21 - O Acordo com o Frio
Capítulo 21: O Acordo com o Frio
Quando o amanhecer enfim se aproximou, fez Papai Noel seu acordo mais triste e mais útil. Não o firmou diante de conselho algum, nem o escreveu em termo oficial, nem o compartilhou com renas ou duendes. Firmou-o consigo e com o frio, esse mesmo frio que lhe atravessara o pé nu no início de tudo e que agora parecia menos inimigo do que testemunha. Permaneceria. Não por acreditar na bondade da máquina. Não por resignação elegante. Permaneceria porque entendeu que a ausência total de um agente cansado e consciente serviria, naquele momento, ao sistema melhor do que sua permanência ferida.
Aceitar isso exigiu dele uma renúncia dupla. Renunciava ao sonho limpo de romper com tudo em gesto único. Renunciava também a fingir que nada sabia. O acordo com o frio consistia em continuar funcionando sem voltar a acreditar nas justificativas da engrenagem. Seguiria a vestir o casaco, a subir no trenó, a cumprir ritos, a comparecer quando o símbolo fosse exigido. A diferença estaria nos milímetros, nas zonas de manobra, nos nomes restituídos, nos atrasos escolhidos, nas pequenas desordens que não pudessem ser totalmente convertidas em campanha.
Lembrou-se da criança que dissera que ali sempre faltava um. Talvez fosse esse o ponto de partida de sua nova fidelidade, não a plenitude falsa dos painéis, e sim a falta reconhecida. Um sistema que se apresenta como totalidade invencível teme sobretudo aquilo que insiste em lembrá-lo de suas ausências. Seria ele, daqui por diante, guardião discreto dessas ausências, não para consagrá-las, e sim para impedir que desaparecessem de vez sob a sucessão infinita de narrativas brilhantes.
Ao descer do trenó já com a luz pálida do dia, não se sentiu redimido. Sentiu-se mais velho. Isso bastava. Em certas histórias, amadurecer significa apenas trocar a ilusão da grande saída pela disciplina difícil de não entregar de novo a alma inteira ao mecanismo.