Capítulo XVII A Silveirinha · Capítulo 17 de 20
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Capítulo XVII

Os maiores desastres, como os mais brilhantes feitos, têm muitas vezes origem em fatos insignifteantissimos. — Não, hoje não quero café simples. Traga-me café com leite e biscoitos, disse o Dr. Jordão á criada que o servia na sua sala de jantar, ás sete horas da manhã. Sentindo que alguém se aproximava, voltou-se, admirado de ver a mulher já de pé. — Que é isso, você hoje madrugou? — Não pude dormir quasi nada esta noite, pensando que você hoje vai fazer uma autópsia. Ele riu-se. — E ainda você ri! — Então, filha, seria preferível que eu chorasse? 0 que posso prometer é não causar dores ao defunto... — Não é pelas dores, é pela repugnância; veja como estou toda arripiada. E erguendo as mangas do roupão de rendas, mostrou ao marido os braços finos, com os pelinhos erriçados. Depois de uma jão, continuou: 2 2 0 — Se eu fosse você, mandaria dizer no Diretor do hospital que encarregasse outro medico dosso serviço. Ainda está em tempo. — Náo. E' um caso de estudo porque me interesso. 0 que te peço é que dominós os teus nervos e não te mostres assim tão irnprossioniivcl... Soria ridículo que eu me furtasse aos deveres da minha profissão pela simples repugnância do tocar num cadáver... — Faze isso ao menos por mim... Acredita que até sinto aflição em olhar para as luas mãos e imaginar que elas vão mergulhar num corpo morto e que depois virão tocar no meu. O Dr. Jordão tornou-se sério : — Isso também é demais. — E' o que sinto ; que queres? — Quero que entendas as cousas como elas são eque não olhes para as mãos corajosas e bom intencionadas de um medico, como quem olha paru as mãos de um assassino. A mulher de um homem de ciência não deve ser tão pueril. A Silveirinha mordeu o beiço, contrariada. 0 marido continuou, já sorrindo : — Descança, que só voltarei para casa depois de bem lavado, escovado e desinfetado. Em vez de estar pensando no que vou fazer lá fora, disfarça os teus pensamentos dando um passeio ou preparando as malas para a nossa partida para o Rio. Estou ancioso por me ver lá, com a minha 2 2 1 vida organizada e feliz. Havemos de ser muito felizes, não é verdade, Guiomar? — Sim... por que não? — Mesmo os teus nervos, no Rio, hão de-se conservar mais socegados... — Os meus nervos... mas eu nunca tive ataques! — Nem terás. — Por que ? — Porque eu não quero. — Se isso bastasse... — Basta. Agora aconselho-te estes biscoitinhos e depois um passeio a pé pelas avenidas. A' volta tratarás dos teus arranjos. Não estás também com vontade de voltar para o Rio ? — Estou... apezar de que ainda faz calor... Silveirinha era sincera. Desejava já também organizar a sua casa na Capital, e então no socego da sua vida definitiva, estudar o modo de realizar a conversão do marido. Morria por se ver longe de tantas amigas buliçosas e futeis e cuja influencia agora a irritava. Em Petropolis os seus passeios eram curtos. A mais pequena das suas caminhadas era interrompida varias vezes por indagações desta ou daquela conhecida que, por estar de posse do seu segredo, se julgava com o direito de lhe pedir informações de tudo. Já não podia suportar a Baltazar Luz, que a não via que lhe não perguntasse : — Então, meu bem, já 2 2 2 fez as pazes com monsenhor Pierre? — nem tolerava, sem enorme constrangimento, ver com freqüência o sorriso escarninho da Magdalena, irônica e enigmática, desdo os últimos tempos do colégio... Os próprios olhinhos indagndores da condessa, dois anzóis disfarçados em pupilas castanhas, lhe causavam como que ume impressão de angustia que não sabia definir... Anciavn pela grande cidade, onde pudesse ter liberdado citação e de pensamento, e trabalhar com segurança e livre de curiosidades, pela conversão do marido. O Dr. Jordão saiu para a rua e ainda a mulher ficou sentada á mesa, mexendo distraidarnente com a colherinha o assucar do café e a fazer bailar na ponta do pé cruzado a sua sandália do pelica branca. — A senhora vai sair ? perguntou-lhe n criada. Se quizer, ainda poderá alcançar a missa das oito... Era a missa do padre Pierre. Guiomar não teve coragem de perguntar á criada por que lhe fazia semelhante aviso. Imaginou que houvesse uma intenção suspeita naquelas palavras e esteve para responder mal; mas suspendeu-se a tempo '• ordenou no tom mais natural : — Hoje não é domingo nem dia santificado, para eu ir á missa. Vou sair só para fazer exercício. Arranje-me o banho e ande depressa. A criada replicou, ao mesmo tempo que ia saindo da sala : — E' que a senhora ao principio ia também, ás vezes, em alguns dias da semana, á missa do padre francêz... Foi só por isso que eu perguntei... A Silveirinha conteve a custo um gesto de impaciência e levantou-se. Era de mais! Até dentro de sua própria casa, até as suas criadas, se julgavam com o direito de lhe falar na sua devoção pelo padre Pierre! Db>se-ia, pelo seu embaraço, que ela cometia um crime, quando todo o seu empenho e esforço era cumprir uma obra de piedade, de amor conjugai e de religião ! E o seu critério aconselhava-a a despedir essa criada intrometida, na véspera da partida para o Rio, onde arranjaria gente nova para o seu serviço, uma francesa e um japonez, que ignorassem completamente todas as particularidades da sua vida passada. Entretanto, se não fosse o receio de topar na igreja com a Magdalena, agora tão cozida á batina do monsenhor, gostaria de ir a essa missa das oito, anunciada pela sua criada, e fazer-se ver contrita e humilde pelo seu diretor espiritual, o seu antigo confessor... Não deveria partir dela o primeiro passo para a reconciliação ? Uma lagrimazinha, mais de despeito que de saudade, humedeceu-lhe a franja das pestanas. Daria alguma cousa da sua vida para saber se o padre. Pierre não teria, de vez em quando, o pensamento voltado para a sua pobre pessoa... 0 que lhe dissera a condessa fortificava o seu animo, mas não teria a condessa exagerado? Elo tinha-a repelido, tratado como a uma importuna, na sua ultima e nunca esquecida entrevista; mns não teria ela provocado aquela atitude por um ato demasiadamente franco, ou por qualquer palavra imprudente ? Quem sabe se, afinal, a culpa não lhe caberia toda a ela, a ela só 1 A Silveirinha fez a sua toilelte dispensando o auxilio da criada e saiu para a rua, pensando em ir até á casa do pai. A manhã estava clara e cheirosa. Ela deixou n calçada e seguiu beirando o rio, cujas águas tinham engrossado com uma chuvarada da véspera. No fim de uns cem passos, ao entrar numa ponte, esbarrou com a D. Clara, que fazin todos os dias uma longa caminhada a pé para emagrecer e que trazia aconchegada aos seios gordos a sua cadelinha Ca titã, de focinhilo esperto. Houve exclamações. — Oh, você por aqui! como está ? — Bem. Que linda manhã... — Um pouco quente, não acha? Vai ao padre Pierre? talvez ainda alcance um resti nho da missa... — Saí para dar um giro e ir visitar minli;i irmã. Agora, missa só aos domingos... — Só ? ! Começam as concessões, hein? A Silveirinha franziu os sobr'olhos e apressou as despedidas. Começava a achar desaforo que todo o mundo se quizesse meter na sua vida com perguntas e conselhos. Que podia importar a D. Clara que ela fizesse ou não fizesse concessões ao marido, para lhe vir fazer perguntas em ar de mofa ? E o modo como ela dissera, aparentando solicitude : « Vá, que talvez ainda alcance um restinho da missa... », como quem dissesse a um faminto desgraçado, á guiza de consolação : « Corra, que talvez pilhe uns restos do jantar já servido aos outros! » Decididamente, precizava partir para o Rio, para a sua independência... a grande independência das cidades grandes! Mas, antes disso, era indispensável falar ao seu diretor espiritual, aproximar-se dele, pedir-lhe orientação, voltar á doce confiança dos dias passados, em que ele lhe incutia animação e coragem. Sem saber como, como se tivesse sido levada só pelos seus pés, caminhou para a igreja e entrou. Havia poucos fieis. A missa terminava. A luz radiosa da manhã, penetrando pela rosacea aberta acima do coro, desenhava uma renda de sol e de sombras no altar-mór. A cabeça loura do padre Pierre resplandecia na claridade intermitente ; dir-se-ia a Cabeça de um santo tocado pela graça divina. Silveirinha estremeceu e parou indeciza. Não 13. 2 2 6 seria melhor voltar para 1'úra e seguir sob u» arvores o caminho interrompido? Não desobedecia ela assim á vontade de monsenhor, procurando vèl-o na casa de Deus ? O seu desejo era mais forte do que o seu raciocínio. Embora a razão lhe dissesse : — volta para traz — ela deixou-se ir para diante, de modo a que padre Pierre pudesse vel-a quando sn voltasse para a assistência. Estava certa de que, contemplando-a ali, humilde, modesta, toda contrita e fervorosa, ele lhe perdoaria, apiedado do seu sofrimento, — o arrebatamenlo estouvado com que o tinha melindrado. No fundo da sua conciencia não percebia de como o poderia ter ofendido, mas alguma coisa com certeza muito grave ela devera ler dito para merecei- dele castigo tão severo... Quando o padre Pierre se voltou para os fieis, viu a Silveirinha rente aos degraus do altar. Os seus olhares cruzaram-se. O dela cheio de supplicas, o dele frio e apagado. Era como se tivesse visto uma indiferente. Depois, ele seguiu para a sacristia imperturbável e sereno e ela curvouse, batendo no peito, já arrependida. Quando se levantou, não havia ninguém na igreja. Quedou-se uns instantes de pé, n olhar, á espera ainda que ele voltasse e viesse trazer-lhe uma palavra de perdão e de bondade. Gomo ele não voltasse, ela saiu inconsolavel. Querendo dar um passo para abreviar uma reconciliação, talvez tivesse, com a sua desobediência, cavado mais fundo o abismo que a separava do seu antigo confessor e maldizia por isso o seu temperamento de mulher impaciente e nervosa. Que seria da sua vida sem o apoio moral e forte do padre Pierre? Sentia cada vez menos força para lutar sósinha, não acreditando no êxito das deliberações tomadas por inspiração própria. Naquele abandono naufragavam todas as suas esperanças, todos os seus sonhos de um futuro tranqüilo, abençoado de Deus... Fora, em vez de seguir para a casa do pai começou a andar sem destino. Subiu, deceu varias ruas, cumprimentou varias pessoas, com o pensamento alhures e o ar abstrato. Houve um momento em que perguntou a si própria, como, não sendo a sua natureza de humildades e submissões, se deixava assim dominar pela idéa e a vontade de um só homem. Porque não corria ela a outro padre, mais simples e mais claro no modo com que a elucidasse no caminho a seguir? Logo, porém, o seu espirito repelia a intervenção de outro qualquer sacerdote na historia do seu amor. Nenhum dos que conhecia tinha, a seu vêr, a elevação intelectual e o prestigio daquele a quem tinha confiado o seu coraçào perplexo e cheio de fé. Depois de andar quasi uma hora, a esmo, pelas ruas, Silveirinha aa8 voltava para casa, quando, ao dobrar do uma esquina, esbarrou repentinamente com o padre Pierre, que lhe sorriu paternalmente, cstendendolhe a mão branca e asselinada : — Eh bien, ma douce petite brebis, ne soyez pas impatiente... Dieu vous aidera, parce que je priepour vous et le bonheur de votre ménage... — Oh, monsieur Vabbé, que jai souffert! mais dites, dites, est-ce que vous me pardonnez t A voz da Silveirinha saía comoquo estrangulada e todo o seu corpo se convertera em gelo. — Mais oui; mais oui, mon enfant!... Soyez prudente. Je pense à vous, toujours... — Toujours! Et est-il vrai que vous allez vetnr à Rio et quej'y peux compter sur vous? — Oui; vouspourrez compter sur moi, mais à Ia condition d'être obéissante... AUez-vous-en... votre mari vous attend peut-être; allez-vous-enl... — Que je suis heureuse ! — Taisez-vous... adieu! Ele sorriu e passou ; a Silveirinha sentia que a aliviavam de um peso enorme, como se lhe tirassem um pedregulho de sobre os hombros. Abençoado céu azul daquela manhã: abençoadas águas límpidas que deslizavam frescas e mansas a seus pés; abençoadas arvores que a cobriam com a frescura da sua sombra, porque ream testemunhas daquela hora de suprema alegria e de consolação... A Silveirinha entrou em casa cantando a toda voz uma das suas árias prediletas. Trabalhou com ardor nos seus preparativos de viagem, separando objetos, e escrevendo algumas cartas de despedida. E tudo correu alegremente até a manhã seguinte em que o Dr. Jordão acordou, queixando-se de arepios, de frio e de febre. E quando a mulher, solicita, indagava qual seria a causa daquele incomodo inesperado, ele mostroulhe com um ar de tristeza a mão direita em que aparecia um pequeno ponto apostemado. — Que foi isso ? — Foi o teu alfinete... lembras-te ? piquei-me no teu alfinete... antes de hontem... — Mas, meu Deus, eu tenho-me picado tantas vezes em alfinetes e nunca me aconteceu isso... — E' que depois de te teres picado não fizeste nenhuma autópsia... — Certamente que não ! E o que tem isso ? — Tem, que por esse furinho quasi microscópico me pôde ter entrado a morte no corpo... — Hein?! — Não te assustes e manda chamar um medico. Vou vêr agora a tua resistência, minha pobre amiga... A expressão do medico era séria e triste. A Silveirinha saiu do quarto impressionada. Seria possível ? Não estaria o marido enganado ?

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