7 - O Boicote que Acende O Pé de Chinelo do Papai Noel · Capítulo 7 de 22
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7 - O Boicote que Acende

Capítulo 7: O Boicote que Acende

Mais forte do que qualquer anúncio pago, mostrou-se o boicote. Foi ele quem acendeu de verdade os painéis, quem puxou vendas laterais, quem ordenou reações em cadeia, quem ofereceu à imprensa o combustível ideal para uma semana inteira de teor interpretativo. Não tardou para que no Polo se comentasse, com a falsa reserva dos que já contam lucros por dentro, que os setores ultrajados haviam feito mais pela campanha do que todo o planejamento original. As sandálias tornaram-se senha, provocação, distintivo, piada, gesto de pertencimento, injúria, resposta. Cada uso equivalia a uma pequena declaração de alinhamento, mesmo quando o consumidor jurava agir apenas por gosto.

Papai Noel passou a frequentar o setor de termometria pública, uma ala recente, adornada com mapas de sentimento, gráficos de humor e tabelas de conversão moral. Ali se mediam não apenas vendas ou alcance, media-se a temperatura afetiva dos bandos em disputa, o cansaço, a raiva, o orgulho, o desejo de revanche, a probabilidade de viralização. Descobriu assim que a revolta era tratada como ativo sazonal, tal qual o brinquedo em alta ou a cor do laço daquele ano. Havia índices para insulto produtivo, para indignação improdutiva, para boicote com potencial de escalada e para boicote já saturado, quando então se passava a estimular uma contraofensiva simbólica capaz de reiniciar o ciclo.

Uma analista, talvez esquecida de si mesma pela intimidade com os dados, observou diante dele que nenhuma campanha deveria desejar unanimidade. Unanimidade cansa cedo, disse, sem perceber a obscenidade de converter o consenso em defeito de mercado. O ideal era fratura controlada. Bastava que cada lado acreditasse falar da salvação do mundo enquanto, por baixo, entregava de bom grado o que a máquina mais desejava, tempo, atenção, identificação, compras, fidelidade, demanda por mediação. Nessa hora, um pensamento desconfortável subiu inteiro no espírito de Papai Noel, e se o Natal moderno não vendia mais presentes antes de vender polarização sobre o sentido dos presentes?

Lembrou então das tendas, onde o problema não era interpretar a propaganda certa e sim atravessar o frio. O contraste lhe bateu com tamanha violência que precisou sair por alguns minutos para a varanda lateral. Lá embaixo, duendes continuavam a trabalhar no ritmo das crises produtivas, reembalando lotes, ajustando discursos, preparando linhas especiais para consumidores que comprariam o objeto justamente para punir ou celebrar o objeto. Tudo isso movido pelo mesmo sistema logístico que considerava certas famílias residuais demais para figurar no mapa principal. O boicote acendia o centro e aprofundava as sombras.

Foi nessa altura que compreendeu Papai Noel algo ainda pior do que a hipocrisia dos lados, a sinceridade deles importava pouco. Alguns criam mesmo no boicote. Outros criam mesmo na defesa apaixonada da campanha. O sistema não dependia de cinismo consciente. Dependia de trilhos. Cada sentimento autêntico, uma vez posto a circular dentro do tabuleiro certo, contribuía para a mesma manutenção. O problema, portanto, não estava apenas na má-fé. Estava na forma fixa de transição que capturava até os afetos bem intencionados e os reconduzia ao lucro, ao prestígio e ao reforço do controle.

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