6 - A Crise Perfeita
Capítulo 6: A Crise Perfeita
No dia em que a campanha foi ao ar, nenhum setor do Polo pareceu surpreso, apesar de todos encenarem surpresa com grande competência. Primeiro vieram os moralistas de plantão, denunciando a sandália como senha de uma deformação civilizatória muito maior do que ela poderia suportar por si. Em seguida vieram os defensores da atriz, da arte, do gesto duplo, da renovação de linguagem, da beleza de um ano que pisaria com os dois pés em vez de repetir velhos auspícios unilaterais. Em poucas horas, a crise estava montada com tal perfeição de movimentos que a Papai Noel pareceu assistir não a um conflito espontâneo, e sim a uma peça que só precisava de cenografia para parecer histórica.
O mais inquietante vinha dos telões de monitoramento. Cada declaração de boicote elevava indicadores de lembrança de marca. Cada insulto aumentava o desejo de resposta. Cada defesa apaixonada convertia-se em trilha para nova circulação. O setor comercial sorria com compostura. O setor de integridade lamentava publicamente o acirramento. O setor artístico falava em liberdade de criação. O setor jurídico mantinha protocolos aquecidos. Nenhum deles trabalhava contra o outro. Todos ocupavam nichos complementares na administração da tempestade.
Vieram depois os comentaristas profissionais, uns dizendo que a campanha apenas revelara o autoritarismo de sempre, outros jurando que ela simbolizava a captura completa da cultura por um projeto ideológico rival. O que ninguém nomeava com nitidez, embora estivesse diante de todos, era o ganho sistêmico produzido por essa encenação em espiral. A cada nova indignação, vendiam-se mais sandálias. A cada nova celebração, ampliava-se o prestígio de quem a estrelara. A cada acusação de cancelamento, fortalecia-se a necessidade de gestores, mediadores, curadores e consultores de crise. O sistema inteiro brilhava com a pseudoameaça de sua própria desordem.
Papai Noel assistiu a tudo da sala secundária de acompanhamento, sem que sua presença fosse solicitada no primeiro momento. Não por esquecimento, e sim por método. Sabiam que seu rosto seria usado apenas quando a crise precisasse de solda moral mais ampla, algo capaz de recolocar os lados em estado administrável sem destruir a tensão de superfície. Seria chamado como selo de humanidade, como pai cansado, como último símbolo comum disponível para remendar a arena. Perceber isso com antecedência produziu nele uma espécie de nojo limpo, pouco teatral, porque apontava para a profundidade da previsão dentro da máquina.
Quando enfim o convocaram para pronunciar-se, comedidamente, em nome do espírito de conciliação e da liberdade de caminhar com ambos os pés sem esquecer a história dos que mancam, entendeu Papai Noel que a crise perfeita não era a que ameaçava o sistema. Era a que permitia ao sistema crescer enquanto todos juravam vê-lo ruir. E se aquela era apenas uma campanha de verão vinculada a uma temporada de prêmios e boicotes de conveniência, quão vasto seria o alcance da engrenagem que conseguia extrair valor de cada uma de suas supostas rachaduras.