17 - O Filme dentro do Filme O Pé de Chinelo do Papai Noel · Capítulo 17 de 22
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17 - O Filme dentro do Filme

Capítulo 17: O Filme dentro do Filme

Num intervalo forçado entre duas rotas, abriu-se um canal privado vindo do setor de imagem. Não pediam retorno imediato. Ofereciam contexto, bastidores, documentos de apoio, tudo sob a forma amena com que se apresentam os sequestros sem arma aparente. Ali viu Papai Noel a segunda camada do espetáculo, um minidocumentário já em pré-produção sobre a semana do boicote, a atriz admirável, o filme de denúncia do antigo gelo autoritário, o embate simbólico da campanha e, agora, a possibilidade de incluir também um Papai Noel cansado, humano, quase trágico, atravessando o conflito com sabedoria paternal.

Quiseram fazer do próprio abalo dele um gênero. O filme dentro do filme já estava sendo montado antes de a noite terminar. Imagens da atriz premiada seriam cruzadas com tomadas do trenó, com depoimentos sobre a necessidade de caminhar com os dois pés, com especialistas debatendo como o Natal precisava ouvir todos os lados. Nenhum quadro mentia por completo. Esse era o requinte da operação. Mentia-se menos por falsidade bruta do que por montagem seletiva de verdades parciais.

Entendeu então que sua exaustão, se expressa do jeito errado, seria prontamente convertida em nova peça de legitimação do mesmo sistema que a produzira. O sofrimento do símbolo, longe de desorganizar a engrenagem, poderia servi-la como prova de profundidade. Até a autocrítica do Natal, se bem filmada, voltaria ao mercado como valor agregado. O pensamento o deixou fisicamente cansado, porque retirava do desabafo até mesmo a inocência.

Desligou o canal sem responder. Não por rebeldia teatral. Fazia-o por preservação. Algumas dores precisam permanecer sem legenda por um tempo ou acabam alugadas cedo demais por quem sabe monetizar nuance. Naquela noite, pela primeira vez, decidiu Papai Noel que o silêncio calculado talvez pudesse valer mais do que a explicação pronta.

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