1 - Frio no Calcanhar? O Pé de Chinelo do Papai Noel · Capítulo 1 de 22
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1 - Frio no Calcanhar?

Capítulo 1: Frio no Calcanhar?

Antes do sino da Torre Grande tocar, acordou Papai Noel, e isso, no Polo, já era uma forma de erro, porque o lugar inteiro fora ensinado a respeitar seus horários com obediência mineral, como se o gelo, as prensas, os fornos, as esteiras e os duendes de cronômetro na mão houvessem firmado um pacto antigo com a ideia de pontualidade, de modo que cada atraso fosse pecado e cada sobressalto, uma falha de produção. Deitado ainda, olhos no teto escurecido, percebeu ele que havia no quarto um vazio difícil de localizar, uma falta que não vinha de barulho algum, e sim de um pequeno descompasso interno, como se o corpo soubesse antes da mente que alguma coisa banal desaparecera e que dessa banalidade dependia, em segredo, mais ordem do que todos os relatórios ousariam admitir.

Sentou-se devagar, alcançou os óculos, esticou o pé para fora do cobertor e procurou o chinelo esquerdo no gesto automático de todos os dias. O direito respondeu de primeira, manso, conhecido, amaciado por anos de uso. O esquerdo, não. No lugar da lã gasta, encontrou apenas a madeira fria, lisa demais, honesta demais. Tentou de novo, depois mais uma vez, movendo o pé no escuro como se insistência bastasse para obrigar o mundo a se recompor, até que, já desperto por inteiro, baixou o olhar e aceitou a cena pequena e absurda, um chinelo solitário, o outro ausente, a ordem do amanhecer quebrada por uma falta que pareceria ridícula a qualquer observador sensato.

Ridícula lhe pareceu no primeiro instante. Em seguida, pesada. O pé esquerdo daquele chinelo carregava uma superstição privada, dessas que sobrevivem envergonhadas em homens transformados em símbolo. Chamava-o de seu pé de coelho, sorrindo ao dizer isso para que a frase parecesse brincadeira, embora nem os duendes mais antigos rissem com verdade, nem a Senhora Claus, em vida, lhe oferecesse mais do que um olhar longo, terno e severo, como quem sabe que certas crenças apenas cobrem rachaduras velhas. No armário havia reservas, pares novos, pares melhores, pares produzidos com o mesmo capricho decorativo com que se forjam personagens públicos. Nenhum lhe servia. O que faltava não era um chinelo qualquer. Faltava uma regularidade secreta, um compasso íntimo, a ilusão de que alguma parte do mundo ainda obedecia a uma lógica fora do alcance dos painéis.

Vestido o casaco, saiu para o corredor, e o Polo já trabalhava em velocidade moral, duendes correndo com caixas, cabos, etiquetas, tablets, gráficos de humor e tabelas de felicidade estimada. Nas paredes, slogans motivacionais lembravam a todos que magia e produtividade eram nomes da mesma disciplina. No grande galpão, esteiras cruzavam o espaço como rios domesticados, brinquedos falavam frases prontas sobre alegria enquanto mãos cansadas fechavam embalagens brilhantes em cadência de reza industrial. De repente, o que por anos lhe parecera inevitável mostrou outra face, as caixas tinham códigos no lugar de nomes, os turnos valiam mais do que os rostos, e ele próprio, parado no centro daquela engrenagem, parecia menos dono da oficina do que mascote exausto de uma marca planetária que precisava de sua barba para vender inocência em escala.

Perguntou pelo chinelo a um duende antigo, depois ao chefe de produção, recebeu de volta soluções de estoque, ofertas de reposição imediata, protocolos de rastreamento, como se o desaparecimento tivesse de ser traduzido a qualquer custo para o idioma seguro dos bens substituíveis. Nenhuma resposta tocava o que de fato o inquietava. Quando saiu para a varanda lateral e viu ao longe, fora do circuito de luzes e dos cartões-postais, o contorno torto das tendas onde viviam os substituídos, os expulsos, os feridos, os velhos e os filhos de quem nunca entrou na lista principal, a falta do chinelo cresceu de tamanho e mudou de nome dentro dele. Não se tratava mais de objeto. Parecia convocação. Com um chinelo no pé direito e o frio do assoalho ferindo o esquerdo, desceu os degraus e tomou a direção das sombras, deixando para trás pegadas tortas na neve, como se o próprio caminho aprendesse a mancar com ele.

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