13 - O Custo do Atraso O Pé de Chinelo do Papai Noel · Capítulo 13 de 22
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13 - O Custo do Atraso

Capítulo 13: O Custo do Atraso

Veio o primeiro aviso em forma de planilha, como convém aos regimes que preferem a elegância dos números ao desconforto de chamar escolhas por seus nomes. Uma linha piscou em tom mais quente, um setor de monitoramento pediu reconfirmação de parâmetros, técnicos curvaram-se sobre telas com a gravidade modesta dos que sabem estar diante de algo importante e mesmo assim falam em variação de margem para não precisar pronunciar culpa. Atraso era a palavra visível. O que se escondia por baixo era outra coisa, a eventual perda de prioridade de zonas que há muito se acostumaram a ser servidas primeiro.

Papai Noel perguntou o que acontecia quando essas áreas eram postas em espera. Responderam-lhe, como sempre, com o idioma dos impactos. Reputação. Confiança. Repercussão. Jornal do dia seguinte. Marcas associadas. Prejuízo de experiência. Nenhuma das palavras mencionava crianças concretas, e talvez essa fosse a maior prova da captura do Natal, a parte mais luminosa da festa passara a ser defendida menos como cuidado humano e mais como ativo de estabilidade. Onde o atraso não gerava notícia, dizia o sistema, não havia dano mensurável. Em certos lugares, portanto, podia-se esperar para sempre.

Olhou para o gráfico principal e viu ali, em formato quase bonito, a pedagogia da desigualdade. Algumas casas precisavam ser alcançadas no minuto exato para confirmar a credibilidade do encantamento. Outras podiam ser adiadas indefinidamente sem comprometer o funcionamento geral. O custo do atraso, concluiu, nunca foi universal. Sempre teve endereço de prestígio. O resto entrava em nota de rodapé, quando entrava.

Mandou então que mantivessem ativas as simulações alternativas e exigiu ver não o custo abstrato do desvio, e sim sua contabilidade moral, quem perdia o quê, quem ganhava quanto, quem deixava de ser servido para que outro quadro permanecesse intacto. Criou-se no setor um desconforto parecido com o da sala das listas. Os técnicos sabiam calcular tempos. Não estavam acostumados a ter de cruzar esses tempos com o peso real das vidas. Ao fim da reunião, saiu Papai Noel com a certeza de que o atraso que mais apavorava o sistema não era o do presente. Era o atraso da consciência pública em perceber a engenharia das prioridades.

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