XIV. O Fardo do Homem Negro Etiópia Livre: Estudos sobre a Emancipação Racial · Capítulo 14 de 20
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XIV. O Fardo do Homem Negro

XIV. O Fardo do Homem Negro

Uma cabana de bambu, servindo como local de culto metodista no final de uma “Rua Principal”, e uma casa de barro coberta de ferro corrugado, servindo a Belial, com lojas de gim e barracões espalhados a pequenos intervalos ao longo de toda a via na outra extremidade: essa é uma cena típica de uma conhecida e crescente comunidade africana nas proximidades das minas prósperas da ferrovia da Costa do Ouro. É um flagelo terrível, um verdadeiro cancro, que abre caminho devagar, mas com segurança, até as próprias entranhas da vida do povo negro entre o qual foi implantada essa praga da civilização moderna.

É o domingo cristão e a hora do culto matinal.

Dim, dom! Dim, dom!

O sino toca, chamando para o culto o povo negro devoto da comunidade. Eles não são desatentos ao chamado, a julgar pelos grupos sucessivos de homens, mulheres e crianças que seguem pela pequena elevação em cujo cume se encontra a Casa de Deus. As mulheres superam amplamente os homens em número, e o edifício fica cheio até o limite de sua capacidade.

Num canto, completamente sozinho, está sentado um filho de Albion, homem de caráter independente, motivo de zombaria no acampamento, que se atreve a cultuar com o povo negro naquele dia sagrado. É uma reunião heterogênea, de homens de todas as condições, vestidos com trajes de todas as espécies, desde a mais recente casaca da Regent Street até os amplos quatro côvados de chita estampada de Manchester, graciosamente enrolados em torno do corpo.

Às dez e meia, sobe ao púlpito um pastor negro que, daquela hora até dez para o meio-dia, lê Salmos, Litanias e hinos ao som de um órgão portátil americano e desafinado. Não admira que metade da congregação adormeça e que os bedéis tenham trabalho de sobra durante o restante da manhã. Um deles, agravado pela elevação adicional do termômetro, mostra-se um tanto agressivo, e não surpreende que se veja claramente uma carranca distintamente anticristã no rosto de um cavalheiro cristão sentado ao lado do observador.

Enquanto isso, o reverendo senhor discursa com toda a força numa língua desconhecida pela maioria da congregação e, quando finalmente condescende em traduzir o sermão para o vernáculo, o melhor exemplar de Jó presente já não presta atenção, mas pergunta-se quando terminará aquele labirinto de culto.

E, nesse meio-tempo, o que acontece na casa de Belial?

“Linda Polly! Linda Polly! Como vai? Muito bem, obrigado, linda Polly! Ora! Ora!”

Esses são os diferentes sons que atraem a atenção do viajante, vindos das gargantas de meia dúzia de aves tropicais presas à casa de Belial. É verdade que os adoradores são poucos e dispersos, em sua maioria, na verdade quase todos, de uma só raça. Mas sua adoração é real, sincera e fervorosa. O povo negro começa a compreender e apreciar que existe outra adoração além da de Deus e que ambas são ensinadas pelo fetiche do homem branco, a que chamam civilização.

Ainda resta descrever uma cena mais animada. Os frequentadores das lojas de gim saem em dezenas e grupos ainda maiores. Dançam e gesticulam como se possuídos por algum espírito maligno, e o tumulto é digno da confusão e do clamor das regiões infernais. Isso também é obra do homem branco.

Assim sucede que o homem negro ao longo da ferrovia se encontra cruelmente oprimido por um fardo tríplice: o fardo da sedução na forma da ingestão de gim; da sedução na forma de casas de má fama; e da hipocrisia zombeteira do sedutor. Céus, que maldição pode igualar-se a essa?

Enquanto isso, do bairro muçulmano da comunidade aldeã, ao amanhecer, ao meio-dia e ao crepúsculo, ergue-se a voz do Muezim, como se viesse dos minaretes de Meca, convocando os fiéis à oração. Não bebem vinho nem bebidas fortes, nem permitem que essa coisa impura se aproxime de suas habitações. Conservam viva a simplicidade e a fé primitivas, combinando a piedade com o contentamento.

É uma luta entre a Cruz e o Crescente. Qual vencerá? Parece que, por fim, o Crescente vencerá, a julgar pelo padrão divino de vida. E, no entanto, Cristo é mais forte que Maomé. Mas a Casa de Cristo está dividida contra si mesma, porque os homens daquela Casa, não, os próprios líderes e portadores da lâmpada, são infiéis!

“Boa noite, senhor”, disse um mineiro branco a Kwamankra. “Pode dizer-me onde mora o cavalheiro das Índias Ocidentais que toca violão?”

“Certamente. Caso venha até aqui, mostrarei o caminho”, disse Kwamankra, levantando-se de sua simples refeição noturna. “Conhece a praça do mercado? Caminhe diretamente para baixo e tome a primeira rua à esquerda. Creio que o encontrará na penúltima casa.”

Kwamankra voltou à refeição, agradecido por ter-se livrado daquilo que ameaçava tornar-se uma séria interrupção de seus pensamentos.

Dez minutos depois, o mineiro voltou.

“Posso entrar?”, perguntou.

“Sim, entre”, respondeu Kwamankra.

“Não o encontrei. Disseram que desceu para a Costa. Qual é seu nome?”, arriscou o mineiro. “O senhor fala inglês tão bem. É advogado?”

Falava um pouco arrastado. Kwamankra não respondeu, mas assumiu uma expressão espirituosa que dizia, o mais aproximadamente possível: “E se eu for?”, ao mesmo tempo que fazia sinal para o mineiro sentar-se.

“Sabe, já o vi em algum lugar. Seu rosto me é familiar. Deve ter sido no trem”, insistiu o mineiro.

“Sim, venho para cá e volto com bastante frequência.”

“Sabe, desci esta noite de propósito para divertir-me um pouco com o fotógrafo do outro lado. Sou muito bom numa verdadeira cantoria americana e, caso não se importe, poderemos passar um belo momento juntos.”

“Não, obrigado. Tenho um trabalho de escrita a fazer e preciso avançar antes de dormir. Kofi, por favor, mostre a este cavalheiro o caminho até o fotógrafo do outro lado”, disse, dirigindo-se ao criado que estava na varanda.

“Oh, posso tomar um pouco de água?”

“Tenho cerveja Tuborg, excelente bebida. Talvez lhe pareça mais agradável. Kofi, traga um pouco de cerveja.”

O mineiro acomodou-se na confortável cadeira de lona que estava no canto.

“Pois bem, chefe”, prosseguiu, “conheço um pequeno serviço que posso colocar em seu caminho. Há um homem em meu acampamento que trabalhou durante um ano e catorze dias e, apenas porque se divertiu um pouco hoje, foi despedido e deve pagar a própria passagem de volta para casa. Acha isso justo? Caso aceite o assunto, mandarei que o procure pela manhã. Que nome devo dar?”

A mesma expressão interrogativa e um sorriso, como incentivo para que prosseguisse e terminasse logo o assunto, foram toda a resposta de Kwamankra.

Enquanto isso, o mineiro esvaziou o segundo copo de cerveja Tuborg. Tornou-se mais confidente.

“Sabe”, disse, “querem que eu faça lá em cima o trabalho de assentador de trilhos, mas o velho B. insiste em pagar-me apenas quinze xelins por dia e, como não sou tolo, guardo meu sabi aqui.”

Apontou significativamente para a cabeça.

“Além disso, acham que sou íntimo demais do povo negro e não gostam quando me veem sentado e bebendo com eles. Mas não me importo. Não existe parte deste distrito em que eu não tenha estado, e os Fantis sempre se comportaram comigo como cavalheiros. Estou sempre pronto a fazer-lhes um favor.

“Sabe, o velho B. quis pregar em mim o mesmo truque que usou contra meu amigo. Disse-me outro dia: ‘Você está bêbado e, caso isso aconteça de novo, irá embora com malas e tudo.’ Veja bem, eu não estava bêbado. Hoje fiquei bêbado e fui até ele dizer: ‘Ora, senhor B., estou bêbado, e muito bêbado, e, caso seja homem, saia em mangas de camisa para resolvermos isso.’ Ficou manso como um cordeiro”, disse quase num sussurro, acompanhado de uma risada baixa.

Kwamankra juntou-se sinceramente ao riso.

“Kofi, mostre a este cavalheiro o caminho até o fotógrafo. Atenção, senhor, há valas pelo caminho”, disse Kwamankra.

“Boa noite, senhor”, respondeu o mineiro.

Dez minutos depois, estava de volta. Kwamankra ocupava-se com seus escritos. O mineiro mal se atrevia a interromper o fluxo de ideias.

“Disseram-me que o fotógrafo saiu”, explicou.

“Muito bem, senhor. Boa noite”, disse Kwamankra, mal erguendo os olhos de sua escrita.

“Como último favor, importaria-se de mostrar-me onde posso encontrar uma cama para esta noite? Disseram-me que há um hotel por aqui.”

“Tenho certeza de que não conheço nenhum, e aconselharia o senhor a regressar ao acampamento”, disse Kwamankra, fixando no mineiro um olhar penetrante que dizia claramente: “Pergunto-me se é um homem honesto.”

Com isso, o mineiro desapareceu nas trevas exteriores, mas a história guarda silêncio sobre se a mesma operação não foi repetida em outro lugar naquela noite.

No dia seguinte, Kwamankra deveria descer para a Costa e tomou o trem da tarde, tendo o “Professor” como companheiro. O compartimento de segunda classe estava cheio, portanto viajaram na primeira. Embora recebessem muitos olhares furiosos, ninguém ousou interrogá-los.

Kennedy Bilcox, o Oficial Político, também descia no mesmo trem e, disposto a mostrar-se amável, e tendo tomado na despedida um copo além do que lhe seria conveniente, inclinava-se às confidências. Além disso, embora detestasse profundamente os homens de cor, julgava politicamente conveniente aparentar as melhores relações com os líderes do povo. Pensava que assim conquistava a confiança deles. Na verdade, despertava-lhes as suspeitas e, por conseguinte, recebia sua desconfiança.

Naquela ocasião auspiciosa, estava cheio das grandes coisas que fizera no interior, de como, metaforicamente, surrara o Chefe de Tandosu até a humildade e de como o pobre homem se encolhera de medo diante dele.

Pouco depois, voltou-se para Kwamankra e disse:

“Diga-me, conhece aquele patife, Kobina Bua? Ouvi dizer que é seu cliente. Será melhor aconselhá-lo a comportar-se devidamente no futuro ou, por Júpiter, acabará em St. Jago.”

“Mas o que ele fez?”, perguntou Kwamankra.

“O que fez? Ora, o tolo está perpetuamente bêbado, perdeu todo sentido de decência e está sempre provocando alguma palaver em Tandosu.”

“Oh, é só isso?”, disse Kwamankra, provocadoramente.

“O senhor me surpreende, senhor Kwamankra. Pensar que um homem de sua posição e instrução não encontra nada a condenar na conduta vergonhosa de Kobina Bua!”

“Pessoalmente, não condeno homem algum. Mas, já que fala de condenação, permita-me indicar que a maior condenação se encontra à porta do Governo que o senhor representa e do qual é servidor.

“O senhor condena Kobina Bua e presume fazê-lo pelo fato de ser um Oficial Político. Como homem imparcial, permita-me convidá-lo a olhar o outro lado do quadro. Sabe que o gim comercial contém óleo fúsel e outros ingredientes nocivos e mortais. Também sabe que essa é a substância cuja importação no país o Governo permite e que por fim desce pela garganta de ‘patifes’ como Kobina Bua.

“O senhor não ousa impedir a importação dessa bebida vil. Por quê? Porque isso afetaria salários, pensões, gratificações de serviço e outras vantagens. Em nome da razão, como pode esperar que o homem negro comum, dispondo dos meios para entregar-se ao consumo de gim, mantenha a cabeça no lugar e se comporte decentemente?

“Assim, quando um funcionário do Governo visita um desses dignitários africanos, que de outro modo seria inofensivo, e é recebido por este com uma cordialidade extraordinária, após o que o funcionário, perdendo o domínio de si, descarrega contra ele a própria ira em eloquentes perífrases e envia às autoridades relatórios condenatórios, o observador, caso seja um buscador da verdade, certamente sente a tentação de tocar levemente o funcionário nas costas e dizer:

“‘Hipócrita, tira primeiro a trave de teu próprio olho, e então verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão.’”

Kennedy Bilcox pareceu fulminado, mas Kwamankra, sem lhe dar atenção, continuou:

“O senhor sabe, e o mundo inteiro sabe, que, se o chefe negro e seu povo deixassem de consumir a bebida vil que os comerciantes lhes oferecem, toda a máquina do Governo pararia de funcionar por falta da necessária lubrificação.

“O senhor é cristão, naturalmente. Quando se reunir com os amigos e, em conselho, sentir inclinação a tratar meu cliente com severidade, lembrem-se das palavras do Mestre:

“‘Limpais o exterior do copo e do prato... dais o dízimo da hortelã, da arruda e de toda espécie de ervas, mas desprezais a justiça e o amor de Deus.’”

Quando o Professor e Kwamankra apertaram as mãos na estação, o primeiro disse ao amigo:

“Foram palavras corajosas. Mas pode ter certeza de que esse tipo de coisa lhe trará problemas um destes dias. Ainda assim, aqui está minha mão. Sempre que precisar de auxílio, sou seu homem.”

Kwamankra falou em voz baixa:

“Calculei o custo, e talvez necessite de tua ajuda quando chegar a hora.”

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