V. Na Metrópole da Costa do Ouro
V. Na Metrópole da Costa do Ouro
No ano da graça de 1904, não existia sistema algum de abastecimento de água na cidade de Sekondi, o pequeno domínio predileto do Governo de Sua Majestade na Costa do Ouro. E isso de modo algum era estranho. O Governo e o povo da Costa do Ouro sempre haviam dependido da Providência para obter uma necessidade tão comum da vida quanto a água. Assim sucedeu que, quando a Metrópole estava sendo dividida em “Ruas Principais” e espaços abertos, não ocorreu às autoridades que o homem era um animal sedento, apesar dos discretos lembretes feitos por homens experientes no passado. Se pesquisardes os arquivos coloniais, descobrireis que, na década de oitenta do século anterior, o doutor Lamprey, do Serviço Médico do Exército, propôs um plano simples para abastecer de água potável a antiga cidade de Cape Coast. O Governo adormeceu sobre a proposta e tampouco despertou diante da sugestão de conduzir as águas do Homo até Acra, sede do Governo. No estado atual das coisas, quando a Providência falta à Metrópole, sabe-se que os homens chegam realmente a recorrer à água gaseificada para as abluções diárias.
Ora, se desejardes ver Sekondi em seu melhor aspecto e a questão da água em seu pior estado, deveis aproximar-vos da cidade no mês de março, a bordo de um dos navios dos senhores Elder Dempster, isto é, na estação do ano em que outras partes do país já estão sendo banhadas por chuvas refrescantes. Ao contornardes a baía de Tacradi, vereis a mãe da civilização da Costa do Ouro envolta numa camada de nuvens suspensas, carregadas de eletricidade. A vista lateral que se apresenta revela uma cidade de grandes promessas. Já há sinais de que os céus estão prestes a ceder, e as gotas de chuva tamborilam sobre o convés do navio. Mas, enquanto ainda vos perguntais quão molhado será o desembarque, um clarão irrompe no nordeste, e o Titã da esfera superior salta triunfante por sobre o trovão e a tempestade. Enquanto retirais a capa impermeável, um velho frequentador da Costa, de espírito cínico, diz:
“Isso é Sekondi por inteiro; não me surpreenderia se todos os reservatórios estivessem secos.”
Em outras partes do mundo, as obras portuárias geralmente precedem as ferrovias; mas aqui um arremedo de cabeço de cais serve como instalação portuária. O resultado é que se deve desembarcar num barco aberto, muitas vezes com a arrebentação enfurecida revolvendo-se ao redor. Suponhamos, contudo, que tenhais desembarcado em segurança. Se conhecestes Sekondi nos dias de sua inocência original, descobrireis agora que uma ponte de ferro atravessa a antiga fronteira natural entre as cidades inglesa e holandesa. Dos ecos sob a ponte procede a monótona lamentação de uma locomotiva asmática, que parece tentar realizar o trabalho de duas máquinas num clima que, segundo alguns, é nocivo ao homem, aos animais e às locomotivas.
Onde outrora se erguia a cidade inglesa, e nas terras altas que ficam além, pode-se ver ao pôr do sol certo número de casas de madeira bem dispostas sobre pilares de tijolos, curiosas e impressionantes à distância, mas decepcionantes quando vistas de perto. Ao pé da colina fica a estação ferroviária, o primeiro sinal de civilização que se encontra na Costa do Ouro. É o terminal da “Grande Ferrovia Noroeste” da Costa do Ouro. E bela linha ela é, com suas curvas vivazes, seus declives e seus trinta e nove quilômetros percorridos em cerca de três horas. Mas estou me antecipando.
Caso não tenhais pressa de descer, podeis acompanhar-me até o bangalô do Gerente, de cuja espaçosa varanda se contempla Sekondi do alto, banhada pelo crepúsculo, enquanto o sol avança vagarosamente pelo céu ocidental até mergulhar no seio do poderoso oceano. Quão repousante é a cena!
Se conheceis a história dessa cidade, um rápido olhar trará à memória os sinais de antigos conflitos, pois, dominando a baía, ergue-se o velho Forte, símbolo da luta entre holandeses e ingleses nos dias anteriores às locomotivas. A luta era, nominalmente, entre duas nações europeias; na realidade, travava-se entre duas facções aborígines que, tanto quanto se sabe, poderiam ter vivido em paz. A bandeira holandesa ou inglesa era o estandarte que atraía os nativos aos milhares para campos opostos e pelo qual derramavam livremente seu sangue, apenas para que o homem branco obtivesse maior liberdade de trocar bebidas falsificadas pelo metal precioso que as chuvas torrenciais carregavam até as próprias portas dos aborígines.
É uma reflexão triste, mas legítima, que, nos dias atuais, os sucessores dos líderes que suportaram o calor e a fadiga do dia para que o comércio britânico pudesse firmar-se nestas praias não sejam lembrados pelo Governo britânico como deveriam. É verdade, porém, que estão protegidos, muito protegidos, receia-se. Para sermos exatos, são lembrados algumas vezes na divisão de seus territórios, na redução de sua autoridade e, pior que tudo, em certos casos, no lançamento das sementes de discórdia destinadas a destruir a integridade de um povo.
A obra de destruição, falando em termos gerais, prossegue não à luz do dia, mas, metaforicamente, nas horas escuras da noite. O poderoso Titã não derruba sua vítima nem lhe tira imediatamente a vida. Oh, não! Seria um método demasiado grosseiro. Com a garrafa de gim numa das mãos e a Bíblia na outra, ele recomenda a excelência moral, que, no íntimo do coração, sabe ser impossível ao africano alcançar nas circunstâncias existentes; e, quando este fracassa, seu benevolente protetor transforma semelhante fracasso em motivo para desmembrar-lhe a tribo, alienar-lhe as terras, apropriar-se de seus bens e minar os fundamentos de sua autoridade e de suas instituições. Aplicando a comparação de Tennyson, somente o Titã sabe o que o Titã deseja ou o que pretende. E, durante todo esse tempo, permanece a verdade eterna de que a linha natural de desenvolvimento dos aborígines é racial e nacional, e de que esse é o único caminho para relações e empreendimentos europeus bem-sucedidos. A situação dificilmente poderia ter sido expressa de maneira mais acertada do que nos versos sugestivos do senhor Guy Eden, que, com admirável perspicácia, escreveu em “O Rei dos Negros”:
“Vestido com os trapos civilizados da humanidade,
De olhos turvos e desgrenhado, manca pela rua,
Sorrindo a todos com infantil urbanidade,
Mendigando a quem quer que encontre em sua passagem.
Mendiga, mas não por roupas inteiras que o cubram,
Nem pelo alimento que desejará, poderíeis pensar.
Não, uma paixão civilizada o domina,
Tudo quanto pede e deseja é beber!
“Mas nos dias muito anteriores à chegada do homem branco,
Aqui, neste lugar onde cidade alguma se conhecia,
Fome e sede eram duas coisas que Billy jamais temia,
Ao redor havia abundância, e tudo era seu.
Tudo era seu, pois uma tribo lhe prestava homenagem,
Chamava-o de Rei, naqueles dias passados;
Súditos às dezenas lhe ofereciam toda a lealdade,
Primeiro entre os homens era então, agora é o último!
“Onde estão todos aqueles que fariam semelhante algazarra,
Vagando pelo mato como crianças felizes a brincar?
Onde o louco turbilhão da ‘corroboree’ tribal,
Onde o canto selvagem ao terminar o dia?
Dispersos e desaparecidos, pois o mundo não tinha lugar para eles,
De muito além dos mares veio o grito impiedoso:
‘Por que deveriam viver? O Destino escreveu em letras grandes sua condenação,
Terra para os brancos! Deixai morrer os homens negros!’
“‘Terra para os brancos!’ Sim, a resposta veio depressa,
A Civilização, com passo ardente e ansioso,
Precipitando-se sobre eles, com a goela aberta de cobiça,
Engoliu-os em seu lamentável orgulho.
Vede ali o último deles, Rei nos dias antigos!
Agora, entre os mais inferiores, ocupa o último lugar.
Certamente algum dia, quando a história da vida for contada,
Os anjos chorarão pelo último de sua raça!”
Mas estávamos lançando um rápido olhar sobre Sekondi, e nosso companheiro não era outro senão Kwamankra. Refizemos nossos passos pela ponte ferroviária e agora estamos em Sekondi Holandesa.
Na ala esquerda da rua há diversas casas comerciais sólidas, que olham desafiadoramente para um pequeno edifício de quatro paredes nuas, o qual representa o tabernáculo wesleyano de Sekondi.
O local sobre o qual se ergue esse edifício simples é histórico. Ali, meio século antes, travou-se a guerra civil entre ingleses e holandeses, na qual perdeu a vida o bom missionário africano Kwamina Affua, batizado pelos bons missionários como James Hayford, antigo Residente Britânico em Kumasi, antepassado de Kwamankra e irmão de Kweku Atta, então Omanhin de Cape Coast. Na condição de pacificador, fora ajudar a separar os combatentes. Durante a luta, foi brutalmente, embora talvez sem intenção, abatido. Paz às suas cinzas! É um lugar sagrado, e não admira que as estrelas em seus cursos parecessem combater os poderes de Mamon em seus esforços para desalojar os fiéis.
Como era a hora da oração, Kwamankra acompanhou a multidão até o edifício sagrado, decidido a verificar por si mesmo o resultado de cinquenta anos de esforço missionário. Reconheceu aqui e ali alguns rostos familiares. Ali estava Kwesi Yaw, que não passava de um garoto e aprendiz de carpinteiro nos tempos escolares de Cape Coast. Como envelhecera! As marcas das preocupações estavam profundamente gravadas em seu rosto. Mais adiante estava Esi Maynu, que fora lavadeira no antigo internato. As marcas da idade também estavam sobre ela; e, quando Kwamankra se lembrou de quão alegres e vivazes haviam sido todos eles, os jovens, naqueles dias passados, foi tomado por uma sensação de tristeza.
O que faziam ali? Tinham vindo adorar, naturalmente. Mas não adoravam também, naqueles dias distantes, quando eles, os jovens, davam-se as mãos sob o luar, a céu aberto, e cantavam canções Sanko? Mesmo então, para Kwamankra, as palavras de seu familiar Sanko estavam repletas de significado; e, ao ouvir naquele dia o som ofegante de um velho harmônio, no qual um rapaz da missão tocava, não pôde deixar de pensar em quanto seu povo perdera ao abandonar seus próprios caminhos pelos do homem branco. Em lugar do harmônio, tinham castanholas, com as quais marcavam o ritmo enquanto um deles, Kobina Edu, executava o solo do Sanko predileto e os outros se uniam no coro. Ele se lembrava muito bem das palavras e prontamente as recordou:
Mi sankofu, wo nwhe bra yaku aya,
Inwhe bra wumba arku awiay;
Aryarsa, ye yi iou be ye biada!
Obiri, Osaivu si ay!
Adayaivi, osaivusi,
Mirny ona, bada miyamu.
Afi yi na nisini ya funa!
Anayaivi, mi dofu, mimyona ba da miyam!
O que significa:
Companheiros meus, vede como lutamos bem,
Contemplai até onde vossos filhos se esforçaram;
Se assim for, continuaremos lutando!
Ela é negra e formosa, é semelhante a seu pai!
Estrela da manhã, és semelhante a teu pai!
Minha amada, vem ao meu abraço;
Meu Salvador, vem ao meu peito.
Como estamos cansados nesta estação!
Estrela da manhã, minha amada, minha querida, vem ao meu abraço!
Quão simples, quão natural, quão espontâneo era tudo aquilo, em comparação com o refrão de “Ousa ser um Daniel”, composto e cantado por Ira D. Sankey, que o rapaz da missão, com tanto esforço, tentava tocar no tom correto. Aqueles haviam sido os dias da saudável virilidade Fanti. A nação perdeu a promessa de sua juventude e provavelmente inclinará seus cabelos grisalhos, em tristeza e vergonha, para a sepultura.
A congregação era composta, em sua maior parte, por crianças, cada uma vestida com alguns metros de tecidos grosseiros de Manchester. À frente do coro estava o mestre-escola, cujo traje certamente atraía a atenção. Com sua elegante casaca preta de manhã, de abas recortadas, os punhos e o colarinho primorosamente engomados, sem falar nos sapatos de couro envernizado, que mantinha impecavelmente brilhantes, espanando-os de vez em quando com o lenço guardado na manga da camisa, ele certamente parecia um verdadeiro “elegante”, mas também parecia um verdadeiro tolo.
E essa era a soma total de meio século de zelo e esforço missionários. Teria sido para isso que os pais simples e bondosos de nossa raça sofreram e morreram? Rogaram por luz para si mesmos e para os filhos de seus filhos. Mas, em vez de luz, dizei, ó Deuses, não pairam trevas sobre a terra?
O pregador era um homem branco que pregava para uma congregação negra; e, do lado de fora, na parede frontal do edifício sagrado, via-se um aviso informando a quem pudesse interessar que, em determinada hora daquele dia, haveria um culto para europeus na Casa do Clube, junto à estação. Kwamankra afastou-se enojado.
Mais tarde, naquele mesmo dia, encontrou Essi Maynu, a mesma lavadeira dos tempos antigos. Disse-lhe:
“Lembra-se de mim, Essi?”
Ela o examinou de alto a baixo e fez menção de abraçá-lo, mas conteve-se.
“O que há?”, perguntou Kwamankra. “Sua nova religião a ensina a envergonhar-se dos velhos amigos? Ora, para mostrar-lhe que eu, pelo menos, não mudei, virei esta noite com alguns de meus Sankofu; e não teremos uma bela reunião com música e dança?”
Ela ergueu os olhos num santo horror, como se dissesse: “Para trás de mim, Satanás.” Kwamankra recuou como um homem derrotado, mas a lição não se perdeu para ele. Dali em diante, resolveu dedicar o restante da vida a reconduzir seu povo à simplicidade e à fé primitivas. E, nessa resolução, meditou sobre as palavras:
“O Bushido, ou xintoísmo, oferece-nos o ideal da pobreza em lugar da riqueza, da humildade em lugar da ostentação, da reserva em lugar da publicidade, do sacrifício de si em lugar do egoísmo, do cuidado com os interesses do Estado em vez dos interesses do indivíduo. Inspira coragem ardente e a recusa de voltar as costas ao inimigo. Contempla serenamente a morte e a prefere a qualquer espécie de ignomínia. Prega a submissão à autoridade e o sacrifício de todos os interesses particulares, sejam os do próprio indivíduo, sejam os da família, em favor do bem comum. Exige que seus discípulos se submetam a rigorosa disciplina física e mental, desenvolve o espírito marcial e, exaltando as virtudes da coragem, da constância, da fortaleza, da fidelidade, da audácia e do domínio de si, oferece um elevado código de princípios morais, não somente para o homem e para o guerreiro, mas para homens e mulheres, tanto em tempos de paz como de guerra.”
“É isso; é isso; encontrei”, disse Kwamankra. “Para que meu povo seja salvo da morte nacional e racial, deverá ser provado como pelo fogo, mediante a prática de uma religião viril, e não seguindo sentimentalismos emasculados que os homens, de maneira desavergonhada e caluniosa, identificam com o Santo de Deus, Seu filho Jesus Cristo.”