11 - A Engrenagem Sorri
Capítulo 11: A Engrenagem Sorri
Mais cansado do que furioso, passou a observar Papai Noel a máquina em operação como quem finalmente enxerga seu sorriso. Não um sorriso humano, claro, e sim esse modo pelo qual uma engrenagem demonstra tranquilidade ao converter até mesmo o golpe em combustível de rotação. O boicote seguia crescendo. A defesa da campanha seguia crescendo. A atriz recebia novas coroas de prestígio por seu ano extraordinário. O filme contra a brutalidade antiga ganhava prêmios e orgulho nacional. Os setores moralistas prometiam retaliações. Os analistas de marca celebravam a exposição. Cada notícia parecia contradizer a anterior. Vista de cima, contudo, a curvatura geral era de ganho.
No setor de recompensas cruzadas havia uma tela pouco visitada por quem falava em valores absolutos. Ela mostrava o efeito combinado de escândalo, defesa, compra de oportunidade, recirculação de acervo, valorização reputacional de catálogo, procura atrasada por produções da atriz e pelo filme premiado, aumento de interesse na marca, deslocamento de capital para campanhas futuras, fortalecimento da imagem de coragem de uns e de guardiões ofendidos de outros. Tudo isso em linhas coloridas, suaves, quase bonitas. A engrenagem sorria ali, sem pudor, mostrando que a sociedade podia rasgar-se em público desde que o rasgo obedecesse aos limites certos.
Veio-lhe então uma compreensão que lhe pareceu pior do que a hipocrisia pura. O sistema não precisava fabricar todos os sentimentos. Bastava oferecer trilhos fixos de transição para sentimentos autênticos. Pessoas honestas, feridas de verdade, orgulhosas de verdade, indignadas de verdade, acabavam desempenhando funções úteis na manutenção do tabuleiro. Talvez por isso o cinismo dos técnicos lhe cansasse menos do que a convicção dos crentes. Contra o cínico, ao menos, a denúncia encontra alvo. Contra a fé aprisionada em roteiro pronto, o trabalho é sempre mais lento.
Nesse dia, de pé junto a uma parede de vidro tratado, olhando a luz refratada do Polo como se visse o interior de um relógio moral, percebeu Papai Noel que o Natal fora capturado não apenas pelo mercado, nem apenas pela política, nem apenas pela cultura de celebridade. Fora capturado pela engenharia das passagens entre esses domínios, pelo desenho de como uma campanha vira polêmica, como a polêmica vira venda, como a venda vira discurso de valor, como o discurso chama reação, como a reação retroalimenta o prestígio que legitima o capital que patrocina a próxima campanha. Plot twist sobre plot twist, todos conduzindo ao mesmo centro de estabilidade.
Entender isso não lhe deu liberdade. Deu-lhe apenas uma lucidez amarga. E lucidez, quando não vem acompanhada de saída limpa, pesa mais do que a ignorância. Ainda assim, alguma coisa mudara. O sorriso da engrenagem, uma vez visto, não voltaria a parecer inocência mecânica.