4 - As Listas que não se Cruzam O Pé de Chinelo do Papai Noel · Capítulo 4 de 22
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4 - As Listas que não se Cruzam

Capítulo 4: As Listas que não se Cruzam

A sala das listas ficava no núcleo mais antigo do Polo, guardada não por soldados nem por trancas visíveis, e sim por um respeito administrativo tão antigo que quase ninguém perguntava por ela. Ali sobreviviam armários de madeira anteriores aos terminais digitais, fichários de ferro, arquivos híbridos em que o passado burocrático e a tecnologia recente se apoiavam para produzir a ilusão de continuidade. Entrando naquele lugar com o pretexto de uma auditoria de rotina, descobriu Papai Noel o que sempre pressentira sem formular, não existia uma lista. Existiam várias, e elas não se cruzavam por completo porque haviam sido feitas para servir a propósitos diferentes.

Havia a lista da entrega afetiva, onde se concentravam os lares fotografáveis, as zonas de forte retorno simbólico, os bairros que davam belas imagens de janela, neve, lareira e criança de rosto limpo. Havia a lista do consumo, onde importava não a alegria declarada, e sim a potência de recompra, a elasticidade do desejo, a chance de transformar um brinquedo em continuidade de mercado. Havia a lista do risco narrativo, na qual apareciam as áreas que não podiam ser negligenciadas porque um atraso ali geraria ruído público capaz de escapar aos curadores da festa. E havia ainda, mantida em nível subterrâneo de visibilidade, a lista residual, lugares sem recompensa clara, corpos fora do quadro, famílias tecnicamente existentes e estrategicamente adiáveis.

Leu tais documentos como quem vê um mapa moral desenhar-se por baixo do almanaque oficial. O que mais o perturbou não foi a existência das categorias, e sim a naturalidade com que conviviam, como se fosse óbvio que uma casa pudesse valer mais do que outra por sua capacidade de compor encantamento, de gerar circulação ou de evitar crise de imagem. Ao lado das listas havia tabelas de transição. Uma entrega podia sair da coluna do afeto para a do risco, da do risco para a do consumo, da do consumo para a da neutralização simbólica, e assim a festa revelava sua natureza menos como generosidade universal do que como sistema de administração de percepções concorrentes.

Uma técnica jovem, chamada apenas pelo crachá, aproximou-se quando percebeu seu espanto e, sem ironia, explicou que aquilo era necessário para manter o Natal inteligível em escala global. Não dizia mal. Dizia método. Nessa hora entendeu Papai Noel que o problema da engrenagem não era ocultar-se por completo, e sim apresentar-se sempre com justificativas suficientemente plausíveis. A invisibilidade de muitos se tornava aceitável porque cada recorte podia ser descrito como otimização, cuidado de marca, proteção de reputação, distribuição eficiente do imaginário. Visto em conjunto, o sistema era obsceno. Visto em planilhas separadas, adquiria a modesta decência dos processos.

Quando pediu que cruzassem as listas com nomes reais, recebeu como resposta um embaraço técnico, não era praxe, não havia protocolo, isso ampliaria demais a margem de responsabilidade. Essa última expressão lhe ficou presa, ampliaria a margem de responsabilidade. Exatamente. Ali estava o ponto. As listas não se cruzavam porque, se cruzadas, obrigariam o Natal a admitir sua própria política de escolha. E um sistema que depende de inocência performática prefere sempre fracionar a culpa. Ao sair da sala, levando consigo a memória de várias colunas que jamais deveriam ter existido separadas, soube Papai Noel que a história do chinelo perdido acabara de crescer outra vez.

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