VI. O Mundo, a Carne e o Diabo Etiópia Livre: Estudos sobre a Emancipação Racial · Capítulo 6 de 20
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VI. O Mundo, a Carne e o Diabo

VI. O Mundo, a Carne e o Diabo

Para o reverendo Silas Whitely, a sorte estava lançada. Tendo passado da faculdade à ordenação sem quaisquer ideias definidas acerca de sua relação pessoal com Deus em Seu filho Jesus Cristo, ou de qualquer outra forma, e cedendo ao conselho de um antigo colega de faculdade chamado Kennedy Bilcox, que naquela época ocupava o cargo de Oficial Político na Costa do Ouro, decidira apresentar uma candidatura à Capelania Colonial de Sekondi, em vez de continuar enfrentando uma vida de penúria como vigário auxiliar no leste de Londres, sobretudo porque conhecia um ou dois amigos que poderiam exercer com grande habilidade, em seu favor, a influência dos bastidores junto aos funcionários do Ministério das Colônias.

“E quanto é o ordenado?”, perguntou Whitely, ansioso, quando Bilcox lhe fez a sugestão pela primeira vez.

“Oh, trata-se apenas de umas quinhentas libras anuais, com aumento de vinte e cinco libras por ano até alcançares seiscentas libras, além de taxas e gratificações incluídas aqui e ali, viagens gratuitas de ida e volta a cada doze meses, etcétera, etcétera, etcétera, com um capelão assistente, naturalmente um homem negro, para poupar-te do trabalho desnecessário.”

“Isso é mais que suficiente para mim, mesmo sem os etcéteras, e agradeço-lhe do fundo do coração por me dar uma pista de semelhante colocação. Por São Jorge! Como vocês, coloniais, são mimados; e pensar que eu pretendia enclausurar-me no leste de Londres pelo restante de minha vida natural!”

“Mas lembra-te”, interveio Bilcox, “estarás sujeito à disciplina. Não deves, por exemplo, unir-te ao tolo grupo dos ‘progressistas’, ou tuas possibilidades de promoção serão absolutamente nulas e poderás até correr o risco de ser completamente posto de lado. O processo de afastamento é simples. Adoeces de febre; és enviado para casa por invalidez; nunca mais regressas. Isso é tudo.”

“Não precisas temer quanto a isso. Não tenho inclinações nessa direção. Mas conta-me tudo sobre os ‘progressistas’ da Costa do Ouro.”

“Ora, não passam de um pequeno grupo de tolos brancos, cegos demais para perceber de que lado o pão está amanteigado, e que defendem direitos iguais para os nativos e toda essa espécie de bobagem. Agora, entre nós”, acrescentou, soltando uma risada baixa e maliciosa, “o próprio Vice-Governador tinha inclinações progressistas quando chegou para trabalhar entre nós e não quis aceitar os conselhos de nós, velhos frequentadores da Costa. Parecia então capaz de jantar negros, perdoa um pouco do linguajar da Costa, até ser mordido, e mordido com bastante força, posso garantir. Agora já não canta a melodia ‘progressista’.”

Bilcox deu especial ênfase à última observação.

“Mas como foi mordido, e por quem?”

“Pelos Fanti, naturalmente. Não leste nos jornais da época como as mulheres Fanti o vaiaram na província central? Eu queria bombardear a fortaleza delas e mandar os negros fugirem por todo o país, mas o velho desastrado, o Secretário Permanente do Ministério das Colônias, que, a propósito, é quem realmente manda em tudo, não nos permitiu. É intolerável pensar em negros vaiando um Vice-Governador.”

“Confesso, Bilcox, que não consigo perceber a enormidade da ofensa. Suponho que deva ter havido algum motivo para vaiar o bom Governador.”

“Oh, tudo dizia respeito à questão do Conselho Provincial”, respondeu Bilcox, cansado, como se fosse atingido por um pensamento repentino. “Preciso ir para casa agora. Minha filhinha estará ansiosa para receber o papai. Vim a Londres para sacar meu pagamento, e encontrar velhos frequentadores da Costa parece sempre despertar, de algum modo, a parte bruta do homem.”

“Como assim, Bilcox?”, perguntou Whitely. “Certamente deves ter melhor opinião de teus companheiros.”

Bilcox, ignorando a provocação, disse num tom triste:

“Sabe, Whitely, às vezes não consigo suportar as pequenas perguntas curiosas que minha filha me faz quando regresso da África. Ela tem a ideia de que Deus fez de um só sangue todas as nações para habitarem sobre a face da Terra. Conheces a citação; pertence mais ao teu campo. Não sei de onde ela tirou semelhante noção, mas ela salta sobre meu joelho e, olhando-me diretamente no rosto com seus delicados olhos azuis, começa:

‘Papai, espero que tenhas sido muito bom para aquelas pobres pessoas africanas de quem precisas cuidar. Dizem que às vezes são maltratadas, mas serás bondoso com elas, não serás?’

“Quando estou sozinho, penso nessas coisas, e meu melhor eu me sussurra que os sentimentos da criança estão certos e contradizem diretamente a natureza de meu trabalho oficial.”

“Há muita razão no que dizes. Para ser franco, Bilcox, devo dizer que não compreendo, por exemplo, por que homens sensatos deveriam ficar histéricos porque um Vice-Governador foi vaiado. Ora, estive outro dia numa reunião no Queen’s Hall, em que o senhor Balfour foi recebido com assobios e, durante um tempo considerável, não conseguiu fazer-se ouvir. Não me lembro de os Hussardos terem sido convocados para castigar aquele pequeno grupo travesso de bárbaros britânicos, como Grant Allen nos chama bem-humoradamente. E lembra-te de que ele era o Primeiro-Ministro.”

“Talvez esse seja o modo razoável de examinar a questão, mas todos nós sofremos de uma aflição conhecida como consciência da Costa; e que os poderes te preservem se, como pastor, fores contaminado por ela quando chegares lá. Quanto a mim, enlouquecerei completamente um destes dias, caso não abandone em breve este trabalho.”

No devido tempo, o reverendo Silas Whitely recebeu a nomeação de Capelão Colonial de Sekondi e não achou que os rendimentos do cargo tivessem sido exagerados de maneira alguma por seu amigo, o Oficial Político. Sua mãe ficou satisfeita, mas, para fazer justiça ao reverendo cavalheiro, antes de embarcar seu coração estava cheio de apreensões, primeiro quanto à sua própria condição espiritual e, depois, quanto a possuir coragem moral para, diante da pressão oficial, cumprir seu dever como homem.

Alguns meses de vida na Costa, contudo, logo resolveram todas as suas dúvidas. Por que deveria preocupar-se com a questão de sua condição espiritual? Não era o primeiro clérigo perturbado por escrúpulos de consciência. Cumpriria a rotina ordinária de seu trabalho e, quando seu período terminasse, arrumaria suas coisas e partiria. Além disso, parecia-lhe que havia avaliado muito generosamente o caráter negro.

Passara a considerar os negros nada além de um bando de pessoas desonestas, que roubavam comerciantes brancos à direita e à esquerda, contrabandeavam mercadorias proibidas e defraudavam o Governo de Sua Majestade sempre que podiam. Seu dever como Capelão Colonial era claro. Deveria ensinar àquelas pessoas os princípios elementares da honestidade, trabalhando assim de mãos dadas com os juízes de Sua Majestade, que haviam chegado à mesma conclusão.

Era verdade que havia algumas exceções entre a classe instruída, mas ele começava a alimentar dúvidas sobre como classificar até mesmo aquela classe e não tinha certeza alguma de como receberia Kwamankra, a quem, assegurava a si mesmo, conhecera apenas superficialmente na Universidade, caso acontecesse encontrá-lo na Costa do Ouro.

O Capelão Colonial Assistente era o reverendo Kwaw Baidu, que recebia um salário anual de cento e cinquenta libras. Além de realizar o trabalho pastoral ao longo da ferrovia, incluindo a administração de uma missão em Tarkwa, lançava-se sobre ele a maior parte do trabalho da capelania, enquanto o próprio Capelão se contentava em receber seu generoso salário e levar a vida com tranquilidade, pois, como fazia questão de explicar, o médico o aconselhara a fazer o mínimo possível por causa do clima terrível.

Fora dos deveres estritamente oficiais, o Capelão Colonial nada tinha a ver com seu assistente, que era homem de alta cultura e, sob certos aspectos, seu superior, pois obtivera um grau acadêmico melhor que o do Capelão. Não que o Capelão fosse de algum modo cruel com o Capelão Assistente. Oh, céus, não! Apenas desejava que houvesse entre eles o entendimento mútuo de que um abismo natural estava estabelecido, o abismo da diferença entre suas respectivas posições sociais. Assim, caso ambos estivessem trabalhando juntos na capelania e, digamos, o Supervisor da Alfândega aparecesse, ele dizia educadamente:

“Senhor Baidu, poderia fazer a gentileza de me dar licença? Encontrará a varanda fresca e confortável.”

E jamais se arriscava a apresentá-lo.

O reverendo Kwaw Baidu era homem de espírito humilde e, enquanto o Capelão Colonial não entrasse em conflito com ele em questões de princípio, não se importava. Por fim, contudo, surgiu uma ocasião de tropeço e uma pedra de escândalo sob a forma da questão da segregação.

A cidade de Akrokeri fora dividida de modo que um bairro europeu ficasse diretamente diante da ferrovia, ocupando o melhor local oferecido pela região, enquanto o chefe nativo e seu povo, que por direito deveriam possuir toda a extensão da terra, com exceção daquela efetivamente necessária às minas para a construção, haviam sido instalados, com a conivência do Governo, nas encostas íngremes de uma cadeia de colinas a leste, pelas quais precisavam pagar aluguel trimestral.

Quando, porém, surgiu a questão da construção de um cemitério para o sepultamento dos habitantes de Akrokeri, e os moradores europeus defenderam que, em hipótese alguma, misturariam seus mortos aos mortos de “negros”, e o assunto foi encaminhado pelo Oficial Político à capelania para que desse seu parecer, o reverendo Silas Whitely sustentou que os europeus estavam certos, e isso enfureceu o reverendo Kwaw Baidu.

“Pretende dizer, o senhor, um embaixador de Jesus Cristo, que apoiará semelhante absurdo, que destrói os fundamentos de toda a caridade cristã? Não admira que o povo faça ouvidos moucos a todos os meus apelos. Falarei claramente com o senhor, ao menos desta vez. Se não ceder à razão e ao espírito de Cristo, a quem o senhor e eu professamos seguir, denunciarei sua conduta ao Bispo e, se for necessário, apelarei ao Arcebispo de Canterbury.”

“Pode fazer o que desejar, senhor Baidu, mas parece esquecer-se de que esta é uma Colônia britânica e de que o seu salário e o meu são pagos pelo Governo Colonial, não pelo Arcebispo de Canterbury. Além disso, considero sua oposição um ato de insolência, e o senhor deve considerar-se suspenso até que eu recomende sua demissão às autoridades superiores.”

No devido tempo, o reverendo Kwaw Baidu foi compulsoriamente aposentado do serviço colonial, e um caminho de trinta e seis pés de largura foi demarcado entre os cemitérios europeu e nativo. O primeiro foi cercado com grande beleza, utilizando-se dinheiro em sua maior parte contribuído pelo povo negro. Mas o assunto se espalhou, e não havia uma única alma na diocese de Sekondi que não tivesse tomado conhecimento dele.

Uma velha decrépita, que mancava penosamente apoiada em muletas, entrou no pátio da capelania e insistiu em falar com o capelão branco.

O pátio da capelania era mantido escrupulosamente limpo, e o pequeno jardim adjacente, com hibiscos e crótons crescendo em rica profusão, todos cercados por festões de ervilhas-de-cheiro e feijões-escarlates em início de floração, demonstrava tão claramente quanto podem fazê-lo as aparências externas que o reverendo Silas Whitely apreciava plenamente as coisas boas da vida.

O Capelão Colonial jantara bem e saboreava um charuto de Havana sob as copas abertas das árvores-de-pão que ornamentavam o pátio da capelania. A lua cheia lançava uma chuva de luz prateada através das miríades de folhas dos ramos estendidos, formando ao redor de seu rosto um halo inteiramente incompatível com os pensamentos mundanos que, naquele momento, ocupavam a mente do reverendo cavalheiro.

“Sim, acredito que até um embaixador de Cristo tenha direito a divertir-se. Por que haveria eu de ser um asno tão tolo a ponto de recusar um uísque com soda no Clube? Além disso, devemos tornar-nos todas as coisas para todos os homens. Essa é claramente a recomendação das Escrituras e convém perfeitamente ao meu humor atual. Portanto, lá vai; está feito.”

Disse isso enquanto sacudia do charuto as cinzas ainda acesas.

Uma tosse profunda e baixa chamou a atenção do reverendo Silas Whitely, que se voltou para descobrir de onde vinha. Pensara que estivesse sozinho.

“Foi você, Nancy?”, perguntou, dirigindo-se à velha. “O que a traz aqui esta noite?”

A mulher a quem ele se dirigira fez uma profunda reverência. Fora educada na escola da Missão, concluindo os estudos na Escola Superior, e falava inglês com notável fluência. Amara e perdera, primeiro o marido, depois o filho único, que fora para o marido a menina dos olhos e, portanto, duplamente querido para seu coração de mulher.

Disse eu que os perdera? Não, eles não estavam perdidos. Pelo menos, assim lhe haviam ensinado os missionários, e, quando estava triste, o capelão a consolara com a esperança da manhã da ressurreição. Passara a acreditar que, em algum lugar de outra esfera, eles a aguardavam; e seu único pensamento era aquela hora feliz em que, certo dia, eles a receberiam num lugar ao lado deles. Vivia e trabalhava por essa esperança.

De vez em quando, julgava ter vislumbres Daquele que dissera: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, e haviam-lhe ensinado que o caminho para Ele consistia em conservar a verdade.

Havia algum tempo, um fardo opressivo apertava dolorosamente seu coração, e ela sentia que seria aliviado caso dissesse ao reverendo Silas Whitely a verdade, tal como a concebia. Ali estava para fazê-lo, mas ainda não sabia como.

Um vento suave agitava a luxuriante folhagem acima de sua cabeça e, através dos galhos, as estrelas luminosas contemplavam aquela velha simples, cujo único desejo era estar em harmonia com o Deus da Natureza. Uma inspiração repentina, semelhante ao vento que sopra onde quer, chegou até ela.

Contaria ao capelão uma história, pois ouvira dizer que ele apreciava as histórias Fanti e costumava colecioná-las. E que ocasião poderia ser melhor para narrar histórias do que uma noite enluarada na África?

Nancy deixou de lado as muletas, sentou-se num banco baixo oferecido pelo Capelão e limpou a garganta, perturbada por uma ou duas tosses.

“Tenho uma bela história para contar ao senhor e acrescentar à sua coleção. Como esta noite me senti um pouco mais forte que de costume, pensei em vir até aqui.”

“Certamente, será muito bem-vinda”, disse o reverendo Silas Whitely. “Comece, Nancy; estou ansioso para ouvi-la.”

“Era uma vez”, começou Nancy com voz clara e sonora, “dois sacerdotes maometanos que partiram para um país muito distante a fim de trabalhar para Alá. Depois de algum tempo, seus caminhos os conduziram a distritos diferentes, e raramente tinham notícias um do outro. Como era costume entre eles, os missionários trabalhavam com couro e em outras atividades úteis; mas aconteceu que Akarbah alcançou sucesso e enriqueceu em bens mundanos, enquanto Adaku, seu amigo, apenas vivia com o necessário de cada dia. Ainda assim, Alá abençoava seus trabalhos.

“Como acontece no mundo, a companhia de Akarbah passou a ser procurada pelos homens mais importantes da terra; e, quando contava as contas de seu rosário à hora da oração, jamais deixava de agradecer a Alá por todo o bem que Ele lhe concedera.

“Certo dia, ao regressar da casa de oração, encontrou um mensageiro, que lhe entregou um pedaço de pergaminho escrito em árabe. Abriu-o e descobriu que era uma mensagem de seu irmão missionário, que, como sabia, ocupava posição humilde e inferior nas coisas deste mundo.

“‘Neste dia’, dizia a mensagem, ‘eu, Adaku, teu irmão missionário, hospedar-me-ei contigo.’

“Akarbah franziu o cenho. Era muito inconveniente. Naquele mesmo dia, o Alto Xerife jantaria com ele, o rico e próspero Akarbah, e o que diria se encontrasse à mesa um frade mendicante, um sacerdote maometano? Estava decidido. Aquilo não poderia acontecer.

“‘Aqui, rapaz, leva rapidamente este pergaminho de volta a meu irmão Adaku. Certifica-te de entregá-lo, e darei a ti minha bênção e uma moeda de prata quando regressares.’

“O rapaz correu passando pelos camelos, cavalos e bois das praças dos mercados e saiu pelo quinto portão da cidade, apenas para descobrir que o sacerdote Adaku já não se encontrava no lugar em que esperava encontrá-lo. Adaku já entrara pelo sétimo portão e estava dentro dos recintos sagrados da morada de Akarbah.

“‘Salve, irmão’, foi a saudação de Adaku. ‘Que Alá seja para sempre misericordioso contigo.’

“Em resposta, Akarbah tremeu visivelmente de agitação.

“‘Não recebeste o pergaminho?’

“Adaku olhou para o amigo com expressão vazia.

“‘Que pergaminho?’

“Akarbah não respondeu, mas deixou subitamente os recintos de sua morada, como se fosse atingido por um pensamento repentino. As horas passaram, mas não trouxeram Akarbah de volta. Por fim, a verdade raiou na mente de Adaku.

“‘Evidentemente, não sou desejado aqui.’

“Calçou as sandálias, apanhou o cajado e saiu da casa do amigo, sacudindo a poeira dos pés enquanto partia, sem jamais deixar de mencioná-lo, segundo se conta, e sem ira, quando contava as contas de seu rosário na casa de Alá.”

“Que história curiosa, Nancy; o que deseja dizer com ela?”, perguntou o reverendo Silas Whitely, quando a velha terminou o que tinha a dizer.

“Sim, é curiosa”, respondeu ela. “Mas sabe, capelão, ultimamente tenho alimentado dúvidas muito graves sobre se tudo aquilo que o senhor nos diz, naqueles belos sermões que lê todos os domingos, acerca do amor de Deus, do céu e de todas as demais coisas pode realmente ser verdade. E, oh, o que farei, depois de todos estes anos de espera cansativa, caso não sejam verdade? Onde está meu marido, e onde está meu filho?”

Era doloroso contemplar o sofrimento e a angústia no rosto da pobre mulher.

“Não continue assim, Nancy. Mas o que existe para fazê-la duvidar do céu e do amor de Deus?”

A velha enxugou uma ou duas lágrimas e disse, muito lenta e deliberadamente:

“Capelão, quando terminei de contar minha história, o senhor me perguntou o que eu desejava dizer com ela. Durante algum tempo, tenho rogado a Deus, de noite e de dia, que me tornasse capaz de responder a essa mesma pergunta quando ela fosse feita, e agora, com a ajuda de Deus, responderei.

“Saiba, então, que o senhor é o Akarbah de minha história. Deus o exaltou acima de seus companheiros para que fosse um guia para nós, Seus pobres pequeninos abandonados, e nos mostrasse o caminho do amor e o caminho para o céu.

“Mas certamente o senhor não tratou com amor seu irmão Kwaw Baidu, que agora está sem trabalho, com esposa e filhos dependentes dele, e cuja história é conhecida por todos os paroquianos, quilômetros e quilômetros ao redor.

“E, oh, caso o céu sobre o qual o senhor tantas vezes pregou tenha dois caminhos que conduzem até ele, um para nós, o povo negro, e outro para vocês, nossos senhores, que lugar indesejável deve ser para nós, depois de toda a fadiga sofrida aqui embaixo.

“Mas diga-me, o senhor que despertou em mim essa esperança, onde está agora meu marido, e onde está meu filho?”, exclamou a pobre mulher, torcendo as mãos. “Diga-me, pois o senhor ajudou a despertar falsas esperanças em mim. Oh, Deus! O que farei?”

E a pobre mulher caiu desmaiada, completamente inconsciente. Todos os esforços foram feitos para reanimá-la, mas sem resultado, e, quando o médico chegou, declarou que a vida se extinguira.

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