II. Semeando o Vento
II. Semeando o Vento
O silêncio dominava o aposento, salvo pelo ponto, ponto, ponto de uma mulher que já ultrapassara o primeiro viço da juventude e que, tendo começado a bordar apenas para passar o tempo, agora enterrava a agulha ferozmente no bordado, como se estivesse decidida a arrancar algum segredo do coração dos fios sedosos da vida.
Pouco depois, começou a chorar, lágrimas ardentes e abrasadoras que brotavam da paixão de um coração que buscava repouso e não o encontrava.
As cortinas estavam fechadas e, à exceção do fogo incandescente que um jovem estudante atiçava sem razão alguma, a atmosfera do aposento, no que dizia respeito àquelas duas almas, harmonizava-se estranhamente com a neblina do lado de fora. Eram marido e mulher, aqueles dois, ao menos perante Deus. Por sua livre vontade, ele a cortejara na distante África, e ela lhe correspondera. Mas isso fora muitos anos antes. Ela, então, uma moça robusta e vivaz; ele, um jovem inteligente da Universidade Nacional. Ela, agora na Inglaterra, apenas uma babá; ele, um estudante bem-sucedido, preparado e pronto para conquistar o mundo inteiro. Sim, eram marido e mulher, aqueles dois; entretanto, ambos se sentiam constrangidos, e o jovem de bom grado teria se entregado às ternas misericórdias da neblina londrina. Mas não podia ir. Era a lei da compensação. Estava devidamente preso nas próprias malhas, e o destino o convocava a enfrentar as consequências.
Para fazer justiça a Tandor-Kuma, pois esse era o nome do jovem, ele sempre tivera a intenção de permanecer fiel à promessa feita a Ekuba. Mas agora as circunstâncias haviam mudado, e ele fazia o possível para enfrentar uma situação dificílima. Como poderia ele, um profissional habituado a todos os luxos da vida e dos costumes ingleses, levar consigo, ao regressar para iniciar uma carreira na África, uma babá? E o que faria se fosse convidado à Casa do Governo? Pensamentos como esses lhe atravessavam a mente e o tornavam insensível às súplicas da mulher a seus pés.
“Se você voltar a chorar, Ekuba, eu a deixarei. Sabe que é realmente lamentável agir assim, quando faço tudo o que posso para distraí-la neste tempo terrivelmente deprimente.”
“Oh, não precisa se preocupar com isso, Tandor-Kuma. Sei que vai me deixar de qualquer maneira. Não pense que vivi todos esses anos sem descobrir como são vocês, homens. Vocês põem mulheres fracas a seu serviço e, depois de conquistarem sua afeição, abandonam-nas assim, por causa de um sonho.”
E chutou com violência o tapete diante do fogo.
“Ora, Ekuba, tente ser sensata. Não deve pensar que pretendo abandoná-la. Por piores que nós, homens, sejamos, temos nossos ideais e nunca descansamos até realizá-los.”
“Ótimo! Isso supera toda a hipocrisia que já ouvi! E qual é a próxima, diga-me? As mulheres não têm ideais, naturalmente! Mulheres sem instrução não sentem, não pensam! São apenas como argila nas mãos de vocês, homens, para ser moldadas, para ser feitas ou destruídas.”
“Agora você está ficando zangada. Vamos discutir este assunto sem paixão.”
Em vez disso, Ekuba irrompeu num paroxismo de dor que Tandor-Kuma teve dificuldade em conter. Aos poucos, ela se acalmou e, prendendo um ou dois alfinetes no toucado, apanhou bruscamente seus agasalhos e ficou de pé, pronta para partir.
“Tandor-Kuma”, disse ela, “você tem seus ideais, e eu tenho os meus. Separemo-nos como amigos. Não lhe darei a oportunidade de me dispensar como a um cão. Adeus, por enquanto! Talvez voltemos a nos encontrar.”
E, antes que o jovem estudante pudesse formular uma resposta adequada, Ekuba já havia partido.