III. Amor e Vida
III. Amor e Vida
A Universidade Nacional Mfantsipim, por volta da época em que se iniciam estes estudos, já vinha realizando um bom trabalho na terra dos Fanti. Tivera origem no movimento nacional que varrera o país nos dias tempestuosos de 1897, quando o povo, como que movido por um impulso súbito, reuniu-se em torno da Sociedade dos Aborígines e estabeleceu com êxito o princípio de posse da terra sob o qual o país desde então prosperou.
Havia muito os homens esclarecidos e influentes da terra dos Fanti compreendiam que a salvação do povo dependia da educação; que a adequada educação dos jovens do país dependia de professores devidamente preparados; e que cabia a uma universidade oferecer semelhante campo de formação.
O povo não esperou por dotações dos ricos e dos filantropos, nem por consórcios financeiros que dessem início à obra. Reunindo rapidamente alguns jovens entusiastas, enviou-os de província em província e de aldeia em aldeia, a fim de procurarem incutir no povo comum a compreensão de quanto o país perdia com o abandono da educação. O povo começou a compreender e a discutir o assunto à beira dos caminhos. Assim, quando chegou o Dia do Jubileu, e, de província em província, por todos os estados da terra dos Fanti, o gong-gong dos Amanhin percorreu o país convocando o povo a contribuir para o Fundo Nacional de Educação, grande foi o entusiasmo entre grandes e pequenos, e não houve aldeola em toda a terra que deixasse de enviar sua justa parcela de contribuição. Até as crianças lançaram suas moedas de três pence nas Kruba das praças dos mercados.
Entre o grupo entusiasta que promovia a causa da educação estava Kwamankra, e ninguém o fazia com maior ardor. Era um homem de inteligência notável que, tendo recebido a melhor educação que as escolas daqueles dias podiam oferecer, impressionara de tal maneira a comunidade com sua capacidade, graças ao trabalho árduo e ao gosto natural pelo estudo dos livros, que, aos dezenove anos, lhe haviam confiado a direção do jornal nacional, e já passara a ser considerado um dos futuros líderes do povo.
Quando foi inaugurada a Universidade Nacional, Kwamankra abandonou o trabalho jornalístico e ingressou no corpo docente. Foi um dos primeiros a apresentar projetos destinados a impedir que o trabalho da Universidade se tornasse mera imitação estrangeira. Desde o início, manteve constantemente diante do Comitê o fato de que povo algum poderia desprezar a própria língua, os próprios costumes e as próprias instituições e, ainda assim, esperar escapar à morte nacional. Por essa razão, a indumentária distintiva dos estudantes, homens e mulheres, era nacional, mas dotada de uma adaptabilidade que sugeria o estado avançado da sociedade. Reconheceu-se que a melhor parte do ensino deveria ser ministrada na própria língua do povo, e logo diversos livros didáticos de reconhecida autoridade, com a amável autorização de autores e editores, foram traduzidos para o Fanti, tornando assim rápido e sólido o progresso dos estudantes.
O plano compreendia, como já se demonstrou, a formação de professores eficientes e, como a Universidade era afiliada à de Londres e mantinha correspondência de trabalho com algumas das melhores instituições de ensino do Japão, da Inglaterra, da Alemanha e da América, o trabalho realizado era rigoroso. Um rapaz ou uma moça que obtivesse certificado de professor habilitado tinha emprego garantido em qualquer parte do país, com salário reconhecido. Ao chegar a uma província, tudo o que o professor precisava fazer era apresentar suas credenciais ao Secretário de Educação do Omanhin, o qual, dispondo de uma lista de distritos que necessitavam de professor, apresentava imediatamente o recém-chegado. Em geral, este encontrava um prédio escolar adequado, com todos os aparelhos necessários, mas sem crianças; e o Comitê lhe dava a entender que o prédio permanecer vazio ou encher-se de alunos dependeria de sua própria energia e do interesse que imprimisse ao trabalho. Além disso, sua ascensão ao salário máximo seria consequência do máximo sucesso dele esperado. Em regra, os professores eram homens que punham o coração no trabalho, e encher as escolas era questão de dois ou três meses.
A sede de conhecimento espalhou-se tão depressa que homens e mulheres começaram a frequentar escolas noturnas, nas quais rapidamente aprendiam a ler e a escrever na própria língua; e tão generalizado era o desejo de aprender que o trabalho de tradução se tornara uma característica distinta das atividades da Universidade. Por isso, na época em que travamos conhecimento com Kwamankra, ele se dedicava em Londres a um trabalho derivativo. Como sua saúde se enfraquecera um pouco em consequência do labor excessivo, recomendaram-lhe que se afastasse por algum tempo e, aproveitando a oportunidade, visitara o Japão, a Alemanha e a América para estudar seus métodos, encerrando a viagem, conforme planejara consigo mesmo, com uma visita à Inglaterra.
Por essa época, a visão de Kwamankra acerca da vida se ampliava; e o jovem começava a refletir sobre o caminho mais útil pelo qual poderia realizar da melhor maneira a obra de sua existência. Enquanto pensava nessas coisas, aquela Divindade que molda nossos fins, quer a compreendamos, quer não, dispunha os acontecimentos para Kwamankra de um modo que ele dificilmente poderia prever. Por resolução das autoridades da Universidade, recebeu em Londres uma proposta para prolongar sua estada por um período certo de três anos, a fim de supervisionar a publicação de diversas obras clássicas em língua vernácula que a Universidade decidira lançar. Assim que recebeu a proposta, aceitou-a, vendo nela um meio de determinar sua futura carreira. E assim estava lançada a sorte. Dispondo de recursos particulares, ingressou na Universidade de Cambridge, estudou jurisprudência durante um ano e, depois de entrar para o Inner Temple, na época em que o encontramos na Tottenham Court Road em companhia de Whitely, estabelecera-se em Londres para estudar Direito com toda a seriedade.
No distante lar africano em que Kwamankra nascera e fora criado, ele conhecera uma pequena órfã que atraía a atenção por onde quer que passasse, em virtude de seus modos simples e naturais. Devia estar sob os cuidados de algum anjo da guarda, pois, se alguma pessoa jamais cresceu no favor dos deuses e dos homens, foi ela. Todos os dias podia ser vista nos templos de Nanamu, e ninguém era mais atenta nem importunava depois o velho sacerdote com perguntas tão difíceis. Nascera em boa família e, tendo concluído um curso na Universidade, visitava agora a Europa pela primeira vez, a fim de dar os últimos retoques à sua educação.
Quando Whitely se separou de Kwamankra, este seguiu para Holborn e desceu sem rumo pela Oxford Street, com a mente repleta de pensamentos variados. Sempre fora um pensador e, naquela manhã, durante a conversa com Whitely, novos caminhos de reflexão se haviam aberto diante dele, caminhos que desejava percorrer sem perturbações. Enquanto observava a poderosa procissão de homens, mulheres e crianças que se empurravam uns aos outros, foi tomado pela sensação do cansaço que a civilização europeia produzira para si mesma. Sua mente, porém, estava sobretudo ocupada com os ensinamentos da filosofia cristã e seus paradoxos. Não fora o Nazareno quem dissera: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso”? Teria Ele dado descanso àquele povo, que professava segui-Lo, em sua constante tentativa de levar vantagem uns sobre os outros, na maneira como se pisoteavam mutuamente em busca de fama e fortuna? Além disso, Ele chamara irmãos a todos os Seus seguidores, e não fora Sua a ordem de partir e ensinar todas as nações, para que todos se tornassem irmãos? E, ainda naquele momento, as palavras de Silas Whitely, estudante de Teologia do Queen’s, voltavam a ressoar-lhe nos ouvidos: “Que pergunta estranha! Nosso Senhor nascido de uma mulher etíope!” E se bispos e prelados, sucessores diretos Daquele que a Si mesmo não atribuíra reputação alguma, pensassem da mesma maneira e, ainda assim, ousassem propagar Seu evangelho entre os gentios etíopes? Haveria paradoxos do princípio ao fim? Valeria a pena seguir uma religião que ensinava uma coisa e praticava outra? E, no mais íntimo do coração, viu-se agradecendo aos deuses por ser, segundo a fórmula da Igreja, um pobre pagão mergulhado nas trevas.
No estado de espírito em que se encontrava, Kwamankra não estava disposto a ser perturbado. Mas quis a sorte que, pouco depois, visse vir em sua direção um homem escuro, conhecido entre os companheiros como o Professor. Professava conhecer todas as coisas e não sabia nada em particular. Na realidade, chamava-se Kwow Ayensu e era estudante havia vários anos no Hospital de Charing Cross, embora, tanto quanto se podia julgar, a obtenção de um diploma de Medicina ou de Cirurgia fosse para ele uma consideração secundária. Kwamankra esquivou-se do Professor e tomou a calçada oposta. O Professor atravessou prontamente a rua e, dando-lhe familiarmente uma palmada no ombro, disse com voz áspera:
“Olá, meu velho, como vai? Não o vejo há uma eternidade; e o que significa fugir assim de um velho camarada, hein?”
Evidentemente, não havia como escapar do Professor, e Kwamankra resignou-se ao destino.
“A verdade”, disse Kwamankra, “já que deseja que eu seja franco, é que queria ficar sozinho. Eu estava me divertindo tanto antes que você me interrompesse. Gosto de observar sem ser observado.”
“Inclui em suas observações a humanidade em geral?”, perguntou secamente o Professor.
“Sim”, respondeu Kwamankra. “Para mim, é o estudo mais interessante, e o melhor teatro que encontro são estas próprias calçadas, sendo os atores a multidão móvel de homens e mulheres. Estudar a humanidade sob esse aspecto é, para mim, o auge do passatempo intelectual e, por mais que eu desejasse conversar com você em outra ocasião, realmente lamento que me tenha interrompido.”
“Seu caso”, disse o Professor, “é um simples caso de contração cerebral das simpatias. Venha comigo hoje à noite às Salas Argyle, meu velho, e garanto-lhe o mais excelente estudo da humanidade que se pode encontrar em Londres. Você poderá observar sem ser observado e, caso se sinta inclinado a descongelar, por Júpiter, encontrará trabalho de sobra. Algumas das recém-chegadas são peças raras e constituem a sensação entre todos os jovens cães indevidamente chamados de homens. Venha comigo.”
“Agradeço-lhe o amável convite, mas receio não poder acompanhá-lo esta noite às Salas Argyle, pois preciso tomar o trem noturno para Cambridge com um amigo.”
“Então venha comigo ao Hotel York. Talvez eu consiga interessá-lo e, depois, se quiser, poderá pagar-me alguma coisa. Ouvi dizer que alguns de vocês, sujeitos da universidade, são muito bons nisso. O estudante londrino comum, enferrujado, nada entende de ceias regadas a champanhe e coisas semelhantes.”
“Se é esse o caso, Professor, não precisamos ir até o Hotel York. Podemos simplesmente entrar no Slater’s, logo ali na esquina, e garanto-lhe um almoço tão bom quanto qualquer outro que já tenha provado. Venha. Não aceitarei uma recusa.”
Não foi preciso muito para convencer o Professor, e logo os dois estavam sentados a uma mesa bem posta, num canto confortável. Depois do almoço, o Professor disse a Kwamankra:
“Um favor merece outro. Eu pensava em lhe fazer uma surpresa, mas, já que a montanha não quis ir a Maomé, suponho que ele terá de ir até ela. A verdade é que Mansa está em Londres e hospedada no Hotel York com o pai.”
Quando Kwamankra foi ao hotel no dia seguinte apresentar seus cumprimentos, ficou surpreso ao saber que, cerca de uma hora antes, Mansa e o pai haviam tomado o trem para Harwich, a caminho do Continente. A jovem sempre manifestara o desejo de conhecer os principais países da Europa e, como o pai tinha alguns negócios no sul da Alemanha, ela o convencera, alegando que ainda faltavam duas semanas para a data em que deveria ingressar na faculdade, a levá-la consigo. Ficou tão satisfeita com o ambiente alemão que, quando o pai regressou a Londres, mostrou-se relutante em acompanhá-lo; e, como sempre demonstrara acentuada inclinação pela música, decidiu-se que permaneceria ali na escola por um ou dois anos, prosseguindo nos estudos.
O tempo passou, e Kwamankra não recebeu notícias de Mansa. Tudo o que o Professor sabia dizer-lhe era que o pai dela retornara à África e que a jovem prosseguia os estudos no Continente. Enquanto isso, Kwamankra estudava tranquilamente no Temple. Foram anos memoráveis, aqueles três breves anos no coração da metrópole. A ciência da jurisprudência sempre o atraíra. Abria-lhe perspectivas de justiça e equidade entre os homens que o tocavam profundamente. A influência dos escritos estoicos sobre os jurisconsultos romanos, produzindo um Direito das Nações, mostrava-lhe um caminho pelo qual as nações da terra, cedendo a impulsos mais elevados, poderiam fazer justiça às raças fracas da humanidade. Além disso, a oportunidade de comparar as instituições e os costumes de seu país com outros sistemas era para ele fonte inesgotável de prazer. Chegara a ocasião de preparar-se para a batalha da vida. Estudava não para os exames, mas para adquirir conhecimento. Bebia livremente das fontes vitais do saber e sentia a alma satisfeita. Não podia deixar de sentir que recebera um chamado ao dever, e que esse dever estava no serviço de sua raça.
Na ocasião em que Kwamankra foi admitido à Ordem dos Advogados, convidou seu amigo Whitely a passar um dia em Londres. Depois da cerimônia, dirigiram-se ao Haymarket para assistir ao senhor Beerbohm Tree no papel de Hamlet. Como a cortina só se levantaria às oito e meia, e a noite estava particularmente agradável, foram a pé do Temple até o teatro, e a conversa naturalmente voltou-se para a obra-prima de Shakespeare.
“Sabe, Kwamankra, nunca me esqueci da conversa que tivemos três invernos atrás, ao longo da Tottenham Court Road, e tenho estudado profundamente o assunto. Tenho comparado o culto de Osíris pelos egípcios de sua própria raça, a filosofia acadiana, as religiões de Zoroastro, de Buda e de Confúcio, os ensinamentos dos mistérios gregos e dos escritos estoicos; e, quanto mais me aprofundo no assunto, mais perplexo fico diante do direito que teriam as pessoas que se denominam cristãs de reivindicar o monopólio da luz divina. Quanto ao termo ‘pagão’, considero arrogante que o devoto de uma seita qualquer o aplique ao de outra. Há nisso tanto sentido quanto havia nos antigos gregos chamarem bárbaros a todos os demais povos. Aqui estamos nós esta noite, por exemplo, a caminho de uma peça escrita por certo William Shakespeare, cavalheiro cristão que floresceu no reinado da rainha Elizabeth. Creio que, se me levantasse hoje na plateia do Haymarket e declarasse abertamente que William Shakespeare era um cavalheiro, mas que eu tinha dúvidas quanto a ele ter sido cristão, seria expulso do teatro sob vaias e assobios. Contudo, uma leitura superficial de algumas de suas obras bastará para convencê-lo de que seus sentimentos, caso escrevesse a partir do mais íntimo de si, como certamente fazia, sendo o grande poeta que era, estavam longe de ser cristãos. Veja como Hamlet alimenta no peito um sentimento de vingança tão pungente que só encontra satisfação em matar o rei perverso num momento em que este cairá com todos os pecados sobre a cabeça. Parece obra de um pagão e, no entanto, não ouso sugerir que William Shakespeare fosse pagão no coração.”
Kwamankra soltou uma gargalhada franca.
“A menos que tenha lido Jevons com pouco proveito, deve admitir que esse argumento é defeituoso. Ainda assim, não posso deixar de concordar que a palavra ‘pagão’ é um termo relativo e que talvez o inglês comum não tenha direito de chamar pagão ao etíope comum. A nossa foi a origem da civilização, e o fato de ela não ter tido a permanência que provavelmente terá a civilização cristã não a torna menos civilização; e eu, por minha parte, nada sinto além de compaixão por aquela espécie de ignorância que zomba daquilo que não compreende.”
O orador interrompeu-se um tanto abruptamente e observou o ouvinte com curiosidade. Depois de um instante, continuou:
“Você sabe perfeitamente, meu bom amigo, que não sou cristão. Se não sou, o que sou? Talvez a delicadeza o impeça de dizer o que pensa. Mas, creia-me, não me envergonho de ser chamado pagão, gentio ou qualquer outro desses nomes carinhosos. Com todo o respeito a São Paulo, adoramos aquilo que conhecemos. A verdade é que, desde os dias dos grandes mestres do cristianismo, vocês, cristãos, não se deram ao trabalho de compreender qualquer sistema que não fosse o seu.”
“Sabe, Kwamankra, mudando de assunto, concluí meu curso e em breve deverei ser ordenado”, disse Whitely. “Mas, durante todos estes anos, a razão e a fé dentro de mim estiveram em conflito tão mortal que deixaram meus sentidos aturdidos. Contudo, a sorte está lançada. Dei meu nome ao bispo. Não posso voltar atrás, por medo de partir o coração de minha mãe.”
“Lamento por você, meu caro amigo”, disse Kwamankra, “mas talvez não examine a questão do ponto de vista amplo em que alguém de fora pode contemplá-la. Conheço, naturalmente, alguma coisa das religiões do passado. Estudei nossos próprios sistemas orientais e comparei-os com o sistema que vocês, ocidentais, adotaram, e descubro que uma vasta divindade, bem como uma humanidade comum, percorre todos eles. Você admitirá, creio, que havia em todos os sistemas que mencionou, e em outros sobre os quais ainda nada sabe, algo que elevava o homem a Deus; e que alguns dos fundadores desses sistemas, como Epicteto, Cleantes e Buda Gautama, eram homens cujos ideais de renúncia a si mesmos e de comunhão com Deus não eram de ordem inferior.
“Reconheço livremente que existe uma diferença acentuada entre todos eles e o Cristo, tão grande quanto a diferença entre os escritos estoicos e o Evangelho de São João. Jesus Cristo era uma personalidade viva e palpitante, Deus no homem, ligando a filiação humana à paternidade divina. Buda Gautama, por exemplo, jamais compreendeu verdadeiramente sua própria filiação com Deus a ponto de revelar essa relação ao homem. Esforçou-se por penetrar o segredo do universo, mas nunca o conseguiu inteiramente.
“Quanto à razão, à fé e à carga da dúvida, bem, caso me pergunte se o nascimento de Jesus Cristo foi natural ou sobrenatural, como alguém de fora, tudo o que posso dizer é: não sei, e não importa absolutamente nada que tenha sido uma coisa ou outra. Da mesma maneira, se me perguntar se Ele ascendeu aos Céus em forma corpórea, desafiando a lei da gravitação, respondo que não sei, e isso tampouco importa. Mas sei que Sua vida e Sua obra, e Sua interpretação dos caminhos de Deus para com o homem, podem atrair alguém para Ele como irmão, amigo e mestre e, por meio Dele, para Deus como Pai, Soberano Todo-Poderoso, Benfeitor e Guia. Isso deveria bastar ao homem comum, cujo objetivo não seja interrogar arrogantemente os altos Céus, mas abrir humildemente e piedosamente o caminho até eles.”
Quando chegaram ao teatro, a cortina acabava de se levantar e, por um momento, ficaram absortos na simplicidade da encenação pela qual o senhor Beerbohm Tree era tão notável em suas representações shakespearianas. Na Cena III, quando Polônio pronuncia o preceito: “Evita entrar numa disputa; mas, se entrares, sustenta-a de modo que teu adversário passe a temer-te”, Kwamankra, cutucando o amigo nas costelas, sussurrou:
“Eis aí um sentimento cristão com força de sobra.”
Quando a cortina tornou a subir, Whitely chamou a atenção de Kwamankra para um grupo de moças escuras acompanhadas por um homem idoso, que parecia desempenhar o papel de acompanhante, aos quais logo se juntaram dois rapazes. Kwamankra seguiu a direção indicada por Whitely e quase saltou da cadeira de tanta excitação.
“O que foi, Kwamankra?”, perguntou Whitely. “Você geralmente é tão calmo.”
“Perdoe-me, mas acontece que preciso apresentá-lo imediatamente. Aqueles são meus amigos Aban, e estarei muito enganado se a jovem sentada no canto não for a senhorita Mansa. Venha!”
E literalmente arrastou Whitely atrás de si.
O velho cavalheiro viu os dois vindo em sua direção e seu rosto inteiro iluminou-se de alegria. Era uma alma bondosa e gostava de ver os filhos da Etiópia conduzirem-se honrosamente em terra estrangeira, e nada ouvira a respeito de Kwamankra que não fosse bom. O entusiasmo com que Kwamankra foi recebido pelos amigos impressionou profundamente Whitely, que nem sequer percebeu os poucos segundos decorridos antes de ser apresentado.
Durante o intervalo, Mansa, que detestava aglomerações, preferiu permanecer onde estava. Kwamankra, portanto, foi buscar-lhe algum refresco e ficou conversando com ela.
“Então você nos abandonou pelo Continente sem um instante sequer de aviso. Foi realmente muito feio de sua parte, e espero que agora tenha decidido reparar inteiramente sua falta.”
“Sim, eu não gostava da vida aqui”, disse Mansa. “De algum modo, não me convinha. Além disso, não tinha amigos aqui e, como meu pai estava de partida, senti que não poderia ficar.”
“Deve ter considerado Stuttgart agradável, a julgar pelo tempo que permaneceu fora. Seu pai me contou alguma coisa a respeito, e eu esperava ouvir mais de você.”
“Oh, isso terá de ficar para outra ocasião. Veja, a cortina está prestes a subir e os Aban estão voltando em grupo. Sabe, chegamos apenas esta tarde pelo trem de Dover e encontramos os Aban no hotel. Como eles vinham assistir a Hamlet, meu pai achou que seria agradável acompanhá-los.”
“Isso me faz lembrar de uma coisa. Por um golpe de má sorte, cheguei ao seu hotel no dia em que partiram para o Continente, meia hora tarde demais, e descobri que o pássaro já havia voado.”
Mansa ficou um pouco confusa; e naquele instante a cortina se ergueu.
O restante da peça interessou pouco a Kwamankra, e ele não lamentou quando aclamações sucessivas chamaram o senhor Tree repetidas vezes diante das luzes da ribalta, para receber uma ovação como poucos artistas haviam recebido antes ou receberiam depois.
“Não deixe de visitar-nos antes de eu partir para a África”, disse o velho cavalheiro, enquanto Kwamankra e Whitely lhes desejavam boa-noite.
Os amigos conversaram pouco no caminho de volta ao Temple, e Whitely, adivinhando o que se passava na mente do amigo, respeitou seu silêncio. Antes de se separarem naquela noite, contudo, Whitely disse:
“Permita-me, Kwamankra, agradecer-lhe por me proporcionar uma noite tão agradável em companhia tão culta. Por Júpiter, seus amigos honram a África e despertam em mim a vontade de empreender uma cruzada contra a estreiteza de espírito e o preconceito.”
“Muito obrigado. Fico contente que pense tão bem de meus amigos. Espero que durma bem depois de todas as dissipações do dia.”
Assim falou Kwamankra ao conduzir o amigo ao quarto.
Durante as semanas seguintes, Mansa e Kwamankra passaram muito tempo juntos. Desde o princípio, havia entre ambos uma afinidade que tornava toda convivência natural, agradável e espontânea. Era como se se conhecessem durante toda a vida; e parecia a coisa mais natural que, dali em diante, suas existências unidas seguissem o mesmo curso.
Certo dia, enquanto os dois conversavam diante de uma xícara de chá vespertino, Mansa apanhou uma carta numa escrivaninha e, estendendo-a descuidadamente, disse:
“Esqueci-me de lhe contar, quando esteve aqui da última vez, que me ofereceram o cargo de diretora das classes elementares de nossa universidade. Tenho certeza de que ficará encantado com a ideia, pois pretendo aceitá-lo, e meu pai concorda comigo.”
“Como pode pensar em semelhante coisa?”, exclamou Kwamankra, quase indignado.
Seus modos foram tão repentinos que Mansa não conseguiu conter-se.
“Ora, o que fiz para merecer tratamento tão áspero?”, perguntou ela com firmeza, mas em tom brincalhão.
“Perdoe-me, Mansa, se falei com um ardor incomum. É que eu estava pensando, bem, estava pensando que talvez pudesse ensinar a mim, em vez disso.”
“Que ideia absurda! Como poderia ensinar um homem tão grande e vigoroso como você?”, disse Mansa. “Além disso, você é tão inteligente. Certamente está zombando de mim.”
“Creia-me, minha querida criança”, disse ele, e havia um leve tremor na voz viril, “jamais falei com maior seriedade em toda a minha vida.”
Mansa pareceu perplexa. Depois de alguma hesitação, disse:
“Você me chama de ‘criança’ e, no entanto, deseja que eu acredite que posso ensiná-lo. Pode estar falando sério?”
“Sim, estou inteiramente falando sério. ‘E uma criancinha os guiará’”, citou ele. “Eu esperava”, prosseguiu Kwamankra, “que lhe coubesse ensinar-me o caminho do dever e que, quando o encontrássemos, você me ajudasse a percorrê-lo.”
“Mas como posso saber qual é o seu dever? Quem poderia sabê-lo melhor do que você mesmo? Além disso, os deuses de nossos pais podem ensiná-lo, caso necessite de orientação. Não sabe disso, Kwamankra?”
“Sim, sei. Mas também sei que os deuses costumam servir-se de instrumentos humanos para se aproximarem dos homens. O Infinito encontra expressão no finito, e o ideal realiza-se no real. E muitas vezes me ocorreu que a mão infantil que me guiará pelos caminhos labirínticos da vida é a mesma que agora seguro ternamente entre as minhas.”
Ela começou a compreender. Fez um movimento como se quisesse retirar a mão. Hesitou e, no instante seguinte, entregou-lhe também a outra.
“Então você será minha professora?”, perguntou Kwamankra, meio persuasivo, meio triunfante.
“Sim”, respondeu ela simplesmente. “Que os deuses de nossa raça me ajudem!”
À medida que os dias passavam, os dois cresciam naquela compreensão mútua que constitui o verdadeiro fundamento de todas as uniões felizes. De vez em quando, ele lhe falava de suas perspectivas, que, rindo, dizia serem nulas, pois pouco herdara além de uma mente lúcida e de um coração disposto ao trabalho, com os quais esperava que ambos pudessem abrir juntos seu caminho pela vida. Mansa respondia docemente que desejaria possuir uma fortuna para facilitar as coisas, mas, como não a tinha, levar-lhe-ia o que havia de melhor em seguida, um coração leal e verdadeiro. Kwamankra então a repreendia e dizia que aquilo era o melhor de tudo.
Pouco a pouco, Mansa contou a Kwamankra tudo o que acontecera em sua breve vida desde os dias em que ele a conhecera como uma criança de dez anos.
“Sabe”, disse ela certa vez, conversando com ele, “muitas vezes invoquei Nanamu para que me fosse permitido viajar e conhecer um pouco do mundo, e pareceu-me que me ouviram; pois, pouco depois, meu pai meteu na cabeça a ideia de visitar a Europa comigo, depois de eu ter sido aprovada nos exames de nossa universidade. Quando chegamos aqui, a vida das pessoas pareceu-me artificial. Talvez naquele tempo eu não conseguisse exprimir meu sentimento com essas palavras, mas, de qualquer modo, sentia como se não estivesse em meu elemento próprio. O acaso levou-me à Alemanha. Ali encontrei coisas muito diferentes. Na Floresta Negra, entrei em contato direto com a Natureza. O canto dos pássaros, o balido dos cordeiros, a fragrância dos campos, tudo parecia tão natural, e disse a mim mesma: este é meu verdadeiro lugar; esta é a atmosfera em que minha natureza pode se expandir. O restante você conhece. E agora, o que pensa do resultado?”
Como resposta, Kwamankra atraiu-a carinhosamente para mais perto de si.
O verão declinava para o outono, e os crisântemos e as perfumadas resedas estavam em flor, quando os amantes decidiram casar-se antes de regressar à África, onde Kwamankra deveria iniciar sua atividade profissional. Seria uma cerimônia simples, sem damas de honra nem padrinhos, para a qual seriam convidados somente os amigos mais íntimos. No dia do casamento, Mansa apareceu na igreja vestindo um traje africano simples, de sua própria criação, preparado com muito bom gosto; e, quando alguém lhe perguntou a razão de sua escolha, respondeu que sabia que agradaria ao marido e que, além disso, correspondia melhor à sua concepção do que era apropriado. E assim, para empregar as palavras de Tennyson, “os dois se casaram”.
Kwamankra não tardou a assumir com toda a seriedade os deveres da vida, tendo sua querida e pequena esposa para animá-lo e consolá-lo. Desde o princípio, o sucesso sorriu para ambos, quer como resultado de um esforço honesto e vigoroso, unido à capacidade natural, quer como sinal do favor dos deuses, ou por ambas as razões. Gradualmente construíram uma grande clientela e, quando o filhinho já conseguia caminhar de um aposento para outro e chamar “Papai! Mamãe!”, possuíam um doce lar, com muitas flores, luz do sol, amor e a bênção de Deus.
Cinco breves anos, muito breves e felizes, de amor e convivência mútuos. Depois veio uma nuvem que, por um momento, pareceu ao coração partido e aos olhos cheios de lágrimas de Kwamankra não ter qualquer orla de prata. Com a chegada do segundo filho, uma doce menina recém-nascida, Mansa, pobre esposa e mãe, pagou com a própria vida pela vida da criança. E a pequena, como se não pudesse suportar a escuridão que trouxera àquele lar outrora luminoso, logo se juntou à mãe, tornando duas vezes mais sombria a tristeza anterior. Pai e filho ficaram sozinhos, ligados por um laço de amor quatro vezes duplicado entre suas almas e as almas daquelas que haviam partido.
E, quando seu menino de três anos perguntava a Kwamankra: “Onde está a mamãe?” ou “Onde está a irmãzinha?”, ele respondia: “Mamãe foi para junto de Deus” ou “A irmãzinha foi para junto de Deus”, conforme o caso, e desviava o rosto para que o pequeno não conhecesse toda a extensão de sua dor.