2 - Onde a Neve não Brilha
Capítulo 2: Onde a Neve não Brilha
A neve daquela parte do Polo não tinha brilho de catálogo nem obediência de comercial. Pisada era ela por botas rachadas, por pés pequenos enrolados em pano, por carrinhos tortos, por lixo leve arrastado pelo vento. Misturavam-se ali gelo, cinza, restos de plástico, lascas de madeira e uma paciência triste que nenhuma fotografia festiva suportaria enquadrar. À medida que se afastava das estruturas oficiais, escutava Papai Noel o zumbido das máquinas recuar e, em seu lugar, surgirem tosses secas, murmúrios sem coro, panelas pobres, estalos de barris improvisados de fogo, isto é, o som de um mundo que sobrevivia fora da trilha sonora do Natal.
Perceberam-no aos poucos, uma mulher sentada diante do fogo, um homem encostado numa estaca de madeira, uma criança puxando a manga da mãe e cochichando sem entusiasmo. Ninguém correu para ele. Ninguém pediu presente. Não havia ali a coreografia do desejo ensinada ao resto do mundo. Havia outra coisa, uma atenção cansada, uma forma de olhar que mede antes de acreditar. Quando uma criança reparou no pé descalço e disse, com simplicidade quase administrativa, que ele perdera um, sentiu Papai Noel uma exposição mais funda do que a de qualquer propaganda, porque diante daquela gente seu desequilíbrio não tinha valor simbólico, era apenas uma falta, e de faltas sabiam eles bastante.
Disseram-lhe que o chinelo aparecera na véspera, que alguém o encontrara, que servira de calor melhor do que o chão, que dentro dele haviam colocado mais pano para prolongar a utilidade, e nada em tais frases carregava desrespeito. O homem que explicava isso o fazia com a calma de quem descreve uma necessidade elementar, e a mulher que ofereceu a devolução não oferecia generosidade, oferecia apenas a devolução sem ilusão de barganha, porque ali nada havia com que negociar. Quando, das dobras de uma tenda, trouxeram o pé esquerdo do chinelo remendado por linha grossa, escurecido pelo uso recente, pressionado por um calor humano que não era seu, recebeu Papai Noel o objeto com as duas mãos, como se pegasse de volta não um amuleto, e sim uma prova.
Perguntou, depois de longo silêncio, se recebiam presentes. Veio a resposta em fragmentos curtos, sobras, caixas quebradas, mercadoria encalhada, discursos sobre paciência, promessas para o ano seguinte. Uma voz, de trás, observou que em certos anos não chegava brinquedo algum, chegava apenas explicação. A frase feriu mais do que devia porque era verdadeira também no centro do sistema, onde explicações sempre chegavam antes das mudanças. Calçou então o chinelo remendado e percebeu que o ajuste agora era outro, menos superstição privada, mais memória alheia. Não se encaixava apenas ao pé. Prendia-se ao pensamento.
Ao sair dali, deixando o casaco nos ombros de uma mulher com um bebê e sem conseguir prometer mais do que um talvez, entendeu com claridade desconfortável o tamanho do recorte no qual vivera. O Natal, como lhe era vendido pelos painéis e pelas canções, não desaparecia naquelas tendas, apenas revelava seu avesso, e esse avesso não era exceção triste, fazia parte do mecanismo. Com o chinelo de volta e o equilíbrio definitivamente perdido, tomou o caminho do centro já sabendo que o problema não era mais reencontrar o que faltava, e sim decidir o que fazer depois de ter visto onde o sistema guardava o que não cabia na festa.