me mandou para o colégio. — Uma censura agora! — Uma queixa. — De mais a mais ingrata! fica certa que se te mandei para o colégio foi para o teu bem. — Supoz ! — Tenho a certeza. — Não creio. O pensionato é duro e emquanto uma criança não se habitua àquelas disciplinas sofre muito. Ninguém pôde imaginar o que é a solidão para uma alma infantil. — Tu estavas no meio de centenas de pessoas! — Todas desconhecidas. A senhora sabe que, desde muito pequenina, eu fui sempre como uma gatinha amorosa, amiga de enroscar-me nos colos queridos : vendo-me rodeada de gente estranha eu me sentia num outro paíz. Como eu chorava no dormitório, á hora do sono, amordaçando-me com os lençóis para que ninguém me ouvisse, envergonhada da minha miséria e do meu abandono ! Que medo eu tinha das freiras e como eu me sentia desfalecer de manhã, muito cedo, ainda em jejum e já ajoelhada na igreja, no suplício de orações que eu não podia entender!... Quanto me sentia diferente das minhas colegas, na hora do recreio, quando as outras andavam em grupos, abraçadinhas, ou no estudo que me parecia tão confuso e tão árduo !... O meu desespero e a minha saudade traziam-me toda para aqui, e ninguém daqui acudia ao meu sofrimento. Sofrimento, sim, sofrimento horrível. Custava-me a engulir os alimentos insipidos das refeições escolares, pensando nos bons acepipes que meus pais e os seus criados estavam comendo em minha casa, quando eu passava fome. A cama que me davam estava bem longe de se parecer com a minha, e os meus pavores noturnos tinha de os suportar calada e tremendo. Perseguia-me a saudade da minha casa, do meu cantinho do jardim, maior para mim do que todo o parque do colégio, onde não me era dado tocar numa flor; tinha saudade da senhora, de meu pai, da minha irmã e sobretudo da minha ama, que todas as noites me ia deitar e contar historias até mevêr adormecida... A minha ama, que me dava doces e penteava os meus cabelos. No colégio não ha tempo para en- < treter a imaginação das crianças com historias de fadas, nem mãos desocupadas para fazerem a 2 7 3 A SILVEIRINnA toilette de meninas da minha idade. Tudo é seco, disciplinar, metódico. Sentia-me enregelar ali : e pouco a pouco, comecei a experimentar um grande resentimento pela senhora e por meu pai. — Mas não haveria lá também outras meninas em iguais condições? ! exclamou Xaviera com espanto pelas palavras e pela expressão da filha. — Que me importava a mim a condição das outras?! Eu lembrava-me que, em frente á nossa casa, á casa onde eu naci, onde viviam meu pai e minha mãi, onde havia fartura e alegria e estavam os meus animaisinhos, e as minhas bonecas, lembrava-me que, bem em frente dessa casa querida, havia um colégio, onde todos os dias se cantava, e de onde á tarde eu via sair ranchos de crianças alegres, algumas pelas mãos das suas mais, que as iam buscar... Para aprender, eu não teria precizado ir para tão longe. — Por que não te queixaste então? — Por cobardia... ou talvez porque as crianças sabem sentir mas não sabem falar. — Vingas-te agora... — Para isso estive dez anos no colégio. Masnào falo por vingança. Falo porque chegou a hora de falar! — As tuas ironias e recriminações vêm fora de tempo e de propósito. Tens idade para compreender que a nossa intenção foi a melhor do mundo. Náo aceito os remorsos que me ofereces pelas tuas torturas de colegial. De resto, elas foram tamanhas que saiste do colégio a contra gosto! — E' que pouco a pouco me fui afazendo a tudo. — Tua irmã nunca se queixou. — Minha irmã já me encontrou lá dentro, teveme a mim para suavisar-lhe os terrores — servilhe de mãi. Eu já gostava daquilo... O habito é uma segunda natureza... Depois, as irmãs conquistaram a minha amizade. O que havia de resentimento por vós e de inveja pelos outros, foi substituído em meu coração pelo afeto por elas. — Ah... — Não ha que extranhar. Durante os dez anos em que vivi seqüestrada da minha família, só encontrei carinho e doçura na convivência das minhas mestras. — Mas nós iamos visitar-te de vez em quando e vinhas passar as férias comnosco ! — Como visitas também... — E' levar muito longe o absurdo. — E' a simples verdade. — Quando tiveres filhos, se os amares verdadeiramente has de fazer o que eu fiz. — Não terei filhos. Ah ! mas se os tivesse, haveria de crial-os ao redor de mim! — Eu não tinha capacidade para instruir ninguém... A SlLVEIRINHA — Não morávamos num deserto. O Rio de Janeiro é uma cidade coalhada de exlernatos. — Não prestam. — Quando assim fosse, em nossa casa havia lugar para uma aula de crianças, onde o mestre de fora nos viesse ensinar... Meu pai é rico. Já era rico nesse tempo. Pouco mais cara lhe ficaria a nossa educação. — Como tu raciocinas ! — Tenho lido tempo para pensar. Eram cousas ditadas pela saudade, pelo amor do lar... — E é por amor do lar que te queres fazer freira?... — E' que, com o tempo... e pela ausência, tive de me afeiçoar a outros lugares e a outras idéas, como acabei de lhe dizer. O meu lar era aquele. — E a outras pessoas, também ! — Também. Náo ha nada que extranhar nisso... E' humano. — Falas como um doutor. — Para que estive eu tanto tempo no estudo? Outras saem aparentemente como entraram. Ao menos eu, não — Dos teus sacrifícios, porque náo te falo nos meus, que os não compreenderias ainda, colherás a recompensa na tua vida de mulher, que principia agora. — Consinta que lhe diga, minha mãi, que não vale a pena sacrificar a vida da criança á vida da 27o mulher; antes que uma acabe, pôde vir a morte e não consentir que a outra principie... Se eu pudesse escrever livros, diria : — deixai brincar as crianças e trabalhar os adultos. — E por que não has de escrever ?! — Porque prefiro rezar. Estou mais habituada. — Os hábitos variam, segundo a sociedade em que se vive. Porque não fôste franca ? — Porque seria inútil. Tudo quanto eu dissesse — criancice! — Foi melhor assim. Os pais não toleram que os filhos menores possam ter opinião. Repudiam sem exame, tudo que lhes contraria a sua maneira de pensar, embora a maior parte deles não tenha idéas próprias sobre assuntos de educação... Limitam-se em geral ao que lhes parece mais cômodo, sem cogitarem no que isso possa representar de humilhação para os filhos pequenos... — Estás uma sabia! — E' que eu tenho observado muito... Quer então, minha mãi, que eu renuncie á idéa de me fazer religiosa? — Sim! — Peço-lhe que se lembre de que até hoje nunca lhe pedi nada — só obedeci. — Que queres dizer com isso ? — Que os direitos mais fortes são os conquistados pelas virtudes mais persistentes e bem demonstradas... — Precisas e aprender outra linguagem quando tiveres de falar comigo. Por emquanto só te peço que não tornes a falar em te lazeres freira emquanto não chegar a tua maioridade. Prometes? — Prometo... — Espero que até lá mudarás de tenção e te capacilarás de que aos teus sacrifícios corresponderam os nossos, que merecemos de ti alguma cousa mais de que pensas... Podes voltar lá para dentro. A colegial acabou ; esperemos que a nova vida te seja favorável... Xaviera chorava. A filha contemplou-a com sorpreza, com uma grande sorpreza. — Vem abraçar-me ao menos, Marilia, e perdôa-me se te fiz sofrer... A moça correu a abraçar a mãi com força e fugiu. A' hora do jantar, a casa resplandecia de flores e de luzes. Xaviera conseguira dar certa elegância ás filhas e lazer sobresair a Zuleika com arranjos seus. A' mesa, sentou-a perto do Ludgero, bem em frente ao monumento reproduzindo ern assucar, amêndoas, ovos e frutas, um kiosque de Pequim, verdadeira maravilha da arte culinária do cook eximio e já afamado em todo Botafogo. Ficaria assim o par, livre da vigilância inconciente dos visinhos fronteiros. Antes do se sentar á mesa, já o Ludgero fora informado pelo Juventino que a morena Zuleika pezava quinhentos contos de réis em moeda sonante que era muito meiga, e tocava piano como um anjo. Esta ultima prenda era a que ele dispensaria, caso tivesse de escolher algumas. Por seu lado, a menina sabia que o Ludgero era o homem da moda, amado pelas mulheres e desdenhoso delas. Ao principio, teve medo que esse homem lhe dissesse cousas difíceis de responder, que ela mal atingisse; mas > Ludgero fez-se simples e dentro de poucos minutos riam ambos como bons camaradas, trocando idéas e impressões com a maior naturalidade deste mundo. De uma das vezes a hilaridade foi tão espontânea e tão viva, que a Xaviera voltou para eles um olhar de advertência. Mas perdeu o seu tempo, porque não repararam nisso e ela levou á boca a sua taça de champagne para disfarçar uma certa comoção, que, máu grado seu, lhe fazia tremer os lábios numa palpitaçáo de amargura e de tristeza. Era como se saudasse o desaparecimento da sua ultima aventura de amor... 1G XXI Corações que adivinham são os que melhor perdoam. Já muitos veranistas se recolhiam ao Rio. A toda a hora passavam, a caminho da estação, carroças cheias de malas e volumes de loiça e de colchões. O Club dos Diários dera na véspera o -seu ultimo baile e perdiam-se os ecos do derradeiro pic-nic. A doce cidade serrana readquiriria dentro em pouco o seu ar familiar e tranqüilo, tão favorável á meditação e ao estudo. A rodinha da condessa esperava para decer que se dissesse a missa em ação de graças pelo restabelecimento do medico Jordão, ainda combalido. Sabendo que Iodas aquelas senhoras amáveis se tinham conservado em Petropolis para esse fim, seria possível que elle deixasse de comparecer á igreja? Repetiam umas ás outras esta pergunta com certa curiosidade. Tinham prometido á Silveirinha acompanhal-a nessa hora de gratidão e de louvor aos céus e náo queriam faltar á promessa, embora já se anun- *79 ciasse a temporada do teatro francêz no Municipal e fosse tempo de ir preparando as loilettes. A Baltasar Luz, sempre previdente, tinha recebido avisos do Colis e eslava morta por decer e examinar as suas encomendas, ao que se opunha a Magdalena, exclamando: . — Se a Luz vai, ficamos ás escuras! O Dr. Jordão passava agora os dias em uma espreguiçadeira, em frente á janela do seu gabinete de trabalho, olhando para o jardim, onde os 'botões das camelias começavam a enlumecer-.se para o desabrochamento. O cirurgião tinha conseguido poupar-lhe o braço, que ele trazia suspenso de uma tipoia. Um dia, com os olhos cerrados, imaginando atividades futuras, ousou mover a mão doente, fazendo-a errar num gesto vago sobre a mesa a seu lado. Queria experimentar a sensibilidade dos dedos amortecidos. Percebeu nesse momento que tocava um objeto qualquer flexível, uma enfiada de contas} talvez o colar de corais da tontinha da mulher, que nesse instante o tinha deixado, para ir ao interior da casa. Procurando certificar-se de se não haver enganado, arrastou com gesto brando o colar para si, e olhou. Era um rozario de vidro azul, o mesmo que vira na mão da noiva no dia em que a fora pedir em casamento... Ainda para experimentar a sensibilidade dos dedos fez perpassar entre eles, uma a uma, as quinze de3 8 o zenas de contas pequeninas das Ave Marias, e as quinze maiores dos Padre Nossos, ao mesmo tempo que os lábios se lhe moviam em silencio na sua contagem. A Silveirinha surpreendeu-o assim, e foi tal a sua comoção, julgando que o marido estivesse a rezar, que se quedou a distancia, num silencio estupefato, até que ele concluísse as suas rezas... Seria possível que a graça do Senhor tivesse baixado a iluminar aquele espirito nessa hora de renacimento e de esperança? Não a tendo visto, o medico, cansado, fechou os olhos e adormeceu, deixando cair o rozario no chão. Ela ergueu-o e beijou-o, depondo-o de novo sobre a mesa, delicadamente, com o coração em festa. O seu desejo seria correr pelas ruas, ir bater á porta do padre Pierre e, caindo de joelhos a seus pés, beijar-lhe a fimbria da batina e contar-lhe tudo, tudo! O seu marido cria, o seu marido rezava, que repicassem todos os sinos das torres, que se acendessem todas as velas dos altares, que reboassem em hinos gloriosos todos os coros das igrejas ! Mas o padre Pierre tinha-a aconselhado ainda na véspera a ser prudente e discreta, e mais de uma vez dissera só apreciar as pessoas que sabem dominar as suas impressões e persistir na construção de grandes obras sob a aparência pacata da calma e do silencio. Só as energias concentradas conseguem efeitos verdadeiros e dignos de admi2 8 l ração. Os expansivos, os impacientes, disseminam forças que espalhadas perdem grande parte da sua intensidade e do seu valor. Ela saberia calarse até á hora de gritar bem alto o seu triunfo, obedecendo assim á vontade do seu querido diretor espiritual. Quando o medico abriu os olhos, do seu curto sono, a mulher lia, a seu lado, num livro pequeno, de maroquim roxo. — Que livro é esse?... — O meu livro de orações... — Ah... — Queres alguma cousa? Não, ele não queria nada, estava satisfeito... Tornou a fechar os olhos. Quando os abriu de novo, a mulher ainda lia. Pediu-lhe então que fechasse o livro e conversasse; queria ouvir falar. Que lhe dissesse o que sentira, na hora em que o operavam no hospital... — Uma grande angustia. Deus sabe o que sofri. A idéa de que ficarias sem um braço, só por causa de um alfinete mal pregado do meu vestido, punha-me num desespero! Mas Nossa Senhora ouviu os meus rogos e fez com que os médicos te salvassem sem te deixarem defeituoso... — Se a minha salvação não foi devida aos meus colegas, não tenho nada que lhes agradecer... não é assim ? — Que poderiam eles sem a graça divina? Se 16. a8a não fosse a Fé, não sei o que teria sido do mim. Na hora da operação, a nossa ca6a encheu-se de amigos, mas eu náo via ninguém. Minha irmá leve um ataque, parece que até veio gente da rua acudir-lhe. Eu não percebi nada. Sentada estava num canto da sala de jantar, sentada iiquoi, olhando para o relógio, contando os minutos, acompanhando em pensamento o que se eslava passando no hospital... — Meu amor... — A Irmã Luiza, que assim que soube da tua doença veio cá para casa espontaneamente auxiliar-nos, e que foi a minha salvação, porque sem ela eu teria morrido, vendo-me muito pálida, com os olhos esgazeados, perguntou-me qualquer cousa a que eu náo respondi. Temendo alguma crise histérica correu ao telefone e chamou imediatamente... — Um medico?... — Não : padre Pierre... Não era o meu corpo que necessitava de socorro, era o meu espirito, era a mimYalma desnorteada, cheia de apreensões, de remorsos, de desesperos!... Eu tinha jurado a mim mesma nunca mais falar ao méu antigo confessor, por saber que isso não era do teu agrado : mas devo dizer-te que as suas palavras iluminadas pela Fé, foram as únicas que tiveram o poder de chamar o meu espirilo á razão e á resignação... Mais uma hora sem o seu cona83 selho, e eu teria enlouquecido. Ouvindo a sua voz, era como se eu estivesse ouvindo a voz de Jesus Cristo, resuscitando um morto. — Dê graças a Deus todo poderoso, minha filha, que o seu marido está salvo! — As lagrimas saltaram-me dos olhos, de alegria, e ele continuou sorrindo para mim : nem morto nem aleijado. Seu marido estará dentro de poucos dias belo e forte como no primeiro dia em que o conheceu. Mas se ele não tiver paciência de esperar o completo restabelecimento na casa de saúde e vier convalecer a seu lado, prepare-se para o receber com alegria, mas contenha os alvoroços do seu coração, para não perturbar a serenidade do seu espirito combalido... seja paciente... seja carinhosa, compense-o do que ele tem sofrido, com a doçura e a assiduidade da sua presença... Era o poder divinatório da crença que ditava ao padre Pierre aquelas palavras que deciam ao meu coração para resuscitar nele a esperança perdida... Deu-me muitos conselhos : que eu resgatasse por toda uma longa vida de amor, de carinho e de bondade, a culpa, embora involuntária, de te ter posto ás portas da morte... que se o demônio se tinha servido daquela arma para te pôr contra mim... — Oh, filha!... — Ou fazer-me uma assassina, o meu bom anjo da guarda saberia defender-te e defender-me, pondo-nos a ambos depois no caminho da felicidade verdadeira. Contei-lhe as promessas que fiz pela tua saúde e chorei tanto, tanto, que parecia uma criança... Foi nessa hora que me vieram dizer do hospital que a operação tinha corrido bem e que os médicos tinham conseguido poupar-te o braço... Caí de joelhos, dei graças ao altíssimo com toda a alegria e todo o fervor do meu coração. Padre Pierre tinha rezado por ti... a irmà Luiza também... Mas que é isso? estás sentindo alguma cousa! — Cansaço... traze-me um pouco de leite sim?... — Sim... Padre Piene linha aconselhado a Silveirinha a relatar ao marido todas as suas impressões, mesmo no período da convalecença em que ele seria mais suscetível de as compreender e de se deixar influenciar pela sua sinceridade. Não seria uma questão de luta, mas uma simples questão de cura, com as maiores probabilidades de sucesso. Ele, padre, não tornaria a entrar na casa dela a não ser, como então, num momento, que esperava se não repetisse, de angustia suprema. Deixava-a com a sua bençam, fortificada no seu animo e com a certeza de que de longe a acompanharia em espirito, confundindo com as dela as suas orações pela mesma intenção. Quando a Silveirinha voltou com o leite, encona85 trou o Dr. João Zacarias a conversar com o marido e não soube disfarçar uma impressão de desagrado em que o advogado não reparou, mas que não escapou ao doente. E' que ela tinha medo de que o João Zacarias desandasse a falar em política e cousas que alterassem o animo do marido e lhe fizessem febre. Assim, logo na primeira ocasião, avisou de que não seria prudente conversarem sobre assuntos de interesse palpitante, visto que os médicos recomendavam muito socego ao Jordão... Era uma despedida. O advogado arranjou pouco depois um pretexto e levantou-se, não cedendo aos protestos do enfermo, a quem agradava a companhia. — Sua senhora tem razão. Você preciza de socego e eu só tenho a louval-a pela advertência... Minha mulher foi testamunha de quanto a sua sofreu durante a sua doença. Muitas vezes Zelia se referia a isso comovidamente, lá em casa... E'justo que defenda agora o seu querido doente... A Silveirinha retirou-se por alguns minutos. Jordão sorriu e, retendo a mão do amigo, contou-lhe que na verdade não poderia haver em todo o mundo enfermeira mais amoravel e solicita... No seu intimo, chegava a bemdizer aquela moléstia, por lhe ter revelado todo o amor da mulher... ela não o deixava se não ainda para o servir... quando ia buscar-lhe os alimentos ou algumas vezes preparal-os pelas suas mãos. Eleja conhecia os mingáus feitos por ela, tão superiores aos da cozinheira. De que prodígios é capaz o amor! Imagine-se, que, segundo lhe tinha dito a condessa, a mulher fizera promessas do tremendo sacrifício, pela sua saúde! Uma delas seria a de levantar-se todos os dias, durante um ano, ás cinco horas da madrugada, e ficar de joelhos até ás sete, em frente de um santinho que lhe tinham dado no dia da operação... Ele não acreditará nunca nessas cousas, mas não podia deixar de se sentir tocado pela intenção daquela promessa... — Com certeza! A Silveirinha voltava com o guardanspo que tinha ido buscar á copa e disse, sorrindo para o marido: — Agora o senhor vai tomar todo este leilinho e nada de fazer caretas, ouviu? E voltando-se para o Zacarias : — os doentes precizam de ser tratados como as crianças... não acha? O advogado saiu, bem impressionado. Quem diria que aquela mulher tão moça e magrinha, fosse capaz de tanta resistência? E o que mais o alegrava era vêr desmentido tão linda e categoricamente o boato corrente nas rodas burguezas de Petropolis, de que a Silveirinha e o Jordão não viviam, logo no período da sua lua de mel, como Deus com os anjos... a8Pensando na mulher do Jordão, lembrou-se de que a sua andava desde alguns dias com ar diferente do costumado, e que a alheava por instantes, como se o seu espirito fosse solicitado por idéas opostas ás debatidas na sua presença. Ao principio atribuirá aquilo a algumas noites mal passadas com uma amiga doente e com o próprio Dr. Jordão, cuja moléstia a tinha evidentemente impressionado muito. Mas agora, que razões haveria para aquelas súbitas melancolias ? O gênio sempre igual e franco da mulher parecia toldado agora por uma sombra de dissimulação. Três semanas antes pedira-lhe ela para voltarem para o Rio. Começava a agonia do verão, achava prudente decer. Fora ele quem se opuzera á partida, querendo gozar ainda o socego das noites serranas, em que dormia tão bem. Agora, sucedia exatamente o contrario; cada vez que ele falava no Rio, ela disfarçava, inventando pretextos para continuarem Petropolis. Dizia sentir ainda calor e ter medo de asfixiar as filhas na temperatura da sua casa de Botafogo! Não ha animalzinho mais caprichoso nem mais enigmático do que a mulher! Entrando em casa, o Dr. Zacarias topou na sala com o Gastão Soares, que lhe ia dizer adeus. Partiria dentro de um mez para o seu posto em Roma, levando comsigo uma brasileirinha. Pedira na véspera em casamento a Guimarães e fora aceito. Romperam exclamações de surpreza. O Zacarias indagou risonho: — Mas como foi isso ? você parecia refratario ao casamento. — De fato, eu não pensava em casar-me; e . ninguém está mais surpreendido do que ou. — De um momento para o outro viu-se prezo... — De um momento para outro não... Sabem que estávamos na mesma pensão. O lugar dehi á mesa era bem em frente ao meu. Ao principio, embirravamos um com o outro. Ah, era manifesta a sua antipatia por mim, e por seu lado, ela percebia que eu achava horríveis as suas sobrancelhas. Quando eu falava, ela voltava-se a conversar com o seu visinho da esquerda, fingindo não prestar atenção ás cousas espirituosas que eu dizia ao seu visinho da direita. De toda essa embirração foi nacendo uma certa curiosidade... Depois, principiámos a perceber que preferíamos os mesmos pratos, comíamos as mesmas frutas e bebiamos os mesmos vinhos. Estabeleceu-se uma espécie de telepatia culinária entre nós dois. Daí o amor!... — Um caso sentimental, de uma grande -Originalidade, não ha duvida... e bem digno dos tempos práticos que vão correndo, disse o Zacarias rindo. E logo depois : — Pois felicito-te; ó um bom casamento. a8o, — Ela parece muito boa menina...acrescentou Madame Z. com ar de pouca convicção. — E' rica! afirmou o marido, arregalando os olhos. A um diplomata como você, Soares, destinado pela sua própria profissão a viver com luxo, isso não pôde ser indiferenle. — Não pôde. E tanto que eu tinha resolvido ficar solteiro e morrer sozinho, como os g&tos. Se não fosse o creme de bananas e as azinhas de frango reclamadas ao mesmo tempo por nós dois ao copeiro, creio que eu não teria mudado de tenção. Afinal, tendo as mesmas preferencias, parece-me que a nossa vida em comum não será cara nem tormentosa... — Talvez seja um engano. Assim vocês terão de matar frangos aos pares e o resultado não me parece econômico. Melhor seria que um gostasse das azas e o outro dos pês ou do peito... Quando é o casamento? — De hoje a quinze dias. A' capucha, no Rio. Em todo caso, desejo que vocês assistam ao ato. São os amigos a quem mais quero. Prometemme? — Certamente, certamente ! exclamou João Zacarias, emquanto a mulher cerrava os olhos, como a pensar em outras cousas. Gastão Soares despediu-se, radiante, apressado, morto por voltar á pensão. Zelia acompanhou-o até ao jardim, disse-lhe 2QO ainda uma palavra de felicitação e de carinho, e ficou algum tempo encostada a um bnlaustre da varanda, calada e absorta emquanto ele balia com o portão e seguia lépido pela calçada. João Zacarias observou a mulher alguns instantes, sem a perturbar. Vinculava-se no seu espirito a certeza de que ela lhe ocultava qualquer sentimento. Achava-a triste, diferente; os sous lindos olhos negros e pestanudos não se faziam transparentes como sempre, pareciam agora impenetráveis, como so a sua treva se tivesse condensado para guardar um mistério, só para si. Enfadado por aquela atitude extranha, ele bateulhe levemente no braço: — Em que estás pensando ? A mulher córou, como se tivesse sido apanhada em flagrante de um delito. — E' tão difícil a gente saber, ás vezes, no que está pensando!... — Não é. Tu nunca fóste de meditações nem devaneios. Ocultas-me qualquer cousa; não saberás negal-o. Conheço-te muito bem, para não perceber que andas preocupada, e suponho merecerte a confiança de uma confidencia. Os negócios de tua mãi andam menos mal do que ela pensa. Ter-te-ia pedido dinheiro ? —- Não ! Minha mãi não me pediu nada I — Seria muito natural que o tivesse feito. Então por que andas assim, tão exquisita 1 Ainda ha 29I pouco, quando o Soares nos convidou para o seu casamento, por que não respondeste ? Parece até contrariar-te a idéa de voltar para a nossa casa dó Rio. Porque?! — Tens razão. Eu afinal bem vejo que não posso esconder nada de ti... Acoslumei-me a contar-te todas as minhas impressões e quando chega a hora de eu guardar um segredo, ele transparece de tal modo que não o posso esconder... — Ora essa! Queres então ter segredos para mim ?! — Era precizo: mas não posso calal-o por mais tempo. Em troca da minha confiança, prometeme fazeres-me depois aquilo que eu te pedir, sim ? — Sim... sim ! João Zacarias estava curioso. A mulher conloulhe, minúcia por minúcia, a visita do rapazinho das botas cambaias, a sua historia, as revelações terríveis ijue ele lhe linha feito das pretenções do Ludgero, as suas cartas, as suas ignomínias, tudo. O marido ouvia-a boquiaberto e sem a interromper. No fim, vociferou : — E' tu acreditaste naqucllo patife, em vez de o mandar pôr fora de casa imediatamente pelo criado! Não viste logo que era um impostor, um ladrão, um bêbado ! Ele quiz explorar-te e tu tão boba que o não repeliste logo ás primeiras palavras! Qual, as mulheres são todas as mesmas. 2 9 2 — Ele não me pediu nada... — Velhaco; vir incomodar uma senhora á sua casa, para lhe dizer falsidades e pôl-a doente, só por vingança torpe. Eu que o encontre e ele verá o que é bom !... Ora, ora, que idéa ! — João, o pobre pequeno era sincero. — Qual sincero! ouve : o Ludgero procuroume ha dias no escritório e contou-me que esse rapazinho lhe imitava a letra escrevendo aos seus constituintes cartas com repetidos pedidos de dinheiro, além de que lhe tirava tudo quanto podia das gavetas. E' um bebedo forrado de um espertalhão... No dia em que descubriu isso, o Ludgero pôl-o na rua depois de lhe ter dado meia dúzia de cachações. Quando o sovava, acudiu gente que retirou o pequeno espumante de raiva debaixo dos seus joelhos. Eu já tinha percebido que ele bebia como uma gambá. Para veres até onde chegou a maldade desse menino e como ele mentiu, fica sabendo que o Ludgero preocupava-se tanto com amores ilícitos que me participou hontem estar noivo da Zuleika Mendonça, filha do sócio do Juventino! — Ainda bem ! — Está claro. A noiva alem de bem educadinha é riquíssima. Fosse ele um rapaz de aventuras e intrigas tolas, absurdas mesmo, e teria tempo para organizar assim a sua vida? Foste ludibriada, minha filha, mas eu espero encontrar ainda esse patife do Jorge e então ajustaremos contas... — Não lhe faças mal. — Ora essa! — Confiei-te este segredo com uma condição. — Deixa-le d'isso. O malandro pôde estar a difamar-le pela cidade, mostrando cartas com a tua letra efazer-te passar pelo que não és. A questão agora é comigo ! — Não me faças arrepender de te ter dito tudo, João. Acreditei nas palavras do pobre pequeno, embora bebedo, como disseste, como acredito na luz deste sol que nos alumia. Tu confias no Ludgero. Tanto melhor. Ficará cada um de nós com a sua crença e não fará mal a nenhum deles. Ludgero casa-se rico. Se por acaso pensou em arquitetar outros amores, terá agora interesse em esconder de toda a gente essas glorias que o podem comprometer aos olhos da noiva rica. O que eu le peço é que o não convides para a nossa casa. Ele já não precisa de nós. — Ora que barbaridade; que tolice ! — Pôde ser que esta minha impressão se desvaneça com o tempo e que eu ainda venha a ser de novo amiga dele... — Mas sem duvida! Olha; só quem conhece como eu, o tipo de alcoólico do Jorge, é que pôde avaliar quanto estás em erro. Mais de uma vez eu ag4 disse ao Ludgero : põe este rapaz do teu escritório para fora. Ele náo quiz, todo piedoso, todo sentimental, está aí! Zelia não respondeu. Revia a figura de Jorge, humilde e triste, junto ás grades do seu jardim... XXII Limando groteos varais de ferro com frágeis instrumentos improvisados por acaso, muitos encarcerados conseguem pela sua pertinácia, cautela e esperança, sair da prisão a que se vêem condenados. Nas horas de silencio e de sombra, aproveitando o sono alheio, eles limam, limam, limam, até verem por terra o obstáculo da sua liberdade. Todo o trabalho continuado e insistente acaba por demolir ou por criar alguma cousa. A Silveirinha tinha músculos de aço. Ninguém a supuzera capaz de tamanha resistência. Ela não afrouxava um segundo na defesa do marido; evitava-lhe as companhias perturbadoras que lhe excitassem o espirito com palestras absorventes ou longas, sabendo escolher os assuntos e as pessoas capazes de o entreterem sem abuso e sem cansaço... Se lhe fazia alguma leitura, estudava-a antes, para não esbarrurcom algum imprevisto perigoso, que de algum modo pudesse prejudicar o seu trabalho de paciência, de insinuação teimosa, comquanto macia. Ao próprio pai, recebia-o com re3 9 6 ceio ; mal lhe sentia os passos no jardim, corria ao seu enconlro, pedindo-lhe que fosse prudente na escolha das conversas ; nada de política, nuda de religião; nada de idéas subversivas, que pudessem alterar a doce paz do convalecente... Ela bem sabia que, no fundo, a maneira de pensar do pai era propensa á do marido e temia que uma palavra sua fosse destruir a obra redentora que ia arquitetando minuto a minuto com tão esforçado empenho. As vezes tinha receios súbitos, como se presentisse o diabo na sombra, á espera de um descuido; e a essa suspeitada e ardilosa vigilância, opunha então toda a sua energia. Um dia atirou as chamas do fogão um livro herelico de Le Danlec, cuja leitura o marido tinha interrompido ao adoecer. Depois, foi outra obra igualmente reçumantc do veneno irreligioso, acrecentar as labaredas da lenha em que fervia a sua sopa. Nessas ocasiões, até os jantares lhe pareciam menos saborosos, talvez mesmo um pouco suspeitos... Não desanimava por isso ; desejaria redimir não só o marido como o mundo inteiro, pela sua fé o pelo seu .sacrifício, Sentia-se como que investida de um poder sobrenatural: era um instrumento nas mãos de Deus. Não sujeitava assim áanalise do seu critério qualquer impeto que sentisse de praticar tal ou tal ação, certa de que a inspiração que a ditara viera diretamente do céu. O seu anjo da guarda, que tão magnificamente a conduzira na vida, pondo-a em face de um descrente, é que a julgava forte bastante para o esclarecer. E não tinha ela já atingido a esse resultado? não o vira já, de rozario entre os dedos, movendo os lábios numa oração silenciosa ? Não tardaria com certeza o dia em que lhe ouvisse a profissão de fé, o credo bemdito, e esse seria o mais belo dia de toda a sua vida. No empenho de atingir depressa esse resultado maravilhoso, tão envolvente se tinha tornado a Silveirinha, que o marido já não sabia estar sem ela nem um minuto. — Agora é que estamos na nossa lua de mel... dizia ele ás visitas mais intimas, que não se cansavam de louvar a dedicação da esposa, tão solicita e previdente. Só á irmã Luiza concedia a Silveirinha uma ou outra vez a encargo de a auxiliar na sua missão de enfermeira... E tão geitosa, amena a perspicaz era a religiosa, que já o Dr. Jordão, antes tão intolerante para com gente de habito e de igreja, gostava de a ver a seu lado, contando-lhe historias risonhas ou narrando virtudes de conhecidos e desconhecidos com que lidava nos vai-vens de angariar donativos para os seus orphams... Com argúcia e tática fina, ela não falava nunca ao medico em religião; respeitava-lhe as idéas, contentando-se com o ir acostumando á conviven17. nfin^rw-w^fir^n j-tf-^-^r nj-iry- -WH-M-I^J—J-H—i-v-a-v—» cia do seu habito de professa... Preparava assim o terreno para as conquistas da ardente Silveirinha ! Padre Pierre tinha-se retirado sabiamente e ao despedir-se, relendo entre as màos assetinadas a mãozinha tremula da sua confessada, sugerira-lhe obediência incondicional á sua vontade, fazendo-a sentir toda a influencia do seu espirito e da sua pessoa. Iluminando-a com o clarão azul dos seus olhos, ele afirmava-lhe que ha só uma força capaz de demover a teimosia de um homem no erro, é o cuidado silencioso mas incessante da mulher em esclareccl-o, mas esclarecel-o sem debates de idéas, porque a fé não se discute. Explicava assim que ela devia evitar os ataques diretos em que a suu argumentação pudesse ser esmagada e concluía que o homem, como as crianças, é levado pela mulher até onde ela o queira levar. O que era preciso sobretudo, para isso, era muita paciência... Ele estaria espiritualmente a seu lado, sempre, sempre, para toda u vida ! Que o procurasse de vez em quando, sem que ninguém soubesse, para que ele a auxiliasse em segredo na sua bela peregrinação religiosa. A Silveirinha reprimia agora por isso os seus ímpetos naturais. Os seus arrufos, as suas impaciencias incontidasde mulher nervosa dissolviamse em serenidade e doçura. Sorpreendendo o marido com o rosário nas mãos, os olhos no vácuo, os lábios desfiando palavras sucessivas, com certeza de fé e de arrependimento, o seu desejo fora correr á igreja e ajoelhar-se diante daquele a quem devia tão grande benefício. A clarividencia do padre Pierre fora milagrosa! O Dr. Jordão cerrou as palpebras, num dos seus sonos frequentos, de fraqueza, e a mulher contemplou-o carinhozamente. Depois, voltando o rosto para a janela aberta, deixou iro seu pensa- .mento até á ramagem verde de umas grandes arvores, cujas copas enoveladas ela via 'a distancia. Eram as arvores do colégio. Grande parte, a maior da sua vida, tinha decorrido sob o ramalhar daquelas formosas galharias. Queria-lhes bem. Via-se a si própria, pequenina, pirracenta, rasgando livros por maldade ou cerrando os dentes aos alimentos para se vingar das admoestações das freiras. Chegava então a passar dois dias sem comer, e com uma fome tremenda... Acostumara-se com o tempo ás disciplinas do pensionato, a que por fim tinha criado amizade, muita amizade, e pouco a pouco, recapitulava cenas e em quasi todas via a Magdalena, ora revolucionando a aula com as suas graças, ora discutindo com as próprias professoras ou criando rivalidades com as outras alunas... A Magdalena tinha deixado o pensionato havia já mais de um anno, quando ela por sua vez saiu... O inverno do Rio fora de con3oO íusão; mas que deliciosa a volta a Petropolis no começo do eslio ! O pai dava-lhe toda a liberdade, ela dirigia a sua vida a seu gosto, emquanto a irmã continuava ainda a freqüentar o colégio e a interessar-se só com o seu estudo o a sua religião... Como única novidade em Petropolis, tinha encontrado o padre Pierre, recém-chegado de França e a quem ela se fora confessar logo na primeira semana, por acaso. A voz do padre, os( seus cabelos louros encaracolados, luzindo como uma aureola em torno do solidéu; as suas mãos muito brancas, de unhas polidas, tinham-lhe causado uma impressão tão forte de novidade, que a relatou com entusiasmo nessa mesma tarde á Magdalena, num passeio á Cascalinha. E já no dia seguinte a Magdalena, curiosa, ia á missa do padre Pierre, para o conhecer e dizer ás amigas que ele parecia S. João na mocidade ! Nenhuma voz de homem linha falado até então com a Silveirinha com um tom tão acariciador e bondoso. Ele penetrara até no fundo da sua alma de menina, para a compreender e a elucidar com a maior delicadeza. A um irmão, filho do seu próprio pai, e de sua própria mãi, ela não teria dito as cousas que lhe dissera a ele, com tamanha confiança e tranqüilidade; porque, via bem, ele era um santo, não era um homem ; era um ser aparte, todo cheio de perfeições. 3fri Lembrava-se : um dia em que ela lhe falara no seu desejo de consagrar-se toda, ao Senhor, fazendo-se freira ele a aconselhara a enveredar por outros caminhos menos suaves. Ela era inteligente, era saudável, porque não serviria antes a Deus criando para a sua gloria uma família inteligente e boa? O casamento é um sacramento religioso — porque não se haveria ela de casar?... A pergunta estonteara-a, e nem sabia explicar como tivera ,coragemde responder: — Mas casar com quem. se todos os homens são unsherejes? O padre sorrira do seu espanto e com a mesma voz de persuasão, embora cheia de doçura, explicara : — E' uma obra de caridade dar a mão aos cegos, ou ensinar o caminho do bem aos transviados... A mulher crente que esposa um ateu e o redime pelo seu esforço continuado e silencioso, cumpre uma obra muito mais gloriosa do que a que se encerra num clauslro... Minha filha, a sua inexperiência da vida fal-a extranhar estas palavras, mas creia que elas são aconselhadas por uma conciencia pura ao serviço do Céu... Tudo isso ele dizia em francês, com uma pronuncia pura, literária, que tornava o sentido das cousas ainda mais bonito. Ela chegava a sonhar com o padre Pierre e ouvia em tudo o som da sua voz... Foi por essa ocasião que, indo visitar uma amiga doente, topou á sua cabeceira com o Dr. Jordão. Que homem hispido e forte lhe pareceu esse doutor, com as suas barbas negras, a sua voz máscula e autorilaria e as suas mãos grandes, de unhas rentes! Os seus olhares se fixaram por curtos momentos, trocaram depois palavras banais de cumprimento; mas o laço invisível que os haveria de unir para sempre, estava lançado. Guiara-a o seu anjo da guarda para os braços do grande pecador... Quando o convalecente abriu os olhos viu a mulher de joelhos, de cabeça erguida para o céu. — Então, Guiomar, que é isso?! — Estou agradecendo a Deus a felicidade de te ver com vida... O medico sentiu os olhos encherem-se-lhe d'agua. A mulher levantou-se, apalpou-o, a sentirlhe a temperatura, e beijou-o docemente na testa. — Tomara ver-te forte... — Para irmos para o Rio. Afinal esta doença veio atrazar-nos em um mez... — E para assistir á missa em ação de graças pela tua saúde ! Fica sabendo que as minhas amigas estão só á espera disso para levantarem acampamento... Algumas até fazem sacrifício em estar aqui. — hmSte mez é tão bonito na serra! — Será : mas não é justo que deixem de tratar dos seus arranjos por nossa causa... 3o3 — Não... Contemplaram-se, sorrindo. Achavam-se ambos mais bonitos. Ele adoçado pelo repouso de espirito, embora emagrecido e pálido; ela com uma expressão imaterial, uma expressão amorosa, nunca antes revelada. — Escuta, Jordão; eu fiz uma promessa a Nossa Senhora... mas é preciso que me ajudes a cumpril-a... não me digas que não, pelo amor ,de Deus! — Oh, filha, e isso não será cousa muito difícil?... perguntou ele sorrindo. — Não... Bastará consenti res em andar com uma raedalhinha benta ao pescoço... muito pequena. — E sentirás, só com isso, algum prazer? — Oh ! um prazer infinito ! — Não bastará trazer no coração Santa Guiomar? — Não basta... Vejo que não me queres fazer a vontade... E ela empalideceu, quasi chorosa. — Quero, sim. Que te poderei negar agora? Vai buscar a tua santa. Ela representará para mim uma cousa divina e de que eu já descria... — O que?! — A revelação do teu amor!... XXlll Os que não encontram a felicidade naturalmente, têm de se dar ao grande trabalho de a procurar e de lhe oferecer ainda por cima preciosidades como penhor; porque a felicidade e egoísta, pede sempre muito àqueles a quem dá alguma cousa... A irmã Luiza incumbiu-se de espalhar por toda a parte o ato de conversão do medico hereje, consentindo em que a mulher lhe pendurasse ao pescoço a medalhinha de Nossa Senhora. No intimo não eslava convencida de que tal conversão fosse uma realidade; mas convinha-lhc fazer-se crédula e ainda mais afirmar aos outros um acontecimento lão prestigioso e de lão liom exemplo. Inteligente, bôa observadora, nada escapava á sua percepção, embora por conveniência muita vez disfarçasse tais qualidades... As amigas da Silveirinha estavam jubilosas. Afinal, o tal doutor tomava juízo ! Por seu turno, a Magdalena contava que, nesse mesmo dia, a esposa gloriosa, tinha corrido á igreja, e inundado de lagrimas as mãos incomparaveis do padre Pierre. Ele parecera impassível aquele 3o5 transbordamento. Decididamente, as explosões sentimentais da Silveirinha, para os demais tão fria, desagradavam agora soberanamente ao padre. Demais a mais, o seu papel com ela estava findo : vivia todo empenhado noutra batalha importantíssima : a de chamar a Looking-glass ao catolicismo. O certo ó que a transvaliana já preferia a tudo, ouvir a palavra suave e acariciante do sacerdote dizer-lhe com aquela expressão tão dele : — Ma douce petite brebis soyez sage... Que Dieu vous bénisse, mon enfant... E a Magdalena imitava a voz do padre Pierre e os gestos angulosos e interrogativos da Lookingglass, o que fazia rir alegremente a condessa, e as outras da sua panelinha. — E digam que ele é um santo... — Nunca disse isso! Para mim padre Pierre diz palavras angélicas com olhares profanos e está nisso o segredo de todo o seu sucesso! As ingênuas caem. As espertas admiram. A Looking-glass é quasi tão estúpida como a Silveirinha... — Você é terrível, Magdalena; não poupa nem os seus amigos... — Que querem? Acostumaram-me a ser desperdiçada desde criança... Para o ano, hei de ajudal-asa angariar donativos para a manifestação do nosso bom padre Gil, e então vocês me considerarão perfeita! 3o6 — Não se incomode. Padre Gil não quer manifestações. E' um sacerdote modesto e virtuoso... — E sujo : já se lhe refletem no cebo da batina todas as cores do arco-iris! — Magdalena! — Precizamos dar-lhe uma escovadela e um sabonete... — Magdalena! — E' a minha opinião. E digam depois que não sou generosa... — Você é generosa de maldades... — Para as não guardar comigo. Se vocês usassem da mesma higiene d'alrna, não se queixariam de insonias. Mas, até amanhã, na missa da Silverinha, e sem rancor! — Até amanhã. No dia seguinte, ouvida a missa em ação de graças pelo restabelecimento do Dr. Jordão foram todos os convidados almoçar na sua casa. Foi como a ultima revoada de andorinhas no ullimo dia de primavera. Tinham já todas as malas prontas para regressar ao Rio e gabavam os encantos da estação passada entre as doçuras da serra. — Foi uma estação deliciosa! — Somente, houve muitas chuvas... — A eterna queixa de Petropolis! — Mas outros dias lindos. — Que manhãs!... — Que noites!... 3 o ; A. condessa confessava-se maravilhada. Nunca á sua curiosidade se oferecera tanto assunto vivo e interessante, como nessa curta crônica de verão... O caso da Silveirinha daria uma peça para o Municipal, se os nossos homens de letras, em vez de imitarem a literatura francesa, se quizessem dar ao estudo das cousas nacionais... Oh, ela achava admirável a Silveirinha, com os seus lindos olhos em amêndoa, o seu rosto oval de linhas tão puras... Aquela, passasse o tempo que passasse, não seria nunca chamada senão pelo nome de Silveirinfia, com que era conhecida desde o tempo de menina pirracenta, autoritária, encantadora. Emquanto alguém na sala afirmava, a respeito da conversão do medico, que só o medo da morte e o poder do amor são capazes de tamanhos prodígios, ele conversava no seu escritório com o sogro e o amigo João Zacarias. — E, agora, meu querido genro, é chegar ao Rio, fazer de novo as malas e partir para o velho mundo... — Não. Mudei de idéa. Saio desta doença com um desejo enorme de trabalhar, de me dedicar todo a uma obra em que antes pensava vagamente, mas que, durante esta apatia da convalecença, se me impoz de maneira a não poder fugir-lhe... Quero escrever um livro sobre a influencia da vida moderna no organismo humano. Para realizar um assunto tão complexo, de causas tão variadas 3o8" e efeitos ás vezes tão singulares, careço de cercarme de uma grande paz, em que o meu pensamento se possa mover tranqüilamente. Quero estudar o meu livro em nosso meio, e todo o tempo me será pouco para indagações, observações e comparações, que só na minha clinica e estudos assiduos poderei realizar. Para conseguir esse ambiente fecundo e pacifico, tive de sacrificar á minha mulher alguma cousa que me é cara, que me é extremamente cara e que ela nunca compreenderá!... Afinal, a felicidade domestica deve ser comprada a todo o preço... E concluiu a frase com um triste sorriso de ironia. O sogro abraçou-o com os olhos humidos, confessando : — Que diabo, ela é que é minha filha, e eu é que lenho medo de que você lhe faça, nesse terreno, concessões demasiadas ! — Não. Limitar-me-ei a usar a sua santinha de ouro ao pescoço e a não discutir religião a seu lado. Ela praticará como entender... Nunca imaginei que isso se pudesse dar... mas é precizo que eu sacrifique as minhas expansões á sua... á nossa felicidade... João Zacarias mordia o bigode, calado, pensando de si para si : — Sim, senhor... é de força a Silveirinha! Quando entraram na sala de almoço, já estavam 3o9 todos á espera, sentados á mesa. Falava-se e riase alegremente. Um criado encasacado começava a servir os pratos de canja. Voltando-se para Roberto Flores, a seu lado, a condessa sussurrou, piscando os olhos míopes. — Veja você como, em tão pouco tempo, tem. sucedido tanta cousa curiosa. Lembra-se da noite do maxixe em casa dos Korsakoff? — Foi outro dia... — Foi em Dezembro, no principio da estação; a Silveirinha ainda era solteira. — E eu também. — Você sel-o-á sempre... A Madame Z. apresentava nessa soirée o tal advogado Ludgero, que era um pobretão. — E o Gastào Soares caçoava das sobrancelhas da Guimarães!... — Tal qual. Pois o Gastão casa-se no sábado com a menina das sobrancelhas e oito dias depois casar-se-áo Ludgero com uma rapariga riquíssima, afilhada do Juventino das conservas. Como o diabo as tece! — A vida náo pára... — Mas nunca andou tão depressa como nesla estação. Creia você, não tive tempo de pegar num livro e foi como se tivesse lido uma biblioteca! Houve de tudo, como nos romances : flirts concientes e inconcientes, lutas religiosas, ardis de sacristia, adultérios, traições, rivalidades cleri3lO cais, invejas, conversões, doenças; que sei eu? Tudo isto me pareceu supremamente divertido... — Mesmo as doenças?! — Ora, você bem sabe que esta do Jordão deu resultados magníficos. — Acha?... — Acho. Sabe que ele mudou de tenção e já não parte para a Europa? Quem vai é a Xaviera com as duas filhas e o marido... — Quem lhe contou isso? a Madame Z? — Sim: e já agora repare para ela. Não lhe parece que está com a cintura muito mais grossa'.'... — E' a vida que continua... — Nesse caso, dê-me champagne, e bebamos juntos á felicidade do porvir. — E a saúde da Silveirinha... FIM