Capítulo XIII A Silveirinha · Capítulo 13 de 20
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Capítulo XIII

Tanto a mentira é imaginativa e Irefega, quanto a verdade è serena >: confiante... A Xaviera cançava-se. Havia já alguns diasque inventava ciúmes do marido, para fugir ás assiduidades de Ludgero, assim mais espicaçado pelo desejo e a paixão. Encontravam-se menos vezes, mas sempre em beijos rápidos e violentos; ele orgulhoso por ter por amante uma mulher casada, conhecida em todo o Rio, e ela vaidosa por tel-o disputado a uma amiga tão intima, como a Z. E nisso consistia a sua única ventura, porque entrava a embirrar com a côr da pele acaboclada do Ludgero, com os seus gestos ainda angulosos e a maneira adocicada como pronunciava os ss. Atravéz da caligrafia do Jorge nos seus dias de exaltação alcoólica, continuava, entretanto, o advogado a escrever-se a si próprio cartas de amor que, se pelo estilo não podiam ser comparadas, pela veemência egualavam as da Religiosa Portugueza. Por esse processo original da sua exclusiva invenção, tinha ele cartas da Xaviera l82 A SILVEIRINUA com que acalmaria, em caso de tempestade imprevista, os zelos do Zacarias; e cartas da Z., para as prováveis crises ciumentas do marido da Xaviera. Considerava-se por isso um heróe á Dumas. Os seus planos morreriam com ele, mas só depois de lhe terem assegurado um grande êxito na vida. Para que a doce historia dos seus amores lhe desse o prestigio desejado, denunciava-a ás vezes a certas pessoas em pequonas cortas anônimas, que eram um prodígio de perfídia habilidosa. Queria que se soubesse das suas aventuras, na certeza de que esses escândalos atrairiam para a sua pessoa a atenção curiosa da sociedade que se propunha a conquistar* Ah, ele náo viera da província, para se deixar apodrecer de miséria, ou bater solas remendadas pelas ruas cariocas ! Viera para vencer, haveria de vencer: mesmo que para subir tivesse de fazer uma escada de mulheres... Com que não contara fora que a Xaviera o empolgasse, e lhe acendesse na carne de cínico a fogueira de instintos que supunha para sempre dominados por outras aspirações mais praticas e mais ferozes. O que não imaginava, era que a sua alma felina, tivesse encontrado na da amante outra, de gata mais esperta. Agora, iludia-o ela alvoroçando-o com a narração de suspeitas do marido, que dizia trazel-a sob uma vigilância incançavel e terrível. E ele acreditava nessas historias l83 como um estudantinho de preparatórios no seu primeiro ano, quasi infantilmente. Era tempo de executar os planos estudados atravez das falsificações do Jorge. Mas como? Para que a Xaviera o amasse mais, com o ardor e a fúria do ciúme, tinha-lhe contado coisas extraordinárias, perseguições amorosas, que ele sofria por náo saber como defender-se, sem ofensa para H perseguidora... Afirmava estar agora habilitado «compreender a situação do pobre Josédo Egito por tantos imbecis ridicularizado... E dessa indireta derivara-se a confissão inteira, com o nome de Zelia e a nrova da sua loucura, numa carta queixando-se de o não vêr em Petropolis á hora em que o marido gemia doente no fundo de uma cama... A tática produzia efeito; Xaviera entusiasmava-se ; até que, certa do seu triunfo, começou a •squivar-se e a criar impecilhos, a falar dos ciúmes do marido... Um dia em que a esperava, Ludgero recebeu um aviso lacônico : « Impossível. Ele espianos. » O advogado deu um murro na mesa e saiu para a escada, batendo a porta. Se pudesse matar aquele maldito fabricante de conservas, fazendoo ingerir de uma assentada todo o vinagre que ele impingia aos autros! Mas o maldito parecia eterno, com as suas l 8 4 faces rubicundas e o seu largo peito de lutador romano; e o mais prudente seria temel-o e evitarlhe um momento de cólera, cujas conseqüências não poderiam deixar de ser memoráveis. Ludgero gabava-se intimamente do ser um homem sensato e precavido, um homem de sociedade, que se não desordena em gestos de fúria; quasi sempre perigosos, em todo caso, nesse dia náo se pôde conter que não tivesse imprimido á mesa inerme a forte sacudidela dos seus nervos vibrateis. Depois saiu para a rua; para quê ? nem ele o sabia; para fazer alguma coisa; para andar. Mas logo ao descer da escada viu a passagem interceptada pela figura de um estafetaque lhe apresentava um telegrama. Abriu-o. Era de João Zacarias e dizia: « Peço-lhe ir esperar amanhã Zelia estação. Ela irá depois 3 horas seu escritório buscar papeis Banco. Previna-se. ZACARIAS. > Ludgero retrocedeu; passeou no seu escritório de um lado para o outro, indeciso, pensativo, até que, tomando uma resolução, atirou-se para casa da Xaviera. A criadinha que lhe veio abrir a porta, sorriulhe em ar de cumplicidade canalha e correu adizer l85 á senhora que o Dr. Ludgero a esperava na salinha verde... Nesse diá, não foi com vexame que ele se mirou no cristal do espelho sobre o gueridon de onix esmeralda e mármore branco. Era prodigioso como se tinha transformado em tão curtos mezes ! Era outro. Tão certo é que nada pôde dar tanto prestigio a certos homens como a tesoura de um bom alfaiate. Mas não era só a elegância das suas casemiras bem talhadas que imprimia ao moço advogado um ar distinto; era a própria expressão do seu rosto e o feitio do penteado, que lhe desnudava mais a testa. Xaviera apareceu contrariada e aflita falando depressa, baixo e nervosamente: — Que imprudência ! você quer comprometermo? Vir a esta hora, e demais a mais sem me avisar! — Escute! — Não posso. E' hora de meu marido vir para casa. Você bem sabe que ele desconfia ! — Pois é por isso mesmo. — Ora essa ! — Escute: vim para acabar de um só golpe com essas desconfianças. Não ignora que a sua amiga continua a perseguir-me com insistência... — Parece incrível... — Não perca tempo com duvidas. O fato é que é assim. Ele sorriu vaidosamente. l 8 6 — Fale, depressa! — Você tem uma das cartas que ela me mandou ; porque não a deixa ser encontrada por elo, como por acaso? Não me compete a mim, mostrar cartas da Z. a seu marido ! — Nem a mim. — Mas se ele a encontrasse ? — Como? — No chão, ou no seu colo, no dia em que, á sua vista, abrisse a sua correspondência de Petropolis... Essa carta poderia vir para mim por seu intermédio... — Nunca. Meu marido não me perdoaria... Nem a minha conciencia tão pouco. — Oh, a conciencia! — Seria uma torpeza.,, não; isso não. — Ha também outro meio... Ela escreveu-me dizendo que amanhã descerá só e só para ir ás três horas ao meu escritório... — E' impossível! — Verá. Verá se quizer- Lembrei-me que você poderia passar com seu marido a essa mesma hora por minha casa... — Para quê?! — Para saber. Vendo a Z. subir ao meu escritório, você fará um comentário elucidativo; elucidativo mas caridoso, desses que as mulheres sabem fazer ás amigas rivais... e assim a torrente das suspeitas de seu marido secaria dechofre! — Você não pôde receber a Z.! — Não tenha ciúmes... eu a conduzirei para a janela, de modo que poderão até observal-a de fora... Valeu? — Nós não havemos de ficar parados na rua, a espera de a ver entrar ou sair. — Lá em frente ao escritório ha uma leiteria com as mesas bem perto da porta; nada a impedirá de ter vontade de tomar um copo de leite e de prolongar esse prazer pelo tempo que lhe parecer conveniente... Os olhos de Xaviera ardiam numa expressão de curiosidade e de raiva. Ludgero quiz beijal-a ela recuou rapidamente e saiu para o vestibulo. — São horas... fuja! Ele fugiu. Xaviera não o enganara. A pouca distancia, o scubond cruzou-se com outro em que voltava para casa o fabricante de conservas Juventino Teixeira. {Jumprimentaram-se rasgada e risonhamente. v « Na vida, pensava o advogado, só os imbecis deixam de jogar grandes cartadas. Eu lanço nestas o meu futuro. Todo o homem amado é interessante, mesmo aos olhos dos outros homens... Evitando os perigos nenhum deve por isso fugir á publicidade de certas imperfeições que lhe dão prestigio... Afinal, a Madame Z. é séria e é uma excelente amiga; mas também por isso eu não a comprometo diante de todos, mas só, e muito parl 8 8 ticularmente, deste casal de Íntimos, que por sua vez a não comprometerá... Passados meia dúzia de dias, já nenhum de nós pensará nesta aventura modesta, cuja torpeza ficará sepultada dentro de mim... E' triste que eu tenha de me servir deste recurso, mas a culpa nãoé minha: sou empurrado... sinto-me levado pela enxurrada davida moderna... epela necessidade de conquistar a fortuna... Mas como tarda a fortuna ! » No dia seguinte, ás nove horas da manhã, estendia ele a mão a Madame Z. para fazel-a decer do trem: — Gomo está, minha senhora? , — Bem.Eo senhor? — Admiravelmente. — Vê-se-lhe pela fisionomia. Sabe que venho com a incumbência de trazer e levar papeis de negócios seus e de meu marido ? — Ele avisou-me. Os papeis estão prontos... — Trago outros aqui, na bolsa. Quer que lh'os dê já? — Será melhor no automóvel, que está á nossa espera... — Para que automóvel ? nós poderíamos ir taõbem de bond... — E' muito mais rápido. — Isso é... — As crianças boas ? — Oh, elas em Petropolis gozam de uma saúde de ferro! E é por esse motivo que não desejo voltar tão cedo para o Rio... — Tem razão. Isto ó insuportável! — Já se cançou ? ! — Náo. Em todo caso, agora eu preferiria Petropolis. Tenho sentido muito calor! — A diferença de temperatura é na verdade imensa. — Para onde quer ir? — Para a casa de minha sogra. Rua do Conde deBomfim... — Sei. Permite-me que a leve até ;í porta ? — Não se incomode. Estou habituada a andar só. — Não é incomodo; é até um prazer. Tanto mais que assim descançarei um pouco... E o automóvel partiu, seguido por um olhar do espanto do condessa e da Silveirinha. — Que teriam eles dito um ao outro, hein? — E' atéondepóde chegar a sem cerimonia... ' — Se as grandes virtuosas fazem destas, que se dirá das outras ?! — Realmente... As horas da manhã corriam céleres para a Madame Z. cumulada de trabalhos diversos ; e tanta anciedade linha de concluir tudo e voltar para o socego do seu cantinho que, ás duas horas, subiu as escadas do escritório do Ludgero, não tendo paciência de esperar pelas três. 11. i g o Em cima, na sala encardida, só encontrou um rapazinho de olhar sonolento, reclinado no sofá. — Não é aqui o escritório do Dr. Ludgero Dias? — Sim, senhora. — Ele não está? — Não, senhora. Madame Z. calou-se. Estava linda, apezardo seu ar um tanto desapontado. Jorge tinha-se erguido respeitosamente e contemplava-a com certa admiração. O gesto sereno, a dignidade do porte daquela senhora, o som da sua voz doce, de inflexões quasi meigas na própria banalidade das frases que dizia davam-lhe a impressão de estar em frente de uma criatura superior, única na terra. — Não sabe a que horas ele virá, ou se teria deixado alguns papeis para mim? — Não sei... Madame Z. descalçava as luvas vagarosamente. Jorge apreciou-lhe a alvura dos mãos e o rosado das unhas. — Poderá dar-me papel e pena para eu lhe escrever duas linhas ? — Pois não... E Jorge poz sobre a mesa uma folha de almaço e abriu o tinteiro. Madame Z. sentou-se e essreveu. Minutos depois, erguia-se, cumprimentava o moço, embaraçado, recomendando-lheque senão i g i esquecesse de apresentar aquelas linhas ao Dr. Ludgero, e saiu. Vendo-a desaparecer no fim da escada, Jorge aproximou-se da mesa e olhou para o almaço que permanecia desdobrado sobre a pasta, grafado por uma letra firme e larga, que ele reconheceu logoáprimeira vista.Teve um sobresalto; o coração como que lhe deu uma cambalhota no peito. Seria possível?? Era então daquela mulher nobre e distinta a caligrafia que ele imitava em cartas e em bilhetes impudicos e comprometedores ? Sentiu que uma onda de sangue lhe subia ao rosto e ergueu o papel da mesa com mãos tremulas. Seria possível?! repetia ele, como que duvidando dos seus próprios olhos. Madame Z. tinha escrito: « Dr. Ludgero. — Não podendo voltar hoje ao seu escritório ás três horas, peço-lhe encarecidamente o obséquio de mandar os papeis de meu marido á estação. Parto no trem das quatro. Sua amiga, muito grata. — Z. Zacarias. »

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