15 - O Algoritmo do Natal
Capítulo 15: O Algoritmo do Natal
A meio caminho da segunda zona desviada, abriu-se no painel um módulo que raramente lhe era mostrado inteiro, o de priorização dinâmica de afeto. Talvez por erro, talvez por saturação do sistema, talvez porque algumas máquinas começam a revelar-se quando são forçadas além do protocolo, e o que viu ali Papai Noel jamais esqueceria. O algoritmo do Natal cruzava variáveis que nenhum discurso oficial suportaria admitir em voz plena, potencial de recompra, visibilidade de fachada, probabilidade de compartilhamento, aderência emocional da família, conveniência geográfica, risco de frustração narrativamente nociva, compatibilidade com a imagem do ano.
Não bastava ser criança. Não bastava esperar. Não bastava precisar. Havia pesos invisíveis regulando a densidade da magia distribuída. Certas casas recebiam mais do que brinquedo, recebiam confirmação de pertencimento ao quadro principal da festa. Outras recebiam apenas o residual técnico necessário para que o sistema pudesse alegar alcance amplo em relatórios de fim de ciclo. Olhando aquela arquitetura fria, percebeu Papai Noel que o algoritmo não destruía o Natal de forma frontal. Fazia pior. Traduzia-o para uma racionalidade capaz de parecer natural depois de alguns anos de uso.
O Mestre de Voo, vendo seu silêncio, perguntou se queria desligar a visualização. Respondeu que não. Havia chegado longe demais para preferir conforto. Continuaram assim por alguns minutos, o trenó rasgando o escuro enquanto na tela brilhavam pesos, correlações e funis de atenção. Nunca lhe parecera tão evidente a distância entre o mito que o sustentava e a engenharia que o utilizava. Não vendiam apenas brinquedos, vendiam gerenciamento de percepção sobre quem merecia ser visto em hora nobre pela fantasia coletiva.
Foi nesse capítulo da noite que amadureceu dentro dele uma ideia sem heroísmo, talvez o algoritmo não pudesse ser destruído ali, sob o céu da distribuição, por um único gesto de revolta. Podia, no entanto, ser contaminado por presenças não previstas, por nomes sem métrica, por desvios pequenos e cumulativos. O pensamento ainda era semente. Mesmo assim, guardou-o. Em sistemas de controle, uma semente vale mais do que um grito que o próprio sistema já espera.