XV. Como por um Espelho, Obscuramente
XV. Como por um Espelho, Obscuramente
Não faz muito tempo, na idade do mundo, as Nações reuniram-se em conselho sobre o monte Atlas, precisamente no ponto mais próximo da antiga cidade de Constantina. Não havia povo algum sem representação, salvo os etíopes, cujos reinos se estendem desde as praias do Mediterrâneo, onde este banha a costa da Líbia, atravessando o grande deserto, abrangendo os braços da poderosa vastidão de oceano a oceano, e daí descendo até as regiões mais remotas das províncias habitadas pelos cafres, raça de homens poderosos.
A reunião das Nações assemelhava-se a um encontro dos deuses, pois haviam dominado todo o conhecimento e adquirido tamanho poder que faziam os homens esquecerem o Poder que existe além, diante do qual as Nações da Terra são como gafanhotos.
Essas Nações, que nos antigos tempos pagãos lutavam umas contra as outras de maneira verdadeiramente viril, haviam aprendido um novo método de guerra, a que deram o nome de “Diplomacia”. Quando os não iniciados perguntavam a razão da mudança, explicava-se que ela era determinada pelo espírito de sua religião comum, que inculcava a fraternidade universal e a transformação das espadas em relhas de arado. Por isso aconteceu que, naquela conferência universal, as Nações disseram umas às outras palavras suaves nas quais ninguém acreditava.
Havia, contudo, uma coisa a respeito da qual aqueles homens poderosos falavam seriamente: a captura da alma da Etiópia.
Disseram:
“Todos nós crescemos em conhecimento e poder e, sendo irmãos, já não podemos devorar uns aos outros. Contudo, precisamos viver. Ensinados pelo instinto de autopreservação, devemos possuir espaço suficiente para que nossos filhos e os filhos de nossos filhos prosperem. Ora, diante de nossas hostes estende-se toda a Etiópia, de mar a mar. Vinde, vamos dividi-la entre nós.”
Estavam de pleno acordo a esse respeito, mas não quanto ao modo de realizá-lo.
Uma Nação perguntou:
“Como faremos isso, visto que somos cristãos?”
Outra respondeu:
“Tu, que duvidas, és apenas lento em conselho. A coisa é fácil de fazer. Iremos aos etíopes e lhes ensinaremos nossa religião, e isso os tornará nossos de corpo e alma, terras, bens e tudo o mais, para sempre.”
E essas palavras agradaram a todos.
Sucedeu que, no terceiro ano depois da reunião das Nações, um poderoso príncipe, navegando desde o sol poente, lançou âncora naquela região da Etiópia banhada pelas águas do golfo da Guiné. Não trazia séquito, armas nem qualquer sinal exterior de poder. Na mão, segurava uma cruz simples e, além dela, presentes.
Os Filhos da Noite reuniram-se ao seu redor com grande reverência e tomaram a chegada do estrangeiro pela visita de um deus. Os presentes, contudo, deixaram-nos à vontade, e a bebida do homem branco era para eles semelhante a néctar.
Havia entre os etíopes homens perspicazes que balançavam a cabeça e diziam:
“Isso não nos trará bem algum.”
A multidão, porém, submeteu-se à adoração do novo deus e devorou avidamente as coisas boas encontradas sobre seus altares. Logo os perspicazes formaram um grupo, e a multidão, outro campo. Isso agradou ao visitante estrangeiro.
Então ele enviou homens através dos mares e trouxe ainda outros mestres, que aparentemente ensinavam a mesma doutrina. Quanto mais ensinavam, porém, mais o povo se dividia em grupos menores, cada um denunciando vigorosamente o outro. Assim aconteceu que filhos que haviam mamado no mesmo peito e brincado com os mesmos deuses de brinquedo sentiam-se, quando homens, inclinados a matar uns aos outros.
Isso pareceu agradar aos recém-chegados e, sendo homens de conhecimento, piscaram uns para os outros e disseram que o restante viria depois.
A essa altura, a multidão irrefletida estava fora de si na imitação dos costumes do homem branco e, quando dobrava os joelhos na Casa de Mamon, acreditava adorar o verdadeiro Deus e parecia esquecer-se de que um dia fora etíope.
Os deuses reuniram-se nas alturas etéreas do monte Atlas para desfazer a obra dos mortais.
Disseram:
“As Nações são como um sonho diante de nós e não sabem o que fazem. Não são os etíopes um povo singular, destinado a desempenhar uma parte singular na obra do mundo? Que cheguem ao fim as maquinações dos homens!”
Naquela mesma era, um deus desceu à Terra para ensinar novamente aos etíopes o caminho da vida. Não veio com trovões nem com grande estrondo, mas sob a aparência de um mestre humilde, um João Batista entre seus irmãos, pregando a salvação racial e nacional.
De terra em terra e de costa em costa, sua mensagem era sempre a mesma, que, interpretada na linguagem do Cristo, dizia:
Que aproveitará a uma raça ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma?