9 - A Marca e o Martelo
Capítulo 9: A Marca e o Martelo
Chamavam de espontaneidade o que já chegava ao mundo com ângulos escolhidos, porta-vozes aquecidos e mapas de repercussão em aberto. Num salão lateral, preparado para crises de médio e alto rendimento, assistiu Papai Noel ao encontro de representantes que jamais usariam a palavra conluio para descrever sua própria convivência. Havia um consultor de tradição encarregado de dar verniz moral ao ultraje, uma gestora de imagem cultural encarregada de preservar a aura progressiva da campanha, um advogado de risco, dois analistas de mercado, uma produtora de bastidores e um emissário do conselho financeiro que falava pouco e sorria menos. Não pareciam aliados. Tampouco se tratavam como inimigos. Ocupavam funções vizinhas no mesmo metabolismo.
A conversa corria em torno de intensidade, timing, margem de ataque tolerável, limite da saturação e janela de reaproveitamento. O martelo do boicote não deveria esmagar a marca, deveria bater com força suficiente para acordar o público e com parcimônia bastante para não destruir o valor residual da disputa. A defesa cultural, por sua vez, não podia pacificar cedo demais, sob risco de desperdiçar a energia adquirida pelo escândalo. Era preciso que cada ala obtivesse sua pequena prova de virtude enquanto o tabuleiro permanecesse montado e rentável. Ouvi-los foi como escutar cirurgiões debatendo o tempo ideal de uma hemorragia controlada.
Ninguém mencionou as tendas. Ninguém perguntou pelas listas residuais. Ninguém se interessou pelo que o Natal fazia com aqueles que não compunham quadro desejável nem audiência competitiva. Tudo ali girava em torno da visibilidade, do prestígio acumulado, da disciplina do dano lucrativo. Papai Noel pensou no título de um livro que nunca escreveria, A Marca e o Martelo, e sorriu por dentro com amargura, porque via enfim o martelo cair sobre a marca e, ao mesmo tempo, a marca usando o próprio golpe como forma de polimento.
Quando o consultor de tradição sugeriu acionar sua imagem em discurso de sobriedade conciliadora, dizendo que sua figura podia oferecer a parte paternal da recomposição, teve vontade Papai Noel de perguntar se em algum momento o pai da festa poderia limitar-se a cuidar dos filhos deixados ao frio. Não perguntou. Aprendera que certas perguntas, quando feitas cedo demais, são apenas incorporadas pelo sistema como prova adicional de complexidade. Guardou-as por dentro, onde perguntas ainda conservam alguma chance de virar desvio.
Saiu do encontro sabendo que o boicote já não era um acidente lateral a ser administrado. Tornara-se parte orgânica da rota de Natal daquele ano, um corredor pelo qual passavam capital, paixão, honra ferida, prestígio artístico e desejo de pertencimento. A marca precisava do martelo. O martelo precisava da marca. E ambos precisavam da crença pública de que se enfrentavam em nome de algo maior do que a própria rodada de manutenção. Tanta inteligência empregada em organizar a fratura parecia-lhe, naquela tarde, uma forma especialmente refinada de cinismo, embora soubesse que muitos participantes continuariam a dormir acreditando servir a causas incompatíveis.