12 - O Ensaio da Noite
Capítulo 12: O Ensaio da Noite
Na véspera da grande distribuição, realizaram o ensaio geral das rotas com seriedade de operação militar e charme cenográfico de espetáculo familiar. O trenó foi alinhado no hangar, as renas conectadas aos painéis de desempenho, os mapas projetados em escala total sobre as paredes, e cada setor aguardava do símbolo máximo da festa um gesto de adesão calmo, quase paternal, para que a máquina pudesse entrar na noite sem dúvida demais. Papai Noel subiu na estrutura como sempre fizera, consciente de que todos esperavam dele não apenas competência, e sim confirmação do rito.
A simulação oficial seguiu limpa durante os primeiros minutos. Janelas de entrega, margens de sorriso, tempos de permanência no alto das casas, intensidade ideal do tilintar, tudo corria em ordem. Quando, no entanto, ele pediu que ativassem em paralelo as rotas alternativas das zonas residuais, uma tensão muito pequena e muito nítida atravessou o hangar. Ninguém protestou de modo frontal. Vieram antes observações de prudência, impactos reputacionais, risco de atraso, insegurança do público quanto à promessa central da noite. Em outras palavras, o sistema mostrava seus limites sem precisar gritar.
Insistiu Papai Noel. Queria ver o custo. Queria ver quanto tempo de escândalo produziria o simples gesto de incluir no circuito aqueles que o mapa habitual educara todos a chamar de baixa relevância. A simulação revelou linhas menos elegantes, curvas mais demoradas, uma dança menos bela para quem ama a coreografia da eficiência. Revelou também que o atraso principal surgia sempre nos mesmos pontos, aqueles de maior visibilidade comercial, as vitrines do Natal, os centros onde uma falha de poucos minutos já bastava para produzir notícia, ansiedade e demanda por gestão de crise. No resto, o atraso sempre existira, apenas sem nome público.
Uma técnica jovem, talvez tocada por algum resto de vergonha, disse em voz baixa que nunca havia visto o mapa daquela forma. Parecia outro mundo, mais confuso, mais verdadeiro. Papai Noel não respondeu de imediato porque entendia o que ela queria dizer. O ensaio lhe mostrava uma obviedade cruel, a noite de Natal não falharia se alcançasse os esquecidos; falharia para os interesses que precisavam da hierarquia invisível entre cenas dignas de câmera e vidas empurradas para o fundo. No fim da simulação, nada foi oficialmente alterado. Ainda assim, todos no hangar sabiam que alguma coisa perigosa passara a existir, a imagem clara de uma outra noite possível.
Ao deixar o hangar, com o remendo do chinelo pressionando o calcanhar e o frio lembrando-lhe o caminho das tendas, sentiu Papai Noel que o ensaio servira menos para preparar a distribuição do que para medir a rigidez das grades. Agora conhecia melhor o limite das transições permitidas. Conhecer o limite, pensou, talvez fosse o primeiro passo para tocar nele na hora certa.