Capítulo XIV A Silveirinha · Capítulo 14 de 20
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Capítulo XIV

Depois de alguns dias consecutivos de chuva e de lama, quando o céu sefas azul e o sol aparece, até as gotas de água encardidas, pendentes dos beirais velhos ou tremelutindo na vegetação, parecem diamantes. Assim, na alma enevoada pela tristeza, quando a esperança surge, ate as lagrimas anteriores resplandecem como cristalizações de neve sobre um jardim de primaveira... Dir-se-ia o primeiro dia de noivado da Silveirinha. Tão amorosa e risonha estava, que o marido atribuiu toda aquela transformação á mudança do clima! Compreendia agora, depois de algumas horas no Rio de Janeiro, que a irritabilidade quasi constante da mulher em Petropolis era uma questão de nervos agitados, amofinados, pela rarefação do ar da montanha. Sentia-se inebriado. Os próprios dissabores sofridos nos seus primeiros dias de casado se lhe afiguravam, observados sob esse critério, como fatos mais graciosos do que mesmo graves. O que provava tudo aquilo é que a sua querida mulherzinha era muito sensível, muito delicada, muito mulher, em suma. ig3 Na escolha da casa para a sua residência definitiva, eram tais os cuidados que a Silveirinha revelava pelo marido, que o enterneciam e o envaideciam... Tal casa não lhes servia, por ficar demasiadamente longe da cidade, o que o obrigaria a verdadeiras viagens cansativas, cada vez que tivesse de ir para o seu trabalho ou voltar. Para ela, a casa servia, tinha até todas as comodidades requeridas para o conforto a que estava habituada; mas não era egoísta, queria em primeiro lugar o bem estar do seu marido...Num outro prédio não encontrava aposentos independentes para o seu consultório e os seus estudos. Ah, ela não tinha ciúmes dos livros! Desejava que o esposo tivesse uma boa sala para biblioteca! Aborrecida com o que via, aconselhava : — 0 melhor será construirmos uma casa, de modo que você possa ter um pavilhão para os seus livros e os seus clientes, ligado aos nossos aposentos por uma galeria envidraçada, que eu trarei sempre cheia de flores... — Mas, entretanto, precizamos decidir-nos por uma destas, e quanto antes, que estou morto por me ver cá em baixo. Estes ares são melhores para ti, sabes? — Do que os de Petropolis?! — Sim. A Silveirinha riu-se. i g 4 — Podes crel-o! — Para te ser agradável... Realmente, nesse dia, a Silveirinha parecia náo ter outro propósito senão o de ser agradável ao marido. Como tivessem consumido muitas horas na escolha da nova residência, resolveram ficar no Rio até á manhã seguinte. Na hora de maior bulicio a Silveirinha confessou : — Esta cidade entontece-me. Nem posso conceber que haja outro lugar no mundo tão barulhento. A minha primeira impressão, sempre que desço de Petropolis, é quasi de susto. Sinto um mal-estar exquisito, tal qual como se o meu corpo tivesse passado de umas mãos finas e macias para outras ásperas e calejadas... Como o marido respondesse a essa observação com um olhar de extranheza, ela emendou logo : — Ah, mas é uma questão passageira. Quando chega o inverno, sinto-me aqui como um peixinho na água... E' o meu elemento. E rompeu logo a fazer projetos : daria as suas recepções ás terças-feiras, para evitar maçadas de ter visitas todos os dias! O que exigia, desde já, era uma assinatura para a estação extrangeira do Teatro Municipal. Queria que a vissem bem elegante ao lado do seu maridinho na platéa. Contava que ele contratasse automóvel para os ir levar e buscar todas as noites, não? . — S i m . . . *'• If)5 — A grande maçada vai ser a escolha de criados. Quero um copeiro japonez e uma criada de quarto francesa. Quanto á cozinheira, essa poderá ser nacional, desde que seja asseada... Eu não estou disposta a perdoar desleixos nem a aturar que se intrometam na minha vida. Vês aquela portuguesa que temos em Petropolis como quer dar a sua opinião em tudo? O Dr. Jordão sorriu. 0 automóvel em que iam percorria então a Avenida Atlântica. Todo o poente estava iluminado por faixas e castelos de nuvens magníficas. Maravilhado pela beleza do espetáculo, daquele mar infindo brochado de cores sumptuosas, ele pegou na mãozinha indolente da mulher e disse, num desabafo, embora em voz quasi murmurada : — Emfim, minha Guiomar, encontrei hoje em ti a mulher que procurei em toda a minha vida de homem; a doce companheira do meu pensamento, interessada pelo meu trabalho, pelo meu conforto e pela alegria que torne o nosso lar sociavel e ameno. Os meus ideais foram sempre os de poder oferecer a uma esposa que me entendesse e estimulasse com a sua presença e a sua bondade, os triunfos e as glorias que tivessem de compensar o meu esforço. Como poderia eu ser feliz se minha mulher fosse inimiga dos meus livros e de um tal egoísmo que não quizesse em casa os seus e os meus amigos? Desde os primeiros tempos de estudante, que eu, sem mãi, sem irmãs, pensei no futuro que hoje vejo realizado, de ter a meu lado, para sempre, uma mulher honesta e boa. 0 homem de ciência preciza, mais do que nenhum outro, de um lar consolador, que lhe adormeça o espirito cansado de tantas investigações faligantes e perturbadoras. Trabalhamos para o bem da humanidade, precizamos sentir de algum modo o seu influxo benéfico. E eu tive medo, meu amor, eu tive um medo horrível de que tivesses nacido para um destino diferente daquele que eu desejava... O teu espirito parecia-me em tamanho desacordo com o meu, que esse parecer era perfeitamente justificado... Mas hoje a tua alma rompeu o casulo de nevoas em que se envolvia, para mostrar-se aos meus olhos tal qual eu a sonhara. Este é que é o verdadeiro dia do nosso noivado; agora é que vamos formar a nossa vida comum, ó que vamos imprimir o cunho da nossa individualidade ao nosso lar definitivo, criado pelo nosso amor e pela nossa razão. A casa de Petropolis foi um ensaio de inexperientes. Entraremos nesta do Rio fortalecidos pela idéa de querermos e devermos ser felizes. Eu farei tudo para isso. E tu? — O que puder... — As mulheres podem o que querem... — Pois eu não desejo outra cousa senão fazerte feliz... Mas estamos sendo imprudentes... o chauffeur pôde ouvir... I97 — Não ouve... Nós falamos tão baixo... Ao mesmo tempo que ouvia o marido, a Silveirinha pensava, com os olhos fitos no horizonte rubro, que, pela força da sua oração, do seu sacrifício e dos conselhos do padre Pierre, que emfim voltava para ela, salvaria ainda aquela bela alma das condenações irremediáveis e eternas! E seria o grande, o maior dia da sua existência, aquele em que o marido, este amargo homem de ciência, que só a ela e aos livros ímpios pedia consolação na terra, se ajoelhasse e murmurasse, convencido e penetrado, o santo nome de Deus! E o grande dia havia de chegar, porque o padre Pierre não a desamparava e lhe ensinaria palavras de convencimento. E era a idéa dessa reconciliação que lhe mantinha nesse dia a alma tão alegre e tão feliz. A' noite foram ao teatro. O medico teria saído no fim do primeiro ato, mas viu a mulher tão interessada e risonha pelas banalidades complicadas da cena, que se deixou ficar até ao fim, gozando a doçura de a ver contente. E antes de voltarem ao hotel, ainda ela quiz tomar um sorvete, durante o qual falou sempre, com a volubilidade de uma criança, toda fulgurante de espirito e de graça. No dia seguinte, ao tomarem o trem para Petropolis, o medico levava a convicção de ter começado, desde a véspera, uma existência nova. Via nacer a confiança da mulher no seu amor, e tanto I98 que, ao primeiro arranco do trem, cie lhe disso baixinho : — Guiomar! Acreditemos quo nos casámos hontem, sim?... E como ela abrisse para ele olhos de espanto, interrogativos, continuou : — Esqueçamos os outros dias, em que não chegámos a nos compreender. Bem vês que náo é difícil ser feliz... « Se é! pensou ela. A minha felicidade comprala-ei a custa de grandes sacrifícios e de grandes lutas... Não é difícil ser feliz aos inconcientes ou aqueles que não ligam á vida senão o sentido sensual do momento. Mas para os que esperam, os que pensam na eternidade e em bem servir a Deus na terra, para vel-o de perto depois da morte, para esses certamente que não é fácil o ser feliz! • — Agora, que já temos casa no Rio, continuava o medico, precizamos tratar da mudança. Não imaginas a minha anciedade! « No Rio, como em Petropolis, como em toda a parte, continuava a pensar a Silveirinha, eu náo descansarei nem um segundo na minha campanha sagrada, até vel-a triunfar! » Foi com antipatia que o Dr. Jordào entrou no seu chalet petropolitano, onde tinha deslizado o seu primeiro tempo de noivado. Felizmente a estação acabava, e dentro de poucos dias ele estaria noutra casa, em face de outra I99 mulher. Porque a sua Guiomar era absolutamente outra criatura no clima de beira-mar! Começaria ele então a existência para a qual nacera : a do estudo e do trabalho pacifico com o amparo confortador de um espirito sutil e de um coração meigo de esposa. Depois viriam os filhos coroar o seu outono de flores virentes; e tendo criado a família pelo seu amor e conquistado um nome nobre pelo seu trabalho e a sua inteligência, poderia considerar-se um homem verdadeiramente feliz!

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