3 - O Retorno ao Centro
Capítulo 3: O Retorno ao Centro
Mais longo pareceu o caminho de volta, embora fossem os mesmos trilhos, as mesmas passarelas, os mesmos portões de acesso graduado. O que mudara era o corpo, porque voltava Papai Noel do lado de lá carregando dentro do chinelo o calor improvisado de gente sem código, e esse detalhe mínimo lhe alterava o passo. À medida que as tendas desapareciam atrás das estruturas oficiais, reapareciam a neve limpa demais, as luzes calculadas, os sensores de humor, os corredores sem erro aparente, como se o Polo se esforçasse para oferecer de novo sua narrativa de perfeição produtiva antes que a mancha do mundo marginal se fixasse no olhar de quem regressava.
No grande salão de planejamento, esperavam-no mapas em tempo real, coordenadores com tablets, analistas de rota, chefes de experiência, supervisores da entrega emocional e toda a fauna técnica de uma fábula industrial que aprendera a renomear a realidade para não precisar enfrentá-la. Falavam de margens, de janelas de confiança, de centros de visibilidade, de famílias de alto impacto simbólico, de áreas onde o Natal precisava parecer mais nítido para que continuasse crível no planeta inteiro. Perguntou então Papai Noel por certas zonas quase apagadas do mapa, manchas neutras reduzidas a ruído operacional, e a resposta veio sem culpa, baixa demanda registrada, baixa recompensa reputacional, baixa aderência ao espírito da marca. Nunca uma linguagem tão educada lhe parecera tão brutal.
Ficou algum tempo observando os rostos em volta da mesa. Não via ali monstruosidade individual, via adesão. Gente capaz, cansada, eficaz, alguém sempre com um argumento razoável à mão, um prazo, um índice, uma preocupação estratégica, e talvez por isso mesmo o horror se apresentasse de modo mais perigoso. Ninguém precisava desejar a exclusão para mantê-la. Bastava aceitar as métricas que a tornavam tecnicamente sensata. Quando disse que a imagem do Natal já estava afetada e apenas não por quem decidia, um silêncio de repartição se espalhou, aquele silêncio em que todos compreendem e ninguém pretende mover a primeira pedra.
Pediu revisão de rotas, de listas, de critérios de prioridade, sabendo que o pedido soaria como excentricidade de símbolo cansado ou surto moral tardio. Ainda assim pediu. O que antes chamaria de funcionamento agora lhe parecia encenação metódica. Tocando o pé esquerdo no chão, sentindo o remendo pressionar o calcanhar, entendeu que a ausência de nomes nas tendas e a abundância de códigos no centro pertenciam a uma mesma política de distribuição do invisível. Não se tratava de acidente. O Natal fora desenhado para aparecer com esplendor onde podia render legitimidade e para atrasar ou sumir onde nenhuma câmera de prestígio pisaria depois.
Saiu da sala sem ilusão de ter alterado a engrenagem por um decreto de consciência. O máximo que conseguira fora introduzir dissonância. Ainda assim, em sistemas muito treinados para a repetição, uma dissonância pequena pode produzir trabalho demais. Nos corredores, os sinos programados continuavam a soar com disciplina irritante. Pela primeira vez em anos, no entanto, pareceu-lhe que cada toque também marcava outra coisa, o prazo curto que restava antes de a noite de Natal exigir dele mais do que um gesto de desconforto.