XI. Na “Grande Ferrovia Noroeste”
XI. Na “Grande Ferrovia Noroeste”
“Digam, rapazes, em que classe vão viajar?”, gritou Aban para Tandor-Kuma e Kwamankra.
“Não vou nem na primeira nem na segunda”, respondeu Tandor-Kuma.
Como a Ferrovia do Governo da Costa do Ouro se orgulhava de possuir apenas duas classes, Kwamankra disse:
“Escutem, meus amigos, sou um homem de paz. Caso pretendam fazer alguma brincadeira, prefiro tomar o trem que parte daqui a vinte e quatro horas.”
A essa altura, o sino que anunciava a hora da partida já tocara. Kwamankra correu para comprar uma passagem de primeira classe, deixando o “Professor” e Tandor-Kuma entregues aos próprios recursos. Quando voltou, os dois haviam ocupado lugares no compartimento de primeira classe e começado a se divertir com as boas coisas que Kwamankra providenciara para a viagem.
“À sua saúde, e a outras quinhentas libras anuais, como dizem os sujeitos do outro lado da água”, disse o “Professor”, erguendo o copo na direção de Kwamankra.
Vendo que não havia alternativa, este resignou-se à situação e, com bom humor, brindou a todos os companheiros.
“Passagens! Passageeens!”, gritou o cobrador, vindo da extremidade de segunda classe do “vagão misto”.
Naturalmente, sabeis o que é um “vagão misto”. Caso não saibais, eu vos esclarecerei. É a espécie de vagão desta ferrovia em particular no qual os brancos viajam numa extremidade, seus criados e a elite negra na outra, enquanto os negros comuns são comprimidos como sardinhas num vagão separado, rotulado “segunda classe”.
Não existe qualquer regra que proíba cavalheiros negros de utilizarem um vagão de primeira classe, mas a verdade é que a classe mencionada sabe comportar-se melhor e possui demasiado respeito por si mesma para viajar na primeira, salvo em raras ocasiões, quando pode dispor de um vagão inteiro para si.
Retomando:
“Passagens! Passageeens!”, ouvia-se cada vez mais perto.
A essa altura, o “Professor” estava no meio de uma história do Mississippi, contando seu encontro com búfalos e outras fugas por um fio. Depois de obter um diploma de pouco valor, Aban, com sua habitual disposição errante, estivera viajando, muitas vezes sustentando-se com trabalhos ocasionais, e incluíra entre suas experiências o conhecimento dos japoneses, sobre os quais jamais se cansava de falar.
O cobrador observou furtivamente os três cavalheiros negros uma ou duas vezes e pareceu decidir mentalmente não perturbá-los por enquanto. O trio, por sua vez, não o perturbou nem sequer com uma atenção momentânea à sua chegada.
No instante em que o cobrador estava prestes a recuar para o compartimento de segunda classe, Kwamankra gritou atrás dele:
“Diga-me, cobrador, não quer tomar uma bebida?”
Estendeu-lhe um pouco de uísque com soda.
“Os outros fazem isso, sabe”, acrescentou, com uma piscadela significativa.
O cobrador era humano. Hesitou, depois tomou uma decisão, aceitou a bebida e partiu. Pouco depois, voltou e tornou-se comunicativo.
“Num sei, sar, se argum dos senhô, sar, é homem advogado, sar?”
Tandor-Kuma soltou uma risadinha.
“E agora?”, perguntou severamente o “Professor”.
Kwamankra permaneceu calado, parecendo não ouvir.
“Num sei, sar, mas pensei que ia mostrar pros senhô as regra que diz que cobrador deve examiná passagem de todo cavalheiro.”
Kwamankra começou a remexer nos bolsos.
“Meu bom homem”, disse o “Professor” ao cobrador, “estabeleci como regra jamais entregar minha passagem nesta linha antes de desembarcar em segurança no destino. Compreendeu?”
A ênfase pareceu perturbar o equilíbrio do cobrador. Ele se afastou furtivamente, talvez para refletir sobre as vantagens de uma ênfase, e pouco depois já se podia ouvi-lo soltando vapor no compartimento de segunda classe à custa de um Fanti inofensivo.
A essa altura, o trem já passara por Mansu. Pouco depois de deixarem a estação, houve um problema com um dos vagões, que saiu dos trilhos; foram necessários cerca de trinta minutos para recolocá-lo no lugar. A meio caminho entre Mansu e Ashieme, carregaram madeira e, quando o trem avançou pelo crepúsculo, com todos os seus apêndices mistos, tinha um estádio inteiro de comprimento. Logo mergulharam em trevas densas.
“Luz, cobrador, luz!”, gritou Kwamankra, pois no vagão separado podiam-se ouvir os gritos e os berros de mulheres e crianças.
“Digo-lhe, cobrador, luz! Está ouvindo? Luz!”, gritou o “Professor”, acrescentando um ou dois palavrões.
O palavrão produziu efeito. O cobrador abriu caminho até o vagão misto em meio a uma cena de grande confusão.
“É melhor ir buscar o Inspetor para cuidar desta desordem, ou denunciarei todos vocês, brancos e negros igualmente. Este tipo de coisa é absolutamente vergonhoso”, disse Tandor-Kuma.
O Inspetor, que nesse meio-tempo fora levado às pressas ao compartimento separado pelos gritos das mulheres e crianças, já entrara no vagão misto.
“Que diabo está fazendo, ainda sem ter acendido as luzes do vagão?”, perguntou ao cobrador, em tom ofendido.
“Num tenho fósforo, sar! Ferrovia num compra fósforo pra mim, sar!”
O Inspetor fez menção de derrubar o cobrador com um golpe, mas reconsiderou e, apanhando uma caixa de fósforos emprestada, tentou rapidamente acender a lâmpada.
Puf! A luz apagou-se.
“Tente outra vez, senhor”, sugeriu Kwamankra, secamente.
“Talvez haja uma gota de água no óleo.”
Puf! A luz apagou-se pela segunda vez.
“Tente outra vez! Tente outra vez!”, gritaram de todos os lados.
“Quer que eu desça e compre um pouco de querosene para o senhor, senhor Inspetor? Sabe que isto é absolutamente vergonhoso. Treze xelins por trinta e nove milhas, e não há óleo”, disse Tandor-Kuma.
“Tente outra vez! Tente outra vez! Derrube-o, dê-lhe uma lição!”, gritaram alguns sujeitos grosseiros.
A situação ficava um tanto excitante. O Inspetor bateu rapidamente em retirada.
“Chamam isto de ferrovia do Govêrno. É o buraco mais sujo em que já estive. África do Sul, África Oriental, África do Norte, aqueles são países. Este país é uma vergonha para o Govêrno britânico”, interveio um francês sentado no canto.
“Pú! Pú! Pú! Piu! Pú! Pú! Piu!”
Assim vinha o bufar desolador das narinas do cavalo de ferro. Fazia lembrar um cavalo de ônibus excessivamente trabalhado, à meia-noite, na Oxford Street. Primeiro para trás, depois para baixo, subindo a inclinação e descendo o declive, o cavalo de ferro brincava com a composição.
Enquanto Tandor-Kuma pensava na esposa e nos filhos que esperavam o jantar na pequena sala confortável do outro lado da ponte, não pôde deixar de conceder interiormente uma bênção ao diabo e a todas as suas obras.
Somente às nove e meia da noite chegaram ao terminal, embora o grupo tivesse iniciado a viagem de trinta e nove milhas às duas e meia da tarde.
Enquanto o trio caminhava pelas ruas solitárias, onde raramente se viam homens negros depois do pôr do sol, o Professor disse a Kwamankra, como último lembrete:
“Por princípio, nunca pago uma passagem nesta linha antes de chegar ao terminal. Caso seja um homem sensato, seguirá meu conselho.”