X. O Perigo Negro
X. O Perigo Negro
“Aqui, na Costa do Ouro, o povo demonstrou que não pretende ser derrotado, mas de maneira diferente...”, disse o jovem precoce, apresentando uma folha de papel na qual as palavras estavam cuidadosamente escritas. “Não pretendia perder o restante da história, como pode ver, pai. Agora, cumpra sua promessa, por favor.”
Puxou um assento baixo para perto da cadeira paterna.
“Vejo que esqueceu a ilustração, mas não o texto, e, como é fácil encontrar outras ilustrações”, disse Kwamankra, “cumprirei minha promessa. Elas estão espalhadas pelas páginas da história. Em suas lições históricas, sem dúvida ouviu falar daquilo que se chama ‘Questão Oriental’.”
“Sim, ouvi, embora tenha esquecido exatamente do que se tratava. Além disso, aprendo melhor essas coisas quando o senhor as conta à sua maneira, pai”, disse o rapaz, com entusiasmo.
“Agora, caso se acalme e se lembre de que a história serve para ilustrar a discussão com que começamos, isto é, o chamado ‘perigo amarelo’, poderá ouvir com proveito, meu filho.”
O rapaz inclinou a cabeça em assentimento, e Kwamankra começou:
“No princípio, tudo foi obra dos russos. Muitos anos atrás, estavam confinados num canto da Ásia Menor, sem acesso ao Mar do Norte, ao Báltico ou ao Mar Negro. Pouco a pouco, o imperador Pedro, o Grande, concebeu a ideia da expansão russa em direção à Crimeia e, ao norte, até o Báltico. Depois dele, Catarina II da Rússia procurou realizar o sonho de Pedro, o Grande, e desde então isso se tornou a política nacional do Urso Russo.”
“O que quer dizer com Urso Russo?”
“É uma maneira de se referir à Rússia, assim como falamos em John Bull.”
“Oh! Continue, pai.”
“Pois bem, ao perseguir essa política, o Urso Russo entrou em conflito com o turco na Crimeia, na época do imperador Nicolau II, durante a década de cinquenta do século passado. Encontrou-se um casus belli, naturalmente tem revisado seu latim, no fato, e quero que observe isso com especial atenção, de que os turcos maltratavam os cristãos da Igreja Grega dentro dos domínios do Sultão. Percebe aqui a aplicação da história do lobo e do cordeiro, não percebe?”
O rapaz fez um gesto compreensivo.
“Pois bem”, prosseguiu Kwamankra, “é uma história longa, mas, quando os turcos praticaram o ato de autopreservação, embora a história não o registre expressamente, essa circunstância constituiu, na mente dos russos da época, um ‘perigo muçulmano’. Compreende?”
“Sim, pai”, respondeu ansiosamente o jovem. “Mas certamente o povo inglês jamais agiu dessa maneira contra uma raça mais fraca. Posso compreender que o urso dissimulado aja assim, mas não o franco John Bull.”
“Bem, vejamos. Não tenho tanta certeza disso. Que dizer da Guerra do Ópio contra a China, quando a Inglaterra coagiu os chineses porque insistiam em restringir a venda de ópio dentro do Império Chinês? E do incidente da lorcha Arrow, não muitas gerações atrás, quando a Inglaterra provocou uma disputa com a China porque o governador Yeh exerceu o direito de abordar uma embarcação chinesa que içava indevidamente a bandeira inglesa para encobrir suas práticas de pirataria em águas chinesas?
“Outros exemplos poderiam ser apresentados, mas posso garantir-lhe, meu querido filho, que nenhuma nação europeia cristã está livre do vício da autoafirmação, nenhuma está livre da acusação de gritar ‘perigo amarelo’ ou ‘perigo negro’ no instante em que se defronta com alguma forma de resistência. Parecem trazer numa das mãos uma autorização do Todo-Poderoso e, na outra, uma absolvição para arrancar o patrimônio alheio:
“‘Por que deveriam viver? O Destino escreveu em letras grandes sua condenação.
“‘Terra para os brancos! Deixai morrer os homens negros!’,
parecem gritar as nações europeias, sem se importarem com a ofensa a Deus ou aos homens contida nesse clamor.”
“Mas como tudo isso se aplica ao nosso país?”, perguntou Ekra Kwow.
“Como se aplica? Ótimo! Gosto de pensar que acompanha tão de perto aquilo que os livros eruditos chamam de argumento, isto é, o assunto imediato em discussão. Pois bem, direi em poucas palavras.
“O Oficial Político representa a autoafirmação inglesa na ampliação do poder e da autoridade em todos os cantos onde a ponta fina da cunha possa ser introduzida. O homem negro sagaz oferece um ponto de resistência quando invoca seus costumes e instituições particulares e, pronto, ergue-se o grito do ‘perigo do nativo instruído’, como se, de fato, o ‘nativo’ deixasse de ser ‘nativo’ no instante em que recebe educação. Isso não serve no momento. É outra vez a história do lobo e do cordeiro, como pode ver.”
“Mas por que o senhor não denuncia essas coisas, pai? Sabe escrever, sabe falar. Por que não permite que o mundo inteiro tome conhecimento delas?”, perguntou o rapaz com certo ardor.
“Não tão depressa, meu filho”, disse Kwamankra, pousando a mão sobre a cabeça da criança e falando lenta e deliberadamente, como costumava fazer quando estava prestes a dar expressão a algo proveniente dos recessos mais profundos de sua alma. “Desejo que compreenda, minha querida criança, que nem a ira dos poderosos nem a esperança de receber favores dos grandes selaram até agora meus lábios.
“Desde sua infância, ensinei-o a considerar a verdade a mais elevada de todas as virtudes, o ápice do caráter; e aquele que cai proclamando a verdade em seu tempo e em sua geração não passa de humilde seguidor de Sócrates ou, caso prefira, do Nazareno. Procuro seguir Seu exemplo, preparado para sofrer, caso seja necessário, pela causa do país, da raça e da humanidade.”
Aproximando a criança, acrescentou em tom contido:
“Apenas a hora ainda não chegou. Ore por seu pai, para que, quando chegar, ele seja encontrado forte e fiel.”