8 - Os Donos do Encanto
Capítulo 8: Os Donos do Encanto
Foi no arquivo das parcerias estruturantes que a crise deixou de ser apenas midiática e ganhou para Papai Noel a forma de revelação patrimonial. Até ali, sabia ele da marca de sandálias, da atriz celebrada, do filme recente que tomara o país pela gola ao revisitar os porões de um velho regime de gelo, das reações partidárias em torno de tudo isso. Não sabia, ou não se obrigara a saber, como tais peças se encostavam por trás do palco. Um nome puxava outro, um conglomerado sustentava o estúdio, o estúdio premiava o diretor, o diretor herdava cotas de um banco, o banco irrigava o grupo de investimentos, o grupo controlava a marca, e a marca patrocinava a campanha que agora incendiava o boicote.
Nenhuma dessas conexões era ilegal em si. Nenhuma precisava ser escondida em porão sem luz. Estavam disponíveis em contratos, holdings, cláusulas de governança, acordos de circulação de imagem e linhas de crédito que faziam o mercado sorrir com os dentes certos. O que produzia vertigem era a forma como a opinião pública tratava cada elemento como esfera quase autônoma. Ali, a atriz valente do ano de glória. Acolá, o filme laureado por sua crítica ao autoritarismo. Noutro plano, a marca supostamente ousada. Em outro, os moralistas do boicote. Vistos do alto, no entanto, muitos desses nervos voltavam ao mesmo torso financeiro, e o torso, por sua vez, lucrava tanto com a celebração quanto com a repulsa.
Papai Noel leu um memorando interno sobre sinergia reputacional e quase riu, não por achar graça, e sim por reconhecer no eufemismo a coragem perversa dos técnicos. O documento descrevia com frieza elegante o ganho cruzado de prestígio obtido quando arte crítica, consumo cotidiano, ressentimento ideológico e desejo de pertencimento eram conduzidos em conjunto sem jamais se apresentarem como conjunto. Chamar aquilo de alinhamento estratégico era pouco. Tratava-se de uma máquina de multiplicação narrativa, capaz de fazer cada conflito parecer livre enquanto colhia por baixo os juros de todos.
Veio-lhe então a lembrança da sala das listas e da coluna residual. Também ali, sob outra linguagem, o sistema separava mundos para colhê-los melhor depois. A grande novidade, percebeu ele, era que agora a separação atingia não só rotas e famílias, atingia também a inteligibilidade pública. As pessoas recebiam em partes aquilo que, reunido, produziria escândalo maior. Um lado atacava a atriz. Outro defendia a arte. Um terceiro exaltava o boicote como gesto moral. Um quarto vendia a campanha como coragem civil. Enquanto isso, os donos do encanto sorriam na zona onde tais paixões deixavam de se odiar e passavam a compor balanço.
Fechou a pasta com a sensação de ter tocado o centro frio de uma verdade pouco espetacular e muito duradoura. O problema não era que existisse um vilão único sentado sobre um cofre. O problema era a boa costura entre setores que pareciam distintos demais para serem lidos juntos. Um filme contra a violência do passado podia reforçar o prestígio de quem financiava a mercadoria do presente. Uma campanha de sandálias podia alimentar a mesma roda que necessitava do boicote para expandir alcance. Uma indignação moral podia servir a quem supostamente condenava. E ele, Papai Noel, estava lá também, previsto como remendo afetivo de último recurso. Foi a partir desse arquivo que sua exaustão perdeu o resto de ingenuidade que talvez ainda conservasse.