10 - O Conselho das Narrativas O Pé de Chinelo do Papai Noel · Capítulo 10 de 22
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10 - O Conselho das Narrativas

Capítulo 10: O Conselho das Narrativas

O Conselho das Narrativas não ficava nomeado em placa alguma, e talvez por isso existisse com tanta eficácia. Não era uma sala única, nem um órgão formal com estatuto público e fotografias na parede. Funcionava como camada de tradução, um nível de poder onde crises eram convertidas em enredo suportável, onde excessos eram aparados, onde oposições recebiam limites para não escaparem do contorno lucrativo. Ali chegavam os dados do consumo, os termômetros da indignação, os pedidos da imprensa, os surtos ideológicos, os índices de audiência, e dali saíam a dose certa de caos, o ritmo das respostas, a figura conveniente para cada remendo.

Papai Noel entrou nesse círculo não por convite honroso, e sim porque sua utilidade crescera com o desgaste da semana. Precisavam dele para reordenar a percepção pública sem destruir o rendimento emocional da disputa. Ofereceram-lhe café, linguagem moderada, respeito estratégico. Falaram em responsabilidade histórica, em preservar o tecido simbólico do país, em não permitir que extremismos de qualquer parte sequestrassem a festa. Tudo isso em tom capaz de comover observadores honestos. O problema era que, a essa altura, já sabia ele demais para confundir elegância com verdade.

Projetaram diante dele cenários possíveis. Num, apareceria como figura de paz, reafirmando a liberdade de caminhar com ambos os pés sem ferir tradições sensíveis. Noutro, surgiria em defesa de um Natal mais largo, capaz de acolher a renovação sem desprezar a memória. Em outro ainda, permaneceria acima da disputa, pronunciando apenas a necessidade de não transformar sandálias e prêmios em guerra santa. O que mudava entre os cenários era a temperatura do conflito. O tabuleiro, não. Todos o mantinham dentro do mesmo corredor, onde a crise poderia seguir rendendo sem romper o acordo tácito entre controle, prestígio e mercado.

Foi nesse momento que perguntou, com calma demais para ser confundido com ingenuidade, se havia ali algum cenário em que a festa fosse obrigada a responder pelos corpos deixados fora das listas de visibilidade. O silêncio que se seguiu teve qualidade profissional. Não se indignaram. Não fingiram não ouvir. Apenas transferiram a pergunta para outra prateleira, dizendo que temas estruturais exigiam abordagem própria, temporalidade apropriada, foros adequados. Em suma, mais tarde. Sempre mais tarde. O Conselho das Narrativas não negava a dor. Administrava seu tempo de entrada.

Deixou a reunião com a impressão definitiva de que a verdadeira soberania do sistema não estava na fábrica nem nos contratos. Estava na capacidade de decidir quando uma verdade podia circular, em que dose, sob qual legenda e com que margem de atrito. O resto vinha depois. Naquela noite, enquanto os sinos do Polo marcavam mais um ciclo de produtividade, compreendeu Papai Noel que o Natal contemporâneo talvez fosse menos um evento de distribuição do que um regime de tradução controlada do mundo.

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