XII. Um Líder da Sociedade
XII. Um Líder da Sociedade
Tom Palmer, filho de Jonathan Palmer, da Horse Road, em Ussher Town, Acra, era um belo jovem dotado de muitas qualidades excelentes. Os Palmer eram originários de Serra Leoa e haviam se estabelecido na Costa do Ouro no começo da década de cinquenta do século anterior. Graças a uma enorme energia, aliada a um tato comercial incomum, o primeiro Palmer conquistara aos poucos uma situação confortável, que o segundo Palmer, com igual habilidade, continuara a melhorar. Assim, quando chegou a vez de Jonathan Palmer, ele era respeitado como homem de riqueza, posição e influência na comunidade de Acra.
Jonathan Palmer contentara-se em ganhar dinheiro, mas seu filho e herdeiro, o belo Tom Palmer, combinara o estudo dos livros com suas demais realizações e chegara a obter o grau de L.Th. no Colégio de Freetown, embora jamais tivesse a intenção de ingressar na Igreja. Gostava de controvérsias e, como o curso de L.Th. incluía certa quantidade de informações históricas, ele o seguira para ser capaz de enfrentar qualquer adversário, como dizia em linguagem pugilística. Como profissão, escolhera a agricultura e era especialista nos segredos dos solos, dos adubos e das estações. Não que praticasse a agricultura como os homens praticam a medicina, por exemplo. Oh, céus, não! Era apenas um diletante. Bastava-lhe poder dizer com verdade: “Sou agricultor científico e posso dar-lhe uma ou duas indicações.” Além disso, numa comunidade como Acra, onde todo cidadão respeitável possui uma ocupação, não seria conveniente parecer um ocioso.
Tom Palmer era um jovem ambicioso. Seu objetivo na vida era tornar-se o líder da sociedade na comunidade em que a Providência se comprazera em instalar seu pai e, antes dele, o pai de seu pai. A fortuna da família seria sua por direito depois que o pai partisse. Ele se tornaria o líder da aristocracia negra. O que poderia impedi-lo? Assim, pôs mãos à obra com determinação. O corte de seu casaco estava sempre em dia e, aos domingos, apresentava-se cuidadosamente na igreja de cartola de seda e botas de couro envernizado, sem jamais se esquecer da flor na lapela e das luvas de estilo aprovado, embora nunca cometesse o solecismo de usá-las, devido à temperatura tropical. Pelo mesmo motivo, em geral trazia as mangas do casaco um pouco viradas para cima, de modo a exibir bastante linho, e as barras das calças acompanhavam o exemplo, para que se pudessem contar os botões brancos de suas botas. Outros jovens de sua geração o contemplavam com admiração, contemplavam-no, consumiam-se de inveja e esforçavam-se para parecer com ele. Muitos tiveram êxito, embora não possuíssem a cultura de Tom Palmer, devida às suas primeiras relações, nem seu dinheiro.
Freetown é uma comunidade africana avançada. Apesar de alguns, sem o temor de Deus no coração, terem julgado conveniente difamá-la por escrito, o leitor pode aceitar do autor que se trata de uma comunidade que não tem motivo algum para se envergonhar. Produziu muitos cidadãos eminentes, notáveis tanto por suas realizações intelectuais quanto pela iniciativa e pelo sucesso nos negócios, a tal ponto que Sua falecida Majestade julgou apropriado conferir a honra da cavalaria a um de seus estimados filhos. Além disso, a cidade orgulha-se de possuir uma catedral, raridade nas Dependências da África Ocidental. Seu canto está entre os melhores da Costa Ocidental, e homens como o cônego Spain, o cônego Wilson e o cônego Moore, todos clérigos negros, fariam honra a qualquer diocese inglesa. Não era de admirar, portanto, que Tom Palmer sentisse verdadeiro orgulho de sua Alma Mater, o Fourah Bay College, devidamente afiliado à Universidade de Durham, e da cidade de Freetown, a Meca da África Ocidental. Na verdade, se havia uma coisa acima de todas as outras pela qual Tom Palmer reverenciava a memória de seu avô paterno, era o absoluto desprendimento com que este transmitira ao filho Jonathan as economias de seu próprio pai, bem como a probabilidade de Jonathan obedecer à recomendação paterna e transmitir, por sua vez, a fortuna da família à geração seguinte, isto é, a ele, Tom Palmer. Ainda assim, apesar de tudo, não conseguia perdoar inteiramente seu grande antepassado por ter abandonado, quando o fez, a próspera comunidade às margens do Roquelle.
Apesar de toda a leviandade de modos que observamos no objeto deste retrato, deve-se reconhecer em seu favor que, em geral, era extremamente cuidadoso ao dar qualquer passo importante na vida. E, dentre todas as questões difíceis da vida social da África Ocidental, talvez nenhuma tivesse recebido dele estudo tão atento quanto o casamento. Pois, vede bem, o objetivo de Tom Palmer era ser o líder da sociedade, o wankora wonkor, como diria um Fanti, da vida social na capital. Contudo, de algum modo, não conseguia decidir-se a fazê-lo. Discutira o assunto várias vezes com amigos, sem jamais chegar a resultado satisfatório. Foi, portanto, com particular satisfação que, numa conversa com Kwamankra, que naquela época se encontrava em Acra para a Exposição Agrícola, conseguiu introduzir seu tema predileto. E não podemos censurá-lo. Todo jovem que pensa em casar-se faz o mesmo. Importuna com o assunto cada pessoa que encontra, ao menor sinal de incentivo, até que por fim faz papel de tolo ou escapa por um triz.
Com uma queixa do velho mundo nos lábios, a reclamante ouviu do Mestre filósofo a indicação de que, afinal, uma coisa era essencial. Todos conhecemos a história, mas talvez alguns não tenham percebido seu lado humano. A reclamante sentia claramente ciúmes da atenção marcante que o Mestre filósofo dedicava à irmã mais jovem. Seu instinto de mulher lhe dizia que esta descobria rapidamente “a única coisa necessária”. Seu amor-próprio afirmou-se no pedido: “Manda que ela venha ajudar-me.” O auxílio de uma faxineira teria servido igualmente bem. Para dizer a verdade, porém, ela própria se sentaria aos pés do grande homem, caso soubesse como fazê-lo. Talvez pensamentos como esses atravessassem a mente de Kwamankra quando repetiu lentamente, mais para si do que para o companheiro, as palavras do Mestre:
“Mas uma coisa é necessária!”
Depois, voltando-se de maneira um tanto abrupta para o jovem, disse:
“Você comete o mesmo erro que a maioria de nós já cometeu. Parecemos acreditar que o amor só chega quando é cortejado com saias parisienses e saltos altos da Regent Street. Saiba, então, meu amigo, que a afinidade espiritual, como o vento, vem não sabemos de onde. Felizes os perspicazes que reconhecem a Rainha dos Céus, seja qual for o aspecto sob o qual ela se aproxima da alma que espera.”
O jovem ficou perplexo. Exprimiu em voz alta seus pensamentos.
“O que tudo isso tem a ver com aquilo que ouvi o senhor murmurar sobre a única coisa necessária?”
“O que tem a ver? Creio que tem tudo a ver”, disse Kwamankra gravemente. “Sem dúvida você leu a história. O Mestre encontra um refúgio, um lugar de repouso, no lar daquela família em particular. Nasce uma afinidade entre Ele e aquela que amava sentar-se a Seus pés, absorvendo, como uma alma sedenta, cada palavra que caía de Seus lábios. Interprete como quiser o sentimento do Mestre. Não há, porém, necessidade de disfarçar o fato de que Maria encontrara o segredo da vida.”
“Mas tudo isso está fora da questão, se me permite dizê-lo. A afinidade entre Cristo e Maria era uma coisa à parte, uma relação espiritual, se posso assim me expressar. Como pode falar dela ao mesmo tempo que de assuntos mundanos, daquela coisa vulgar que os homens professam e simulam?”, disse Tom Palmer, entusiasmando-se com o assunto de um modo que interessou profundamente o companheiro.
Kwamankra observou o jovem por um ou dois segundos e então disse, com um leve tremor na voz:
“Se Jesus não fosse verdadeiramente terreno, não teria interesse algum para você e para mim. Além disso, caso conhecesse o dom dos deuses, não falaria do amor como acabou de falar. Houve um tempo em que eu pensava como você, mas uma experiência mais madura ensinou-me que nada há de vulgar no amor e que esse sentimento, sob qualquer forma em que se manifeste, em sua análise final se revelará sempre a mesma coisa. Lembre-se, então, de que onde está o amor, está Deus. Grande amor, grande alma! Assim como os riachos fluem para os rios, e os rios para o mar, sem que o mar jamais se encha, também a afinidade universal, desde o arrulho da pomba até o fervor ardente de um Romeu, encontra seu acorde pleno no Deus do Amor.”
“Devo confessar”, disse o jovem, “que essa maneira de considerar a questão é inteiramente nova para mim. Mas devo compreender que o senhor encontraria justificativa para a espécie de afinidade que se desvia em todas as direções, aqui, ali e por toda parte?”
“Então lhe apresentarei uma proposição ainda mais estranha”, disse Kwamankra serenamente. “Lembre-se, meu jovem amigo, para começar, de que o amor é uma força magnética espiritual e, como demonstrei no princípio de nossa conversa, sopra como o vento onde quer. Lembre-se também de que há afinidades e repulsões onde menos se esperaria encontrá-las. Muitas vezes, alguém parte do polo norte e outro do polo sul, e a força magnética os atrai cada vez mais, até que se encontram. Nesse sentido, somos filhos das circunstâncias.
“Pense agora. Aqui está um homem de grande força magnética, despertando afinidade e amor por onde passa. Mas é apenas um homem. A força correspondente que ele atrai e põe em movimento aqui e ali transforma-se em entidades criadas, que imploram pela vida e reivindicam o direito de viver. Diga-me: qual é o dever daquele que, sob Deus, concede essa vida, ou, para falar em termos materiais, do criador dessa força? Deve ele permitir livre curso à manifestação da afinidade, ou deve empenhar-se implacavelmente em destruir a esperança de luz que fez nascer numa alma humana?”
“Mais uma vez não o compreendo, a menos que queira dizer que não existe nada de material naquilo que afirma.”
“Não disse nada difícil de compreender”, prosseguiu Kwamankra. “Tenha em mente que falo do verdadeiro amor. Não me refiro a uma paixão meramente selvagem e irracional, resultado do egoísmo, à espécie de coisa que encontra satisfação em multiplicar esposas. Desse ponto de vista, falo de coisas espirituais, e não materiais. Digo, portanto, que ninguém dotado da capacidade de despertar afinidade na alma humana tem o direito de apagar implacavelmente o fogo depois de acendê-lo com sua chama. Contarei uma história, caso queira ouvir.”
“Prossiga, por favor”, disse o jovem.
“Pois bem, ei-la:
“‘Era uma vez um jovem que, no auge de sua alegre inexperiência, ao passar por certa aldeia remota, despertou o amor no peito de uma moça muito inferior a ele em condição social, sem compreender plenamente o significado do que fizera. Os anos passaram vagarosamente, e seu amado nunca voltou. Enquanto isso, ele se tornara grande, conquistara honra e riqueza e, além disso, como acreditava, também amor.
“‘De vez em quando, nos recessos obscuros da memória, a recordação da jovem voltava até ele. Mas dizia consigo: “Isso pertence ao passado; deixemos que o passado morto enterre seus mortos.” Contudo, como se obedecesse a algum impulso irresistível, dia após dia aquele pensamento ganhava terreno. O que a princípio era mera curiosidade para saber o que acontecera com ela cresceu em intensidade até transformar-se numa busca verdadeira. Enviou seus criados ao estrangeiro, na esperança de que chegassem notícias daquela por quem sua alma ansiava. Mas notícia alguma veio.
“‘Por fim, abandonou a esperança e pareceu perder todo o prazer em seu belo ambiente, não encontrando satisfação nem sequer na esposa, nos filhos ou no lar. Certo dia, fora dos portões da cidade, ao regressar de um passeio solitário, viu caminhando em sua direção a mesma mulher a quem sua inexperiência juvenil não se voltara para contemplar. Seus olhos se encontraram. Ambos haviam envelhecido muito. Ambos também haviam sofrido.
“‘Ela estendeu francamente as mãos. As dele tocaram as suas.
“‘“Enfim!”, exclamou ela. “Meu coração de mulher dizia que, cedo ou tarde, voltaríamos a nos encontrar.”
“‘“E o meu há muito se encontra solitário sem ti”, respondeu ele. “Além disso, um conhecimento mais maduro ensinou-me que, no reino do amor, nada jamais se perde.”’”
Terminada a história, o narrador fez uma pausa de um segundo e acrescentou:
“Talvez agora consiga ver sob uma luz mais verdadeira a única coisa necessária, que não lhe será tirada.”
“Agora, deixando a filosofia de lado por um instante, ouso dizer que você flertou um pouco em sua vida”, disse Kwamankra com bom humor. Depois, com um brilho malicioso nos olhos, prosseguiu: “E talvez tenha um filho, um pobre ser sem nome, em algum canto remoto do mundo. Não precisa ter vergonha. Todos nós fazemos isso, embora nem todos sejamos suficientemente homens para reconhecê-lo.
“Creia-me, meu amigo, qualquer filha de Eva que deliberadamente se tornou mãe de seu filho é digna de seu amor, e tratá-la como uma proscrita é mostrar-se indigno do nome de homem. Nesse aspecto, nós, pagãos, somos mais semelhantes a Cristo que os chamados cristãos.
“‘Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra. E, novamente, Ele se inclinou e escreveu no chão’”, citou, com alguma falta de pertinência, e então continuou:
“Na África, ela é protegida; é uma esposa. Chame isso de poligamia, caso queira. Nos chamados países cristãos, ela é desprezada, é uma prostituta, uma leprosa.”
No devido tempo, Tom Palmer casou-se. Nenhuma de suas esposas procurou tornar-se líder da sociedade, e ele ficou muito satisfeito. Quanto a ele próprio, agora que recebera a herança, já não parecia provável que cumprisse a promessa de sua primeira ambição. No devido tempo, chegaram os pequenos, com seus rostinhos negros tão alegres onde quer que aparecessem, realização do amor luminoso que lhes dera a vida. E, à medida que os anos passavam, tornava-se certo que suas filhas cresciam para ser membros úteis da comunidade, pois Tom Palmer decidira que não admitiria saias parisienses nem disparates de saltos altos da Regent Street, como dizia sem rodeios, e jamais se rebaixaria a explicar-se.